7 de março de 2021

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Morreu nessa quarta-feira, 17, o último guerreiro da etnia indígena Juma, Aruká Juma, aos 86 anos de idade vítima da Covid-19. O ancião que lutava pela vida desde janeiro deste ano foi um dos sobreviventes do massacre de seringueiros a indígenas no Sul do Amazonas na década de 1960.

Aruká foi internado em um hospital de Humaitá (a 591 quilômetros de Manaus), com quadro de pneumonia e problemas respiratórios. Na unidade, ele recebeu o diagnóstico da Covid-19. Em dois de fevereiro, o quadro de saúde agravado do ancião foi agravado e Aruká foi transferido para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em Rondônia.

Ancião era o último homem do povo Juma (Rede Amazônica/ Reprodução)

O sepultamento estava previsto para ocorrer na noite dessa quarta-feira, 17, na região do Rio Açuã, território da cidade de Canutama, onde fica localizada a aldeia Juma, ao Sul do Estado do Amazonas. Aruká deixa três filhas Juma: Mandeí Juma, Maitá Juma e Boreha Juma; além de 14 netos e bisnetos de outras dissidências tribais.

Luta

Conforme a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, os primeiros registros do povo Juma datam de 1750, na região do Rio Madeira e Tapajós. Em 1948, segundo o órgão, vários grupos de regionais invadiram a aldeia indígena e quase os levaram à extinção.

Em 1985, após estudo in loco na região onde habitavam o povo Juma, o antropológo Güter Kroemer (1939-2009) descreveu o massacre sofrido pelos indígenas após uma invasão de seringalistas e comerciantes de castanha de Canutama. O relato histórico está descrito no jornal impresso Porantim, do Conselho Indgenista Missionário (Cimi). Veja no link.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) classificou a morte do indígena como “devastadora” e “irreparável”. “O povo Juma, falante da língua tupi Kagwahiwa, sofreu inúmeros massacres. Saindo de 15 mil pessoas no início do século XX para quatro pessoas em 2021. Isso é um genocídio comprovado, mas nunca punido, que levou seu povo quase ao completo extermínio”, diz nota.

Página 13 do jornal Porantim, edição nº 291, ano XXVII (Reprodução/Internet)

“O último massacre ocorreu em 1964 no rio Assuã, na bacia do rio Purus, perpetrado por comerciantes de Tapauá interessados pela sorva e castanha existente no território Juma. Mais de 60 pessoas foram assassinadas, apenas sete sobreviveram. Integrantes do grupo de extermínio relataram atirar nos Juma como se atirassem em macacos”, descreveu a associação.

A Apib relembrou que os corpos indígenas foram vistos por ribeirinhos da região, servindo de comida para porcos do mato. “O mandante do crime, ciente do ocorrido, se vangloriou por ter sido o responsável de livrar ‘Tapauá dessas bestas ferozes’. Essa história jamais deve ser esquecida”, salientou na publicação.

Resistência

Aruká era considerado por lideranças como um símbolo de resistência. “Lutou pela demarcação do território Juma, que foi homologado apenas em 2004 a Terra Indígena (TI). Os sobreviventes, apesar do risco de desaparecimento, viram seu povo crescer novamente na década de 2000, por meio de casamentos entre os Uru Eu Wau Wau, povo indígena também de língua Tupi-Kagwahiva”, frisou a associação.

Na nota, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) alertou que os Juma, considerados de recente contato, estavam em situação de extremo risco. “O último homem sobrevivente do povo Juma está morto. Novamente, o governo brasileiro se mostrou criminosamente omisso e incompetente”, finaliza.

Veja também: Amazonas registra 14 mortes de indígenas por Covid-19 em duas semanas

Covid-19

Os Estados da Amazônia Legal chegaram ao total de 34.529 casos de indígenas diagnosticados com o novo coronavírus desde o início da pandemia no Brasil. Desse total, 783 foram a óbito. Os dados foram atualizados até 11 de fevereiro pela Coiab.

Somente no Amazonas, há o registro de 8.674 casos de Covid-19 e 252 óbitos pela doença. Já em Rondônia, 2.157 indígenas foram infectados pelo novo coronavírus e 37 morreram. Os números são informados por notas de falecimento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde; e de lideranças indígenas, profissionais de saúde e organizações da Rede Coiab.