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4 de dezembro de 2021
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Iury Lima – Da Cenarium

VILHENA (RO) – O povo indígena Paiter Suruí, formado por cerca de 1,9 mil pessoas, habitantes da Terra Indígena (TI) Sete de Setembro, com 248 mil hectares entre Rondônia e parte do Mato Grosso, escolheu, por meio de votação em urna, o representante para subir ao mais alto cargo político dentro da própria cultura: o cacique-geral. A eleição ocorreu na última semana. 

O escolhido deve comandar as 28 comunidades pelas quais o povo se espalha, ouvindo e buscando respostas para as necessidades da etnia. Esta é a primeira vez em que os Paiter Suruí utilizam o sistema democrático para decidir sobre interesses sociais.

Indígenas Paiter Suruí ficaram satisfeitos ao escolher representante por meio do voto. (Reprodução/Celso Suruí)

A chapa vencedora

Com duração de quase 12 horas, os votos em cédula eram depositados nas urnas cedidas pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RO). O resultado foi divulgado um dia após a votação que aceitou integrantes maiores de 15 anos, revelando que o já conhecido líder indígena Almir Suruí, como titular, e Anderson Suruí, como vice, foram eleitos, reunindo 56,3% dos votos.

No modelo de gestão indígena dos Paiter Suruí, a chapa vencedora fica no poder por dois anos, assumindo em janeiro de 2022 e permanecendo até 2024, ano em que a nova eleição acontecerá. 

Integrantes da Chapa 2, Almir Suruí e Anderson Suruí foram eleitos. (Reprodução/Redes sociais)

Um ‘presidente’ indígena

Membro da Comissão Organizadora da Eleição do Povo Indígena Paiter Suruí, Celso Suruí, diz que o papel do Cacique Geral, ou líder maior, se assemelha ao do presidente da República e que essa organização possibilita avanços sociais. “O papel dele é levar as demandas e buscar projetos e apoio dentro do governo, além de organizações não governamentais e políticas públicas, para que o povo Suruí seja beneficiado pelo município ou pelo Estado”, disse em entrevista à CENARIUM.

O membro da Comissão Organizadora da Eleição do Povo Paiter Suruí, Celso Suruí, em entrevista à Cenarium (Reprodução/Celso Suruí)

“Ele é tipo o presidente da República. Ele responde por todos, todo o povo, todas as comunidades Suruí. Além desse líder maior, tem como se fosse o prefeito de cada município, que são os caciques das aldeias, cada uma com o seu. E o papel do líder maior está acima desses caciques, e os caciques das aldeias estão ligados a ele. Eles são os responsáveis pelas bases e o líder é quem dá a última decisão”, explicou Celso.

Celso também considera fundamental que o Cacique Geral tenha acesso a diversos setores governamentais para proporcionar ações em prol da saúde, da educação e da economia das aldeias, sendo para ele, indispensável, também, dialogar com representantes de todas as esferas políticas da sociedade não indígena. “Então, esse Cacique Geral, ele vai fazer cobranças dentro da esfera federal, no senado (…) inclusive, o papel dele é até chegar ao presidente da República e reivindicar melhorias para seu povo e seu território”, declarou.

“É de uma grande responsabilidade, ele vai ter de realizar a organização social do seu povo, dentro da questão econômica, da questão territorial em relação ao meio ambiente, e sobre as condições que seu povo necessita para gerar sua própria renda”, continuou Celso Suruí.

Democracia na floresta

Celso Suruí comemorou a chegada do sistema democrático às aldeias dos Paiter. Antes, a função de chefe maior era passada de pai para filho, como hoje acontece ainda com os caciques das comunidades. “Com certeza, estamos respeitando a vontade das pessoas. Se a gente continuar usando o sistema hereditário dentro da nossa política e das nossas aldeias, algumas pessoas podem ficar reféns, não estando de acordo e sem poder questionar, por ser uma lei”, alertou o membro da comissão organizadora.

“Eu acho que a democracia pode trazer a ideia, o pensamento e a liberdade, né, para que essas pessoas possam falar sua expressão”, comemorou.