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25 de junho de 2021
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Com informações do O Globo

MANAUS – O canal “Jacundá – a Terra Prometida” no YouTube, criado em abril, tem três vídeos. No maior deles, um homem se apresenta como Humberto Pereira, está sentado em um sala que parece um escritório e faz propaganda de lotes de terra. Em outro, aparece caminhando por uma clareira no meio de uma floresta. Enquanto descreve o lugar ocupado por barracos, ouve-se o barulho de uma motosserra.

A tal “terra prometida” fica dentro de uma das unidades de conservação mais bem preservadas da Amazônia, a Floresta Nacional do Jacundá, no norte de Rondônia, com 221 mil hectares de mata praticamente virgem. Pela lei, apenas populações tradicionais que já habitavam a região antes da sua criação em 2004 poderiam viver no local, mas hoje há muito mais gente. Ao todo, são cerca de 300 forasteiros.

(Reprodução/O Globo)

No domingo, 30 de maio, ÉPOCA foi conhecer a “terra prometida” nos vídeos do YouTube e tudo naquele pedaço da Amazônia parecia o retrato mais bem acabado da força da grilagem de terras sob o governo de Jair Bolsonaro, que tem Ricardo Salles como ministro do Meio Ambiente. Foi ele que, no dia 22 de abril de 2020, durante uma reunião ministerial, defendeu “passar a boiada” sobre a legislação ambiental enquanto as atenções estavam voltadas para a pandemia, num discurso com consequências destruidoras para a Amazônia.

ÉPOCA foi a alguns dos pontos onde o desmatamento na Amazônia é mais crítico para  mostrar, na prática, o impacto das principais “boiadas de Salles”, que fomentaram invasão de áreas de floresta, desmonte dos órgãos de controle ambiental, flexibilização das regras de fiscalização e comércio ilegal de madeira.

A Floresta Nacional do Jacundá só é acessível por estradas de terra. Ela fica a aproximadamente 100 quilômetros de Porto Velho, mas a estrutura por trás da sua invasão é empresarial. Há quem faça o papel de corretor de imóveis, tem o líder do acampamento e os seguranças. No domingo, não havia sinal do youtuber Pereira no lugar. A entrada da reportagem foi autorizada por um homem que se identificou como Cristiano Dias. A hierarquia era evidente. Enquanto a maioria dos invasores usava bermudas, chinelos e camisas velhas de futebol, Dias estava de calças jeans do tipo skinny, botas de couro marrom, camisa rosa, boina de couro preta e óculos escuros. Tudo aparentemente novo.

Na entrada da invasão, um posto de controle monitorava quem entrava e quem saia da área. Homens armados usavam walktalks. Barracos de madeira, alguns cobertos com lona e outros com folhas de palmeira, se espalhavam numa enorme clareira que se estendia por pelo menos dois quilômetros no meio da mata virgem. Crianças corriam de um lado para o outro entre picapes da Toyota e Mitsubishi.

Dias contou que decidiu liderar a invasão depois de ver reportagens nas quais Bolsonaro e Salles diziam que revisariam a situação das unidades de conservação na Amazônia. 

“Eu vi a matéria do ministro (Salles) e do (Jair) Bolsonaro, né? Eu vi a matéria dessa questão. Eu vi o relato de que ia acelerar (a revisão dos limites das unidades de conservação). Hoje a Internet e chega pra você e chega pra gente também, né?”, disse Dias, que informou cobrar R$ 15 mil de quem quer “lutar” pelo direito de ter um lote de 114 hectares na floresta recém-ocupada.

Ele diz que a ideia de usar a internet para atrair mais invasores foi de Humberto. Na lógica das invasões na Amazônia, quanto mais gente melhor. Quem explica é o youtuber da motosserra.

“Quando o povo entra, mas com pouca gente, o próprio Ibama tira todo mundo. Mas quando tem 400, 500 pessoas, é diferente”, Humberto Pereira, youtuber de invasão, em conversa por telefone

“Quando o povo entra, mas com pouca gente, o próprio Ibama tira todo mundo. Mas quando tem 400, 500 pessoas, é diferente. Eles (autoridades) foram lá e voltaram pra trás porque saiu da capacidade deles de remover as pessoas. A terra só é passada ao povo quando ele já tomou conta”, explicou, por telefone, Humberto Pereira, que além de youtuber de invasão diz atuar como “trader” no mercado de ações.

O sonho da terra própria sobre as florestas de Jacundá foi o que moveu Raquel Werneck, 55, a se mudar com os dois filhos e uma sobrinha para a invasão em março. A vida ali é precária. Seu barraco de madeira e lona fica à esquerda de um templo evangélico improvisado. Os banheiros são buracos feitos na mata cercados por lona preta e azul. A água é de poço e a comida é feita em uma grande “cantina” comunitária. Raquel e a filha Shalon, de 15 anos, são fãs de Bolsonaro e têm camisas com o rosto do presidente.

“Se alguém falar do PT aqui, a gente manda no quartel da direção porque eles são Bolsonaro também. No culto aqui, a irmandade ora pelo Bolsonaro para ele proteger a gente”, contou, esperançosa que um dia o governo regularize a invasão.

Raquel Werneck, com camisa branca de Bolsonaro, e família (Brenno Carvalho/Agência O Globo)

Satélites espalhados pela órbita do planeta mostram que o que acontece na Floresta Nacional de Jacundá não é um caso isolado. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na Amazônia cresceu 46% nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro em relação ao período entre 2017 e 2018, chegando a mais de 21 mil km2, o maior número da década para um biênio. Caso tivesse ocorrido na Região Sudeste do País, a área destruída ocuparia uma mancha grande o bastante para unir os municípios do Rio e São Paulo.

As taxas de desmatamento em unidades de conservação durante os dois primeiros anos do governo Bolsonaro e da gestão de Salles no Meio Ambiente pularam 62% em relação aos dois anos anteriores. Nas terras indígenas, o aumento foi ainda maior: 150%. Quem tinha esperança que a situação poderia melhorar neste ano tomou um balde de água fria na sexta-feira, 4, quando o Inpe divulgou que em maio o desmatamento cresceu 40% em relação ao mesmo mês do ano passado. Na Amazônia, o comentário é que 2021 será pior que 2020.  

Para a procuradora da República Ana Carolina Haulic Bragança, ex-coordenadora da Força Tarefa Amazônia do Ministério Público Federal (MPF), há causa e efeito entre o que diz o governo e o aumento do desmatamento. 

“Esse impacto do discurso é sensível nas comunidades do interior da Amazônia. Isso incentiva as invasões e as pessoas se aventuram e, às vezes, são até presas invadindo unidades de conservação”, afirmou. 

Pereira, o “youtuber” que abre essa reportagem, parece feliz com o aumento do número de pessoas dispostas a invadir a floresta. Uma fonte ouvida pela reportagem conta que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) tomou conhecimento da invasão da Floresta Nacional do Jacundá em fevereiro e tentou entrar na área, mas foi impedida pelos seguranças e invasores. Como ficará mais claro mais adiante, o simples fato de uma equipe de um órgão ambiental federal ter chegado à área faz da Jacundá uma exceção.

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