Dia Internacional da Educação: pandemia deixou crianças do Brasil fora do padrão de leitura

Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – As medidas restritivas da pandemia da Covid-19 afastaram milhões de crianças das escolas e as consequências desse impacto já são sentidas após quase dois anos. Nesta segunda-feira, 24, data em que é celebrado o Dia Internacional da Educação, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontou que mais de 635 milhões de estudantes continuam afetados pelo fechamento total ou parcial das escolas. Com isso, além do aprendizado, a saúde mental e física das crianças, desenvolvimento social e até mesmo a nutrição sofreram impactos.

No Brasil, segundo o Fundo, um em cada dez estudantes de 10 a 15 anos relatou que não planeja voltar às aulas assim que sua escola reabrir. Em vários Estados brasileiros, cerca de três em cada quatro crianças do 2º ano estão fora dos padrões de leitura, número acima da média de uma em cada duas crianças antes da pandemia.

“Alunos longe da sala de aula geram um impacto negativo sério na cognição dos alunos, com a perda de conhecimento s e habilidades acadêmicas, já adquiridas, especialmente, naqueles alunos que já apresentavam dificuldades escolares antes da pandemia e que deixaram de receber suporte profissional”, pontua a pedagoga Eliete Holanda, diretora de ensino do Centro Educacional Excelente, em Manaus (AM).

Os dados, baseados nos relatórios State of the Global Education Crisis report e National Income Dynamics Study (NIDS) – Coronavirus Rapid Mobile Survey (CRAM) Wave 5 and Department of Basic Education, indicam que as crianças perderam habilidades básicas de aritmética e alfabetização.

“Globalmente, a interrupção da educação significou que milhões de crianças perderam consideravelmente o aprendizado que teriam adquirido, se estivessem na sala de aula, com crianças mais novas e vulneráveis enfrentando a maior perda”, diz o Unicef.

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Em países de baixa e média renda, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância, as perdas de aprendizado devido ao fechamento de escolas deixaram até 70% das crianças de 10 anos incapazes de ler ou entender um texto simples, em comparação com 53% antes da pandemia. Na Etiópia, por exemplo, estima-se que as crianças da escola primária tenham aprendido de 30% a 40% da matemática que teriam aprendido, se fosse um ano letivo normal.

Na África do Sul, as crianças em idade escolar estão entre 75% e 100% de um ano letivo atrás do que deveriam. Cerca de 400 mil a 500 mil estudantes abandonaram a escola entre março de 2020 e julho de 2021.

Saúde mental e nutrição

Os dados mostram ainda que a Covid-19 causou altas taxas de ansiedade e depressão entre crianças e jovens, com alguns estudos descobrindo que meninas, adolescentes e pessoas que vivem em áreas rurais são mais propensas a experimentar esses problemas. Quanto à nutrição, mais de 370 milhões de crianças em todo o mundo ficaram sem a merenda escolar durante o fechamento das escolas, “perdendo o que é, para algumas crianças, a única fonte confiável de alimentação e nutrição diária”.

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Faixa etária mais afetada

Em 2021, o Unicef divulgou o estudo “Cenário da Exclusão Escolar no Brasil – um alerta sobre os impactos da pandemia da Covid-19 na Educação”, apontando que a pandemia da Covid-19 colocou o Brasil em risco de regredir duas décadas no avanço que vinha ocorrendo no acesso de crianças e adolescentes à escola.

Em novembro de 2020, mais de 5 milhões de meninas e meninos não tiveram acesso à educação no Brasil – número semelhante ao que o País tinha no início dos anos 2000. Desses, mais de 40% eram crianças de 6 a 10 anos de idade, etapa em que a escolarização estava praticamente universalizada antes da Covid-19.

Com escolas fechadas por causa da pandemia, em novembro de 2020, quase 1,5 milhão de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos não frequentavam a escola (remota ou presencialmente). A eles, somaram-se outros 3,7 milhões que estavam matriculados, mas não tiveram acesso a atividades escolares e não conseguiram se manter aprendendo em casa. No total, 5,1 milhões tiveram seu direito à educação negado em novembro de 2020.

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