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27 de novembro de 2021
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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – “Passo por homofobia desde pequeno. Na escola, eram situações comuns. Já fui chamado de “viadinho”, de “bichinha”, por ser considerado afeminado, especialmente nas brincadeiras. As aulas de educação física eram um tormento, porque precisava dividir o banheiro com os meninos depois das aulas. Eles se sentiam no direito de mostrar o órgão genital para mim por eu ser ‘bicha’. Hoje continuo sofrendo, porém, sinto que de forma mais velada. São olhares diante de um ‘trejeito’, risos por conta da voz, julgamentos diante de comportamentos considerados “não masculinos”, esse é o relato do psicólogo Adan Silva, 33 anos.

Em pleno Dia da Luta Internacional Contra a Homotransfobia, o relato de Adan mostra que a luta em torno da causa ainda existe, porque o preconceito persiste. A data estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é significativa para a população LGBTQIA+, simpatizantes da causa, pois vem reafirmar o compromisso da sociedade com os direitos da comunidade arco-íris que, constantemente são violados em diversos âmbitos e contextos sociais.

Para se ter uma ideia, no ano de 2019, o Brasil registrou o número de 329 LGBTQIA+ mortos de forma violenta, vítimas de homotransfobia. O índice é do relatório divulgado no dia 23 de abril, feito pelo Grupo Gay da Bahia, que realiza a pesquisa anualmente desde 1980.

O País que mais mata

Este mesmo relatório mostrou que, dessas mortes, 297 foram homicídios (90,3%) e 32 suicídios (9,7%). Neste ano, um relatório, divulgado dia 14 de maio, pelo Observatório de Mortes Violentas de LGBTQIA+ no Brasil, apontou que 237 pessoas LGBT tiveram suas vidas ceifadas por conta da homotransfobia.

A leve redução nos números não tiram do Brasil a vergonhosa mancha de sangue causada pelo preconceito, fazendo do País, de acordo com agências internacionais de direitos humanos, um dos países que mais mata homossexuais e, principalmente, transexuais.

A estatística revelou também que, até o ano de 2020, a região Nordeste liderava o primeiro lugar em número de morte com 113 assassinatos, seguido do Sudeste com 66. As regiões Norte e Sul possuem o mesmo quantitativo, com 20 mortes cada e Centro-Oeste com 18 mortes. Fortaleza, no Estado do Ceará, foi considerada a região que mais houve casos de homotransfobia no País, com 20 pessoas LGBTQIA+ mortas na capital.

Homofobia é crime

Em 13 de junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal passou a criminalizar a homofobia e a transfobia. Desde então o Brasil se tornou o 43º País a criminalizar a homotransfobia. A prática preconceituosa, pune com cinco anos de prisão para quem “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito” por conta da orientação sexual.

Para o psicólogo que também faz parte da comunidade LGBTQIA+, o conhecimento sobre as leis, direitos e deveres, enquanto cidadão é indispensável e auxilia em casos de situações homofóbicas.

“Precisamos conhecer nossos direitos e vale ressaltar que o STF já criminalizou a homolesbotransfobia, equiparando ao racismo. É sempre bom estudar sobre o tema, acompanhar os debates e procurar ajuda, quando situações como essas ocorrem. Essa ajuda pode ser desde um profissional de saúde mental até advogados e grupos de apoio”, ressalta Adan.

“Toda hora preciso me reafirmar, é cansativo”

Para a transexual Louise Ferreira, o preconceito é sentido na pele diariamente. A jovem de 28 anos conta que até pouco tempo sentia medo de andar nas ruas e utilizar os transportes públicos. O medo de uma agressão inesperada, aliado ao constrangimento de ser julgada pelo olhares da sociedade, fez com que Louise travasse uma batalha interna para superar incômodos e inseguranças causadas pelo outro.

“Eu lembro que eu evitava locais públicos com frequência. É complicado, toda hora você tem que ficar corrigindo, quando te chamam de ‘ele’. Isso me deixa sem graça, constrangida e cansada. Eu nunca sofri algo mais severo ao ponto de sofrer um agressão. Mas os olhares e julgamentos velados acontecem sempre, e isso dói também. Me sentindo acuada em alguns momentos. Também vejo que em muitos casos em falta de informação das pessoas, então paro e explico, converso quando posso, a partir daí, se elas vão mudar ou não, parte de uma reflexão delas”, conta a jovem trans.

O caso de Adan também não difere muito de Louise, ele revela que apesar de ser mais seguro após adulto, ainda sim há momentos que prefere se resguardar para a própria segurança.

“Me considero mais reativo hoje em dia. Mesmo com medo de apanhar em algumas situações, reajo e não me calo. Mas é complicado. Já me privei de sair de casa ou ir a determinados eventos por medo da homofobia. Não é todo dia que estou com disposição para a luta e, sim, me dou o direito de descansar”, relata.

Data para reflexão

Pouco mais de 30 anos se passaram desde o dia 17 de maio de 1990, quando homossexualidade deixou de ser classificada como patologia, na lista de Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). A palavra “homossexualismo” passou a não ser mais usada, dando lugar à homossexualidade. Uma vez que o termo anterior remetia a um estado de doença, o que não procede.

“Sobre quem comete a situação, é preciso se repensar. Por ser a LGBTQIA+fobia algo estrutural, as pessoas tendem a não achar que estão sendo preconceituosas, porque a sociedade naturaliza essas situações. A empatia tende a ser com o agressor, não com a vítima. E por essa camada de preconceito ser muito profunda na sociedade brasileira, é comum as discussões terminarem com um ‘não vi nada demais'”, pontua a Adan.

A transexual Louise salienta que a data é um momento para reflexão e não uma comemoração. Momento de repensar atitudes e posturas colocando o respeito e amor ao próximo na prática do cotidiano. “Que aprendam a respeitar a amar as pessoas como elas são, com suas particularidades. E, principalmente, que parem de nos ferir, ridicularizar e que parem de nos matar”, salienta Louise.

Mudanças

Em um País histórico e estruturalmente machista, preconceituoso e homofóbico, é praticamente evidente que as mudanças de postura rumo ao convívio respeitoso e afável seja uma realidade distante, mas não impossível. Na avaliação do psicólogo, é trabalho de “formiguinha” que talvez filhos, netos e bisnetos possam viver mais de perto essa mudança.

“É um trabalho de formiguinha. A curto prazo, não acredito. Problemas estruturais falam de relações de poder. E quem alimenta essas assimetrias, em uma sociedade capitalista, não quer que a estrutura seja alterada. É preciso que negros, LGBTQIA+, mulheres, indígenas mantenham-se nessas posições para que o sistema permaneça intacto. Mas a escória da sociedade vai falar, “e numa boa”, parafraseando a eterna Lelia González”, finaliza.