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16 de novembro de 2021
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Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – A desnutrição crônica é a realidade dolorosa que as crianças Yanomami enfrentam na maior Terra Indígena (TI) do País sendo apontada, por especialistas, como um dos resultados da “política anti-indigenista” do governo federal. Em 2019, oito em casa dez crianças menores de 5 anos sofriam com a condição. Atualmente, com a pandemia da Covid-19 e o avanço do garimpo ilegal, a situação chegou a níveis alarmantes, como mostrou reportagem veiculada no domingo, 14, pelo programa Fantástico, da Rede Globo.

A TI Yanomami tem 9 milhões de hectares e abrange os Estados de Roraima e Amazonas. São 30 mil indígenas que habitam a extensa área dentro da Floresta Amazônica e as imagens da desnutrição infantil são chocantes. A estatura, o peso abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a barriga dilatada são características dos pequenos Yanomami que acabam sendo acometidos por doenças infecciosas e parasitas.

Leia também: Especial – Tragédia Yanomami: vítimas da desnutrição

Ao noticiário semanal, a pediatra e nutróloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Maria Paula de Albuquerque, apontou as possíveis causas dessas características físicas. “Revela uma possível infestação de parasitas, ou uma possível síndrome de má-absorção, que é quando o intestino não tem como absorver os ingredientes, então ele distende”, explicou a médica, destacando ainda as consequências da desnutrição na saúde das crianças. “Quanto mais desnutrida a criança é, maiores as chances dela ter infecção por qualquer causa, pode ser respiratória, intestinal…”, destaca.

Criança Yanomami com a barriga dilatada. (Foto: Rede Amazônica)

Imagem da morte

Em maio deste ano, uma imagem rodou o mundo e se tornou um retrato da realidade da crise sanitária que atinge o povo Yanomami. Na aldeia Maimasi, uma criança deitada em uma rede escura estava tão magra que era possível ver as suas costelas. A menina tinha 8 anos e pesava apenas 12,5 quilos — o peso mínimo normal para a idade seria de 20 quilos — acometida por malária, pneumonia, verminose e desnutrição.

Registro mostra criança Yanomami em quadro de grave desnutrição. (Divulgação)

A falta, ou escassez, de atendimento médico, aliada à deficiência de fiscalização ambiental, empurra os Yanomami para um cenário desesperador. Estima-se que 20 mil garimpeiros ilegais atuem no território. A atividade de mineração contamina os rios com mercúrio e tem causado deformidades e doenças em mulheres e crianças, segundo apontou o líder indígena do povo Yanomami, Dário Kopenawa à CENARIUM, no dia 6 de outubro.

“As crianças estão saindo com malformações. Mulheres e crianças já estão com sintomas de coceira e também apresentam dor de barriga, diarreia e infecção urinária, porque a gente tá tomando água suja. Não é só a água, todo o território Yanomami está poluído”, advertiu o vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami.

Imagem expõe devastação causada por garimpo ilegal na Terra Indígena (TI) Yanomami. (Reprodução/Rede Amazônica)

Leia também: Líder Yanomami denuncia contaminação de rios, deformidades e doenças causadas por mercúrio

“Essa situação de abandono é anterior à gestão Bolsonaro. No entanto, sob Bolsonaro, a alarmante situação das crianças Yanomami é igual ou pior”, afirma o epidemiologista da Fiocruz Amazônia Jesem Orellana, à CENARIUM, um dos autores do estudo que apontou a desnutrição crônica das crianças Yanomami.

Assistência

No Brasil, a assistência à saúde dos Yanomami está sob responsabilidade do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI-Y), vinculado à Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde. O território é dividido entre as etnias Yanomami e Ye’kuana, distribuídas em 258 aldeias, a maioria localizada em áreas remotas e de acesso, exclusivamente, aéreo ou fluvial.

O isolamento e as dificuldades impostas pela localização dos indígenas dificulta o atendimento médico, mas não impede que o governo federal estenda, ao território, políticas de saúde consideradas ideológicas. Documento obtido pela CPI da Covid, que investigou as ações e omissões do governo federal na pandemia, mostrou que, entre 30 de junho e 5 de julho de 2020, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e o Ministério da Defesa levaram 100.500 comprimidos de cloroquina 150 mg e 16.158 comprimidos de azitromicina 500 mg e 600 mg para 75 mil indígenas das comunidades Suru-cucu, Auaris, Uiramu-ta, Flexal e Ticoça, no Estado de Roraima.

Leia também: Ministério da Saúde admite ineficácia de cloroquina e outros medicamentos do ‘Kit Covid’

Os medicamentos sem eficácia comprovada para o tratamento da doença estavam entre as quase quatro toneladas de suprimentos médicos e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) distribuídos também aos 1.762 profissionais de saúde dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) Yanomami e Leste de Roraima. A operação foi chamada de ‘Missão Yanomami: Raposa Serra do Sol’.