Participe do nosso grupo no Whatsapp Participe do nosso grupo no Telegram
26 de janeiro de 2022
Ainda não é assinante
Cenarium? Assine já!
ASSINE
Com informações do Infoglobo

RIO – O segundo dia da prova do Enem indicou a defasagem do Banco Nacional de Itens (BNI), repositório de questões do exame que não é atualizado desde 2018. A ausência mais clara nas provas de Matemática e, especialmente, de Ciências da Natureza foi a pandemia de Covid-19, da mesma forma que aconteceu na prova do ano passado.

“Uma marca registrada do Enem sempre foi o atualismo das questões. A prova sempre foi muito contemporânea. Mas temos visto essa defasagem nos últimos anos. Do ponto de vista pedagógico, isso é muito ruim porque os alunos não ficam tão atentos à atualidade e acabam agarrados a fatos que já estão ficando no passado”, afirma Vicente Delorme, diretor de Planejamento do Colégio pH.

Já Rafael Pinna, diretor-geral do Colégio e Curso Ao Cubo, acredita que se esse cenário se mantiver, o resultado tende a ser a formação de estudantes cada vez mais alienados de assuntos relevantes atuais para a sociedade.

“Essa desconexão com a atualidade reduz o interesse dos alunos nas aulas e, de modo geral, nas escolas”, afirma.

O GLOBO mostrou na última terça-feira que o BNI está perto do fim depois de três edições do Enem do governo Bolsonaro sem que o processo para elaboração de novas questões tenha sido realizado nenhuma vez desde 2019. Com isso, de acordo com servidores do Inep, não há questões suficientes para a edição de 2022.

O Inep já teve quatro presidentes durante o Governo Bolsonaro. Além disso, outro posto chave, o comando da diretoria de Avaliação da Educação Básica, diretamente responsável pela elaboração da prova, também teve alta rotatividade, com seis diretores nesse período. O cargo também chegou a ficar quase cinco meses sem titular, em 2019.

Ontem, uma questão de análise combinatória, por exemplo, citava os campeões da Copa do Brasil até 2018 apenas. O exame teve duas questões sobre dengue. Uma delas relacionava a letalidade da doença com o Ebola, na África, e outra, inquirindo sobre qual era o tipo de prevenção que se fazia ao se usar um pigmento do açafrão contra a doença transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti.

A prova trouxe ainda duas questões sobre agrotóxicos, tema sensível do Governo Bolsonaro. Em outubro, um grupo intitulado “Mães do Agro” foi recebido pelo Ministério da Educação para reclamar sobre a forma como a agricultura era tratada nos livros didáticos.

A prova também teve uma questão sobre o impacto da tragédia de Mariana no arquipélago de Abrolhos, com o escoamento do rejeito de minérios de uma barragem da Samarco no Oceano Atlântico por meio do Rio Doce.

Conteudista e teórica

Na avaliação do professor de Física da Plataforma AZ de Aprendizagem Vinicius Silveira, o exame de hoje teve questões “genéricas e sem relação com a atualidade”:

“Não teve nenhuma questão com assuntos polêmicos no sentido político. As questões foram muito genéricas e não tinha nenhuma relação com a atualidade, como pandemia, por exemplo”.

O professor lembra que a prova de física, este ano, demandou menos cálculos. Em exames anteriores, normalmente, essa parte é dividida entre questões teóricas e questões que exigem contas.

Gilberto Tavares, coordenador de Química do pré-vestibular do Matriz Educação, também diz que esse campo do conhecimento priorizou a teoria ao invés de cálculos.

“A questão mais incomum foi sobre o conceito de ácido e base de Brönsted-Lowry e a mais comum foi a questão que traz a comparação de combustíveis”, afirmou o professor.

Já em Biologia, o professor Alexandre Pereira, do Ph, avaliou que a prova foi muito conteudista e que isso pode ter dificultado para quem não conseguiu estudar o ano todo.

“Muitos assuntos específicos, especialmente na área da botânica”, explica Pereira.

E, em Matemática, a prova exigiu muita interpretação de gráficos e tabelas, além de questões de geometria plana e espacial, probabilidade e análise combinatória.

Na avaliação de professores do Colégio QI, a prova não fugiu do que sempre cobrou.

Morador de Fortaleza, Antônio Lopes, de 54 anos, achou a prova de matemática complicada. Desempregado, ele fez o Enem pelo 2º ano seguido. Deposita na prova a esperança de alcançar o curso de Análise de Sistemas ou Ciências da Computação.

“Enquanto não consigo um emprego, me dedico aos estudos. Mando currículo todos os dias, pela internet, mas parece que não chega nas empresas. Não sei se é pela idade. Tenho experiência que as vagas pedem, mas não chega resposta”, afirma Lopes.

Já a aluna da rede estadual do Rio Maria Gabrielly, de 17, conta que a pandemia atrapalhou demais sua preparação.

“Se não der certo no momento, eu sei que dei o meu máximo. A pandemia realmente prejudicou”, diz.