Deficiência de vitamina D está ligada à demência, mostra estudo genético

Com informações do Infoglobo

MANAUS — Além dos efeitos negativos já conhecidos para a saúde dos ossos, a deficiência de vitamina D tem sido ligada em diversos estudos a impactos no cérebro e doenças cardiovasculares. Agora, um novo trabalho publicado na revista científica The American Journal of Clinical Nutrition foi o primeiro a utilizar análise genética e constatar uma ligação causal entre níveis baixos do composto e um risco 54% maior para o desenvolvimento de quadros de demência.

Conduzido por pesquisadores da Universidade do Sul da Austrália, o estudo analisou informações de quase 295 mil participantes disponíveis no UK Biobank, banco de dados de saúde do Reino Unido. O objetivo foi entender os impactos desses níveis da vitamina D considerados abaixo do ideal (25 nmol/l) para diagnósticos de demência e de acidente vascular cerebral (AVC).

“A vitamina D é um hormônio que é cada vez mais reconhecido por seus efeitos generalizados, inclusive na saúde do cérebro, mas até agora tem sido muito difícil examinar o que aconteceria se pudéssemos prevenir a deficiência. Nosso estudo é o primeiro a examinar o efeito de níveis muito baixos de vitamina D nos riscos de demência e AVC usando análises genéticas robustas em uma grande população”, explica a pesquisadora sênior do estudo Elina Hyppönen, diretora do Centro de Saúde de Precisão da universidade, em comunicado.

O método inovador utilizado pelos cientistas mistura análise genética com a epidemiologia tradicional, e chama-se randomização mendeliana (RM). A abordagem parte da variação de genes com funções conhecidas para avaliar ligações causais entre um fator de risco e uma doença. Por exemplo, se um gene que atua especificamente no que seria o maior risco também está associado ao problema, isso indica que há uma causalidade.

Prevenção de doenças

No novo estudo, os pesquisadores utilizaram a técnica pela primeira vez para testar essa relação entre a baixa vitamina D e os desfechos de demência e AVC. A conclusão foi de que os níveis diminuídos, em 25 nmol/l, estavam associados a volumes cerebrais menores e um aumento no risco de ambos os problemas de saúde, porém de forma direta apenas com a demência.

Isso porque a análise genética das imagens mostrou que o risco para demência, elevado em 54%, é consequência direta da deficiência do composto. Segundo os responsáveis pelo estudo, isso indica que uma intervenção para elevar a taxa de vitamina D de 25 para 50 nmol/l poderia prevenir casos da doença.

“Nesta população do Reino Unido, observamos que até 17% dos casos de demência poderiam ter sido evitados aumentando os níveis de vitamina D para ficarem dentro da faixa normal”, diz Elina.

No último ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um alerta em que afirmou que o mundo está falhando no combate à demência — que tem como uma das principais causas a doença de Alzheimer — e destacou que o diagnóstico pode alcançar 139 milhões de pessoas em 2050.

Já na análise para o AVC e o menor volume do cérebro, embora a observação dos dados tenha apontado para um aumento nos casos em pessoas com vitamina D mais baixa, a avaliação genética não apontou ligação de causa e efeito.

No entanto, a resposta para a relação pode estar justamente em outro estudo publicado no final do ano passado pela mesma equipe de pesquisadores, na revista científica European Heart Journal.

Nele, os cientistas utilizaram a técnica de análise genética em cerca de 270 mil participantes e concluíram que a baixa vitamina D aumenta de forma generalizada o risco de doenças cardiovasculares, embora de forma mais tímida que a vista com a demência. No trabalho, os pesquisadores defenderam que a elevação da taxa do composto pode prevenir 6% dos casos de problemas cardíacos.

Vitamina D e saúde dos ossos

Esse importante papel da substância para o funcionamento do corpo é porque a vitamina D, embora receba esse nome, é na verdade um hormônio. Ela atua principalmente na regulação do cálcio e do fosfato no organismo. Por isso, nos casos de deficiência, são absorvidas quantidades menores desses nutrientes, o que a longo prazo leva à consequência mais conhecida: o impacto na saúde dos ossos.

Nas situações mais graves, essa carência pode levar a diagnósticos de raquitismo, em crianças, e osteomalacia, em adultos – situações caracterizadas pelo enfraquecimento dos ossos.

Essa deficiência é causada na maioria das vezes pela baixa exposição solar. Médicos orientam que ao menos uma parte do corpo seja exposta ao sol de forma direta por um período de cinco a 15 minutos por dia, pelo menos três vezes por semana, para conseguir a quantidade necessária. Porém, há também doenças que interferem na absorção do nutriente pelo organismo.

Alimentos como peixes e gemas de ovos carregam o composto e podem ajudar a aumentar o volume, mas especialistas destacam que a vitamina D adquirida apenas pela comida não é suficiente.

Segundo um estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Pesquisas René Rachou, da Fiocruz, cerca de 16% da população com mais de 50 anos têm níveis insuficientes do nutriente.

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