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29 de janeiro de 2022
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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS — De acordo com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), de janeiro a dezembro de 2021, houve, pelo menos, 78 episódios diferentes de ofensas, agressões, ameaças e intimidações contra jornalistas mulheres no País. Os dados são do projeto ‘Violência de Gênero Contra Jornalistas’ divulgados no dia 20 de dezembro de 2021.

Conforme o levantamento, 62% dos ataques às mulheres jornalistas ocorreram enquanto as profissionais cobriam questões políticas. A jornalista amazonense Cynthia Blink integra a lista das profissionais que já foram desrespeitadas em pleno exercício profissional. Para a jornalista, conhecida principalmente por abordar pautas políticas, a violência entre autoridades e jornalistas é constante, e no caso das mulheres, é quase uma tentativa de silenciamento e não aceitação de que a figura feminina seja protagonista até mesmo no mercado de trabalho.

“Com a mulher em especial, temos visto sim esses casos. Na cabeça do outro estamos em um lugar que não é o nosso. Fomos criadas para ser boazinhas, gentis, agradar e deixar o homem ser protagonista em tudo quando se é jornalista, então fica muito claro o quanto a mulher não está no canto, não está quieta e pode estar onde ela quiser. Há àqueles que não aceitam muito bem assistir uma mulher com tanto poder numa profissão como nossa, creio que esse problema passa por aí”, conta Blink.

Os dados são do projeto ‘Violência de Gênero Contra Jornalistas’ divulgados no dia 20 de dezembro de 2021 (Reprodução/ Internet)

Ataques e desrespeitos

Em outubro de 2020, Cynthia Blink em entrevista coletiva do vice-governador do Amazonas, Carlos Almeida Filho (PTB), foi empurrada pela sargento da Polícia Militar e segurança de Carlos Almeida, Michele Welche Silva. Na ocasião, além de Blink, a jornalista especializada em política Rosiene Carvalho, a repórter Júlia Pereira e o fotojornalista Adriano Santos também foram desrespeitados.

O episódio teria ocorrido logo após a postura de Carlos Almeida em relação às investigações de fraudes e desvio de recursos na Saúde do Amazonas. Na ocasião, Almeida não respondeu aos questionamentos da imprensa e realizou, apenas, um pronunciamento de 15 minutos e saiu do local.

Em entrevista à CENARIUM, a jornalista Cynthia Blink afirmou que foi ferida com um arranhão no braço direito e criticou a forma como a coletiva foi conduzida. “Somos jornalistas e, se vamos meio-dia para a pauta, é óbvio que queremos fazer perguntas. Não existe a possibilidade de nos proibir de fazer perguntas”, disse a jornalista sobre o ocorrido.

Além das questões de gêneros, a jornalista lembra que a profissão, naturalmente desafiadora, incomoda pelos questionamentos e buscas de respostas que atendam às interrogações da sociedade. “A violência sempre esteve presente entre nosso meio, a gente incomoda e não estamos atuando para agradar ninguém, não estamos ali para brigar, mas a nossa função é questionar e tem gente que não gosta de responder e tudo bem, mas precisamos fazer”, destaca.

Cynthia Blink mostra o arranhão no braço direito e criticou a forma como a coletiva foi conduzida (Reprodução/ Instagram)

Caso mais recente

Outro caso que também envolveu indiretamente a jornalista Cynthia Blink foi o ocorrido em 13 de dezembro de 2021, quando o vereador e ex-sargento do Exército Rosinaldo Bual (PMN), que se denomina ‘cristão’ nas redes sociais, expulsou uma fotógrafa do portal Manaus 360º da galeria da Câmara Municipal de Manaus (CMM) que estava em pleno exercício profissional. Abalada, a repórter preferiu não se identificar e comentar sobre o assunto.

À CENARIUM, a diretora-executiva do Manaus 360º disse que a profissional foi liberada do trabalho após o ocorrido. Segundo Cynthia, a fotógrafa estava na Galeria da CMM para conseguir imagens para uma reportagem do veículo de comunicação, quando o vereador se sentiu incomodado ao perceber que estava sendo fotografado e se dirigiu até a mulher.

Segundo Cynthia Blink, a fotógrafa relatou que foi escoltada pelo vereador Rosinaldo Bual e os dois servidores até a porta da sala de imprensa. “Ela estava acompanhada do repórter Gabriel Veras. Eu pedi que ele conversasse com esse vereador, porque ele não poderia ter feito isso e expliquei que ela pode sim ficar na galeria o quanto ela quisesse, porque é um espaço para qualquer pessoa acompanhar a sessão e não há nada, no regimento interno, proibindo de fazer imagens”, destacou a jornalista.

Outros dados

Em 71,8% dos casos, as profissionais de imprensa foram alvos de discursos com intuito de estigmatizar a classe. Expressões machistas também integraram a pesquisa somando 41% dos discursos direcionados para as profissionais. Palavras como ‘biscates’, ‘velhas’, ‘loucas’ e ‘burras’ foram usadas contra a classe na tentativa de silenciamento.

Segundo o Relatório Anual de Violações à Liberdade de Expressão, realizado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), divulgado no dia 30 de maio de 2021, em 2020, dos 94 casos de ataques voltados à imprensa, 62 deles o nome ‘Bolsonaro’ esteve presente.

Ainda em 2020, segundo relatório, foram 7.945 por dia, ou quase seis por minuto no setor virtual. A Abraji lançou, no dia 1ª de dezembro de 2021, uma plataforma on-line com “informações sobre as agressões que vitimaram comunicadoras e comunicadores com base em gênero”.

De acordo com dados parciais do estudo, dos 335 ataques direcionados a profissionais da imprensa entre janeiro e outubro de 2021, 23,3% utilizaram o gênero, a sexualidade ou a orientação sexual como argumentos para a agressão.

Desses casos, “dois episódios vitimaram meios de comunicação com viés feminista e cinco situações de homofobia contra comunicadores. Isso representa, em média, um ataque com características de gênero a cada 3,9 dias”, informa a abraji.

O SJP/AM trabalha, atualmente, para criar, ainda no primeiro semestre de 2022, sua Comissão de Mulheres (Reprodução/ Esther Vargas)

Sindicato dos Jornalistas do Amazonas

De acordo com informações repassadas pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJP/AM), em 2021, o Sindicato não recebeu denúncias de agressões às profissionais jornalistas, incluindo as repórteres estudantes/estagiárias que atuam nos portais e blogs de notícias.

A corporação destaca ainda elementos que contribuem para que possíveis episódios de violência ocorridos no exercício profissional não sejam denunciados pelas vítimas. O sindicato ressalta que repreende qualquer tipo de agressão contra mulheres jornalistas.

“Entre eles, destacamos o medo de perder o emprego, quando ocorrem nas redações ou locais de trabalho, e a dificuldade de obter provas, após registro em Boletim de Ocorrência (BO) nas delegacias especializadas.
A direção do SJP/AM condena sob todos os aspectos a violência praticada contra as mulheres jornalistas, entendendo ser um problema a ser superado pela sociedade brasileira que convive diariamente com atos de machismo e misoginia, alguns praticados por ‘colegas de trabalho'”, informa o SJP.

Apoio Jurídico e Comissões de Mulheres

Nesses casos, o sindicato afirma que, no Amazonas, após denúncia das vítimas à entidade, há a orientação para formalização da denúncia de agressão à Justiça, além disso, o SJP conta com o apoio de assessoria jurídica para ingresso e o acompanhamento dos casos.

Em entrevista à CENARIUM, o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas e membro da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Wilson Reis, afirma que está atualmente focado em formular uma comissão de mulheres a exemplo de outros sindicatos existentes no País.

“Além do apoio jurídico, avaliamos como importante no combate à violência praticada, principalmente por homens contra as mulheres no exercício da profissão, a organização das jornalistas em Comissões internas para que ações possam ser desenvolvidas pelas entidades com o foco de enfrentar e superar os problemas.
O SJP/AM trabalha atualmente para criar, ainda no primeiro semestre de 2022, sua Comissão de Mulheres, a exemplo de outros sindicatos nacionais de jornalistas”, ressalta.

De acordo com o presidente da instituição, a metodologia da sindicato diverge da realizada pela Abraji. “Informo que os casos registrados nacionalmente em 2021 estarão sendo organizados após o recesso de início de ano. Nossa metodologia se diferencia da Abraji, pois acolhemos e registramos os casos de agressões ocorridas no exercício profissional e que ferem a ‘Liberdade de Imprensa'”, finaliza o presidente.