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17 de novembro de 2021
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Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium

MANAUS – Aos 15 anos, a hoje designer de joias Flávia Amadeu, 42 anos, visitou a região Amazônica pela primeira vez com a turma do curso de Ecologia. Foram sete dias, segundo ela, navegando pelos rios da região. Após a viagem, o que Flávia não previa, na época, era que mais tarde, a Amazônia se tornaria sua fonte de inspiração e de matéria-prima para a criação de joias orgânicas, moda e decoração sustentável. Tudo desenvolvido a partir da borracha proveniente do látex extraído de seringueiras espalhadas na floresta.

Atualmente, a simpática brasiliense, que é PhD em design e sustentabilidade pelo London College of Fashion, mestre em artes visuais e bacharel em desenho industrial, comemora a parceria de mais de 16 anos com a região Amazônica. Isso mesmo, pois é da floresta, mais precisamente dos Estados do Acre e do Pará, que vem a principal matéria-prima — a borracha nativa colorida chamada Folha Semi-Artefato (FSA), que ela produz juntamente com as comunidades seringueiras –, utilizada na elaboração dos produtos desenvolvidos pela marca que aliás, leva o nome dela, Flávia Amadeu.

A propósito é do Acre, que vem maior parte da matéria-prima utilizada na sua produção. Apesar do número de produtores nessa região ser menor em comparação a de outras áreas, onde o insumo também é produzido, a geração de renda é maior no Acre pelo fato dos produtores serem muito engajados. 

Peças são inspiradas na conexão que a designer tem com a floresta Amazônica (Divulgação/ David Parry)

Pioneira na utilização da borracha na indústria da moda a designer é mais conhecida no hall internacional do que em solo brasileiro. Em 2013, a atriz e modelo inglesa Lily Cole usou, durante o Met Ball, um vestido da estilista britânica Vivianne Westwood confeccionado com a borracha FSA, da Flávia Amadeu. Porém, a designer hoje, está colhendo os louros de um trabalho árduo e de ‘formiguinha’, como ela mesma frisou durante entrevista à REVISTA CENARIUM

As peças tem o design tridimensional e contemporâneo (Divulgação/Instagram Flávia Amadeu)

Segundo Flávia, que já ganhou vários prêmios nacionais e internacionais, sua marca vem conquistando o mercado nacional e ganhando espaço no badalado mundo fashion, nos últimos anos.

As peças da empreendedora, já foram expostas no Museu Victoria & Albert, em Londres e, na Art Basel de Miami, ambas em 2018. A grife também participou de duas edições do maior evento de moda do Brasil — São Paulo Fashion Week.

A última participação, foi em 2019, quando a marca Flávia Amadeu integrou o desfile de um dos principais nomes da moda no país, o estilista mineiro, Ronaldo Fraga, na quadragésima sétima edição da na semana de moda paulista. Em novembro, a marca vai estrelar o Brasil Eco Fashion Week, maior encontro sobre moda sustentável do continente.

Os acessórios produzidos com a borracha colorida da Amazônia brasileira fazem sucesso no exterior (Divulgação/Instagram Flavia Amadeu)

Em 2019, a grife faturou mais de R$ 265 mil e a empresária vem trabalhando firme para alçar vôos mais altos no mercado pós-pandemia. Pois, essa nova realidade vai nortear todas as tendências daqui para frente. A alta tecnologia será aliada do processo artesanal e da procedência do produto ou da matéria-prima. Aliás, essa palavra “procedência”, será muito utilizada nesse novo normal. É ela, inclusive, quem ditará o “quem produziu’’, “de onde veio” e “quais recursos gerou para um determinado grupo”. 

E é este caminho que a empreendedora vem traçando ao longo de sua carreira até aqui. Apesar de nem tudo ter sido flores na trajetória desta brava designer brasiliense, como ela mesma falou para nossa equipe. Muito antes de suas joias e produtos seduzirem o público feminino mundo afora, Flávia pensou em desistir de seu sonho, por causa das dificuldades enfrentadas para chegar onde está hoje. 

a designer Flávia Amadeu durante a edição do Inspira+, maior feira de materiais da América Latina, realizada, em janeiro 2020 (Divulgação/Instagram Flávia Amadeu)

“A Amazônia veio ao meu re-encontro e eu a abracei. Apesar de ter pensado em desistir de tudo, por causa das dificuldades enfrentadas no caminho”, relembra a designer.

Os produtos são comercializados pelo e-commerce da marca e em lojas no Brasil, em Brasília, Acre, Rio de Janeiro e São Paulo ou exterior como, Austrália, Holanda, Dinamarca, Noruega, Quênia, Argentina, Itália, Canadá, Nova Zelândia, Eslováquia, Espanha e Japão. Os preços vão de R$ 75 a R$ 1.200, dependendo da peça. A mais cara, segundo Flávia, tem um valor agregado por ter parte em borracha colorida da Amazônia e parte em ouro, é o caso do brinco de pena, um dos xodós da grife. 

Relação com a Amazônia

Apesar da relação de Flávia com a Amazônia ter iniciado em 1991 [quando ela tinha 15 anos], a união entre a designer e a floresta começou a fortalecer em 2004, período em que ela entrou para o mestrado em Artes Visuais na Universidade Federal de Brasília (UnB), com o objetivo de explorar novos materiais para wearable computers [moda computacional] que estava em voga, na época. No entanto, Flávia já havia criado uma coleção de moda inspirada nos grafismos das pinturas corporais dos índios caiapós [ou kayapó] para o projeto final do curso de graduação em Desenho Industrial, também, na UnB.

“Minha paixão pela Amazônia foi aos 15 anos, durante uma viagem com a turma do curso de Ecologia. Eu era uma adolescente com bastante consciência ecológica”, relembra Flávia com o tom de entusiasmo na voz e uma risada contagiosa. 

Durante o curso ela conheceu o professor Floriano Pastore Júnior, do Lateq (Laboratório de Tecnologia Química) da UnB, de pesquisa de produtos não-madeireiros para sustentabilidade na Amazônia. Um dos resultados dessas pesquisas era justamente a borracha colorida FSA, até então sem uma utilização definida e à espera de uma pessoa com visão empreendedora, como a de Flávia. 

“As borrachas coloridas foram desenvolvidas no laboratório da UnB, com o intuito de gerar renda na floresta. Na época, eu já estava trabalhando paralelamente com outros grupos e decidi que seria a especialista neste material e iria ensinar as pessoas na floresta e criar minha própria marca. De 2004 pra cá são mais de 16 anos trabalhando com a borracha colorida da Amazônia”, comemora a designer.

Após a faculdade, Flavia passou a buscar o alto padrão, elevando a qualidade no acabamento e na finalização dos produtos. Ao longo deste período, percebeu alguns aspectos da cadeia produtiva que clamavam por mudanças e cuidado. Um deles era o relacionamento entre as comunidades e os artesãos, muitas vezes complicado, difícil e pontual – apenas para exposições. Outro era a entrega irregular, que atrasava e chegava com qualidade a desejar.

A empreendedora também vinha desenvolvendo uma coleção própria com o produto e já dominava a técnica da borracha. Foi quando passou a ir in loco para dar treinamento e ajudar as comunidades ribeirinhas. Hoje, Flávia é líder no processo da borracha colorida oriunda da Amazônia, no Brasil.

O sustentável caminha ao lado do bonito e solidário

A ideia de trabalhar com o artesanato, incluindo a borracha colorida do látex surgiu a partir de uma palestra do designer do artesanato Renato Imbroisi, pioneiro no Brasil a trabalhar com artesãos. Flávia, que já tinha uma consciência social e ecológica, incentivada por sua mãe, durante sua criação, tomou a decisão de seguir nessa área.

Além da criação de peças, a designer faz um trabalho intenso de capacitação, onde atua com a inclusão de mulheres e jovens na cadeia produtiva, geração de renda e incentivo a preservação dos recursos naturais da floresta.

Oficina na comunidade ribeirinha do Acre, em 2019 (Divulgação/Eliz Tessinari)

Essa percepção a levou mais uma vez para o mundo acadêmico, desta vez para o doutorado na Inglaterra [2010 a 2015], cujo objetivo era desenvolver uma metodologia de ensino, pesquisa e prática de Design e Sustentabilidade para ser aplicada nas comunidades ribeirinhas.

Em solo britânico, Flávia começou um trabalho de ‘formiguinha’ e foi batendo de porta em porta, até firmar uma parceria com WWF e SKY-UK, em 2014, para coordenar um projeto voltado para a Amazônia, incluindo treinamento e capacitação das comunidades de artesãos, da floresta. Após isso, os convites para feiras e exposições começaram a pipocar em suas mãos. Por isso, a designer se tornou mais conhecida lá fora primeiramente.

Sua maior paixão é está no meio da floresta ensinando as técnicas desenvolvida e padronizada por ela com a FSA, para as comunidades da Amazônia.

“Eu sou quase uma borracheira [risos] , porque sei fazer todo o processo, desde a extração do látex, da seringueira, passando pelo processo da coloração, até o produto final. Precisei ir pessoalmente na floresta para entender melhor o processo das borrachas até desenvolver esse modelo orgânico antes de colocá-lo no mercado”, frisa a empresária. 

Inclusão de mulheres na cadeia produtiva e geração de renda familiar nas comunidades seringueiras da Amazônia (Divulgação/Eliz Tessinari)

De volta ao Brasil ela ensinar as comunidades com novas técnicas do manuseio da borracha, a designer trabalha as boas práticas de fabricação, gestão da produção e gestão de pessoas. Mas, também aprende muito com eles. “É uma troca valiosa”, assegura ela.

“Eu volto para a mesma comunidade, muitas vezes, de dois em dois anos para fazer um processo de reciclagem de conhecimento”, diz a designer.

Ao todo são cerca de 120 pessoas de comunidade, parceiras da marca, do Acre e do Pará, onde a designer compra a borracha colorida para sua produção. Mas seu trabalho, já impactou mais de 660 pessoas (direta e indiretamente), só na região Amazônica. No entanto, ela já ajudou comunidades, no Nordeste e Distrito Federal.  

Outro aspecto está relacionado a questão da sustentabilidade, aponta Flávia. “Eu crio muitas peças atemporais. Essa linha de joias orgânicas foi criada desde a época que comecei, onde o objetivo é valorizar a borracha ao máximo. Ser praticamente 100% borracha da Amazônia. Nessa linha, vou lançando novas peças, ou pequenas novas coleções, mas ela continua sendo da mesma linhagem”.

A empreendedora ressalta ainda que não cria coleção pensando em substituí-la num curto espaço de tempo. O que ela faz é agregar outros produtos a coleção de joias orgânicas, já existente. Até porque, segundo ela, o próprio trabalho, a borracha e a floresta não respondem com essa velocidade. Tudo precisa está em sintonia com o meio ambiente. As peças vão sendo substituídas de acordo com a demanda e no ritmo no mercado. 

A criação das cores também foi desenvolvida pela designer, que percebeu que a técnica merecia mais atenção. Foi quando ela padronizou as cores e passou a ensinar nas oficinas o modo exato da mistura de cores. Hoje, as comunidades parceiras da marca seguem o padrão estipulado por ela. De acordo com Flávia, as misturas são simples, tem pouquíssimo pigmento e nada volta para o meio ambiente.

“A borracha absorve todo o pigmento e conseguimos ter uma padronização muito melhor das cores. Esse trabalho foi lento, mas eu posso esperar ter uma matéria-prima de qualidade hoje”, assegura Flávia.

Parceria durante a pandemia

A pandemia do novo Coronavírus paralisou mundo e deixou a humanidade isolada, com medo e sem saber o que fazer. Para a Flávia Amadeu, não foi diferente, porém, a designer brasiliense aproveitou o tempo “ocioso” para realizar o que faz com maestria, criar, empreender e gerar renda para apoiar comunidades ribeirinhas da Amazônia. Foi durante o confinamento, que Flávia, em parceria com a Flávia Vanelli, do Estúdio Ratorói, lançaram as máscaras ecológicas reutilizáveis, desenvolvidas especialmente para combater a propagação de Covid-19 no Brasil e para arrecadar fundo de amparo para comunidades ribeirinhas dos municípios de Feijó e Taraucá.

Máscara produzida com plástico sustentável e borracha da Amazônia (Divulgação/ Matheus Ern)

A iniciativa, denominada “Funtastic Mask”, produzida a partir de plástico 100% sustentável oriundos de cooperativas do Sul do país e borracha amazônica foi desenhada por Flávia. Segundo ela, parte de cada produto vendido no Brasil e no exterior é destinado à comunidades ribeirinhas da Amazônia, impactadas pelo vírus. As máscaras seguem todos os padrões recomendados pelas autoridades de saúde e por órgãos competentes como, Anvisa e Organização Mundial da Saúde.

“Fiquei pensando no que fazer no período de isolamento, já que tudo parou. As comunidades não podem trabalhar, as estradas estão fechadas e o que fazer para ajudá-los. Eu tinha estoque de matéria-prima no ateliê e fiquei avaliando alguns aspectos sobre o uso das máscaras: primeiro, a preocupação do descarte do produto no meio ambiente. Segundo, a questão estética de como respirar sem sufocar com as máscaras e terceiro, criar um produto sustentável com valor agregado para ajudar as comunidades. Foi quando convidei minha amiga, que é dona da Ratorói e, já trabalha com plástico reciclado e sustentável, para dividir o projeto. Assim nasceu a coleção de máscaras coloridas, onde 20% da venda de cada produto é destinado para ajudar as comunidades na floresta. Hoje, as vendas caíram um pouco porque todo mundo tem máscara. Mas, no início conseguimos enviar máscaras para as comunidades, assim como, alimentos”, afirma Flávia.

Os produtos continuam à venda no site da marca Flávia Amadeu e estão disponíveis nos tamanhos adulto e infantil, tem uma variedade de cores e texturas, podem ser lavados com água e sabão ou desinfetado com álcool 70% para utilização constante. Os preços são R$ 65 [adulto] e R$ 60 [infantil].

Flávia aponta ainda que a venda das máscaras se tornou uma vitrine para que ela se tornasse mais conhecida no Brasil. 

“As máscaras acabaram agregando valor ao meu produto e atraindo mais pessoas para conhecer meu trabalho, pois, além das máscaras, elas acabaram comprando outros itens. Tornando uma vitrine virtual para minha marca, já que as lojas e os pontos de vendas, onde geralmente minhas peças são expostas estavam fechadas, assim como, os representantes”, exalta a empreendedora.

Mercado pós-pandemia

A designer busca parcerias com comunidades do Amazonas e quer expandir seu trabalho de capacitação para outros locais da Amazônia Legal. Segundo ela, este é um mercado crescente não só para sua marca, mas também para gerar renda para as comunidades, onde tem o artesanato envolvido e que possam movimentar a Bioeconomia em torno e combater o desmatamento da floresta.

“Esse é o grande impacto. fazê-los conscientes para poder gerar renda e da própria importância deles para a floresta e que possam continuar protegendo essas áreas verdes”, alerta Flávia. 

De acordo com ela, o mercado quer consumir produtos sustentáveis, até as marcas que a procuram para futuras parcerias estão ávidas por isso. “Enquanto mais eu puder melhorar em alguns aspectos e padronizar mais vou ajudar. As borrachas são feitas artesanalmente, não é um produto industrial. Mas pelo menos conseguimos ter alguns padrões, sem agredir o meio ambiente e incluir as comunidades da floresta na geração de renda do próprio trabalho delas, faz frear a destruição da floresta”, conclui. 

Além de designer de joias, Flávia desenvolve projetos para grandes empresas, na área da sustentabilidade. Um movimento que envolve parcerias com entidades e organizações como o Laboratório de Tecnologia Química (Lateq) da Universidade de Brasília (UnB), a SOS Amazônia, a WWF-Brasil e a ONU Mulheres.