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23 de abril de 2021

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Náferson Cruz – Da Revista Cenarium

MANAUS – “Se os brancos aprendessem a pisar suavemente na Terra, a gente não estaria vivendo a crise que estamos vivendo agora”. A frase do ambientalista e escritor Ailton Lacerda Krenak, uma das maiores lideranças indígenas atualmente no Brasil, nos leva a refletir sobre as atrocidades cometidas no passado e que o presente continua abraçando-as.

Em cinco séculos de resistência à inconsciência do “homem branco”, enlouquecido pela ganância do ouro, antes organizados em grandes aldeias, os povos indígenas foram forçados a se refugiar para terras menos tensas e isoladas, longe dos açoites, espadas e arcabuzes. Um absoluto descompasso na cultura e no modo de vida social dos indígenas, mas aos poucos, os nativos a maioria radicada na Amazônia brasileira, tentam de alguma forma preservar o legado deixado pelos seus ancestrais como forma de conscientizar o homem que viver em harmonia com natureza é uma dádiva.

É nesse viés, buscando perpetuar a herança cultural e as crenças imateriais, que um grupo de indígenas das etnias Dessana, Tukano, Ticuna, Tuyuka, diante das mazelas sociais, deixaram seus respectivos berços de origem para fincar o ‘yeugu’ (bastão sagrado) em terras pacíficas e próximas do perímetro urbano, colocando-os visíveis para o mundo contemporâneo. Há 25 anos, a região da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, localizada à margem esquerda do Baixo Rio Negro, trinta minutos de lancha, saindo da Marina do Davi, recebia a primeira ascendência de indígenas vindos do Alto Rio Negro, da região de São Gabriel da Cachoeira, a 1.150 quilômetros de Manaus.

Não demorou muito para que o novelo de dons começasse a fluir e ressoar por meio do sagrado banquete de japurutus, conjunto de flautas herdado dos antepassados. Com o passar dos anos, a celebração ganhou outros tons e o grupo passou a confeccionar objetos artesanais e desvelar suas danças ritualísticas para atender o turismo de região.

Japurutus, conjunto de flautas tocadas constantemente durante as encenações de rituais. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Para atender a demanda, 30 indígenas em sua maioria Dessana, atuam na criação de objetos artesanais e participam da encenação de rituais. Pelo menos 150 turistas são recebidos pela comunidade nos finais de semana, porém, há quatro meses as atividades estão suspensas em decorrência da pandemia do novo Coronavírus.

Indígenas buscam em suas crendices cosmológicas a sabedoria para suprir a vida. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Em razão do tempo sombrio, neste domingo, 9, quando é comemorado o Dia Internacional dos Povos Indígenas, o líder espiritual de parte das etnias da RDS do Tupé, o pajé Diákuru Dessana, de 44 anos, disse que não há muito o que celebrar principalmente em tempos de incertezas e escuridão.

À REVISTA CENARIUM, Diákuru diz que estamos vivenciando o que o homem plantou no passado e hoje colhe com dor e lágrimas. “Tudo no começo era bom, mas o homem não satisfeito pedia a noite, embora a noite trouxesse agouro, doenças, maldição e morte, ele queria assim mesmo e, assim o sol permitiu a noite viesse tomando parte do dia”, contou Diákuru, se referindo à lenda da criação do universo na mitologia Dessana.

Apesar do receio quanto às doenças, poluição dos rios e do fogo que consome a floresta, o líder espiritual diz que é preciso ter força e fé para suportar dias de escarcéus. Ele recorda que desde quando aportaram no Baixo Rio Negro, também tiveram naquele época um ciclo árduo, mas com muita persistência deram a volta por cima.

“Foi um período conturbado, tivemos muitas perdas entre nossos entes, mas com o passar dos anos fomos superando como muito trabalho e recebendo apoio social proveniente das zonas urbanas. Hoje, estamos voltados para a área do turismo com o comércio de artesanato, a produção de ervas medicinais e apresentações que envolvem danças e cantos, mas tudo isso sem perder nossas tradições”, explicou o pajé.

Manter a herança cultural foi um salto importante para a comunidade, diz a jovem Diató Tikuna, 22 anos. “A chegada de turistas nos trouxe benefícios”, resume à indígena esboçando alegria. No interior da maloca, era perceptível a preservação do modo de vida. Havia resquícios de peixe moqueado, cesto de palha com farofa de formiga tucandeira e utensílios domésticos criados pelos nativos. Seus corpos havia pinturas e se comunicavam em seus próprios dialetos.

Mulheres indígenas celebram a vida por meio das pinturas e cânticos tribais. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

A interculturalidade dos povos indígenas

Para o professor de Educação Indígena na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e de Antropologia Cultural na UniRio, Doutor José Ribamar Bessa Freire, de 72 anos, o congelamento das culturas indígenas é um equívoco, mas como podemos perceber isso, essa trajetória na mudança? A maioria dos brasileiros, segundo Bessa, tem uma imagem de como deve ser o índio. “Nu ou de tanga, no meio da floresta, de arco e flecha, tal como foi descrito por Pero Vaz de Caminha. E essa imagem foi congelada. Qualquer mudança nela provoca estranhamento. Quando o índio não se enquadra nessa imagem, vem logo a reação: “Ah! Não é mais índio”. Na cabeça dessas pessoas, o “índio autêntico” é o índio de papel da carta do Caminha, não aquele índio de carne e osso que convive conosco, que está hoje no meio de nós”, comenta.

“Então, o brasileiro pode usar coisas produzidas por outros povos – computador, telefone, televisão, relógio, rádio, aparelho de som, luz elétrica, água encanada – e nem por isso deixa de ser brasileiro. Mas o índio, se desejar fazer o mesmo, deixa de ser índio? É isso? Quer dizer, nós não concedemos às culturas indígenas aquilo que queremos para a nossa: o direito de entrar em contato com outras culturas e de, como conseqüência desse contato, mudar”.

Doutor José Ribamar Bessa Freire

O professor destaca que hoje os povos indígenas buscam pelo processo de interculturalidade, o resultado da relação entre culturas, da troca que se dá entre elas, onde novas realidades são construídas sem que isso implique abandono das próprias tradições.

“Os índios, aliás, abertos para esse diálogo. O problema é que historicamente eles não escolheram o que queriam tomar emprestado, isto lhes foi imposto a ferro e fogo. Então, historicamente essa relação não tem sido simétrica, não tem tido mão dupla, tanto na Amazônia, como no resto do Brasil e da América. Ou seja, os índios não puderam ter liberdade de escolha. Não houve diálogo. Houve imposição do colonizador. Aquilo pelo qual nós brigamos hoje é por uma interculturalidade, entendida como um diálogo respeitoso entre culturas, portanto, é essa liberdade de transitar em outras culturas que não concedemos aos índios, quando congelamos suas culturas”, concluiu o professor.

“Nós indígenas não temos muito a comemorar (…) praticamente estamos em luto”

Os recorrentes problemas sociais e na saúde indígena também foram lamentados pelo ativista e vice-coordenador da Coordenação das Organizações dos Povos Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Mário Nicácio Wapichana.

“Hoje, domingo, dia 9 de agosto é uma data muito especial para os povos indígenas, porém não há muito a comemorar em razão das inúmeras violações aos nossos direitos e pelo tempo que estamos passamos diante da pandemia que nos assola. Praticamente estamos em luto, pois todas essas maculas tiram a história do nosso território, portanto é uma data para refletirmos nossa luta e resistência para garantir nossa própria vida e da geração futura”, diz Wapichana.