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1 de dezembro de 2021
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Com informações do Infoglobo

BRASÍLIA — Senadores da CPI da Covid que são médicos, como Otto Alencar (PSD-BA) e Humberto Costa (PT-PE), acusaram Pedro Benedito Batista Júnior, diretor-executivo da Prevent Senior, operadora de plano de saúde, de ser desonesto e omitir mortes pela doença. Integrantes da comissão chegaram a dizer que o diretor mentiu à CPI e afirmaram que prontuários da Prevent Senior teriam sido adulterados para não exibir mortes por Covid-19.

No depoimento, Batista Júnior negou que a empresa tenha omitido mortes de pacientes que tomaram cloroquina e acusou médicos que atuaram na empresa de manipularem dados. Segundo o executivo, esses óbitos ocorreram depois da elaboração do relatório sobre o uso do remédio. Por isso, não puderam ser computados. 

Foi apresentada uma mensagem sobre como os pacientes eram classificados ao serem internados, e o diretor da Prevent Senior explicou que em vários casos era mudado o CID, ou seja, o código da doença.

“Todos os pacientes com suspeita ou confirmado de Covid, na necessidade de isolamento, quando entravam no hospital, recebiam o B34.2, que é o CID de Covid. E, após 14 dias, ou 21 dias para quem estava em UTI, se esses pacientes já tinham passado dessa data, o CID podia ser modificado porque não representavam mais risco para a população do hospital”, afirmou Batista Júnior.

Os senadores reagiram.

“Inacreditável O senhor não tem condição e ser médico com a desonestidade que fez agora. Mudar o código de uma doença é crime”, afirmou Otto Alencar, que é médico.

“Eles consideram que, depois de 14 dias, o paciente não tem mais Covid, ou que depois de 21 dias não tem mais Covid. Esses pacientes morreram de quê? De complicações de Covid. É Covid. É uma fraude”, disse Humberto Costa, que também é médico.

Manipulação de dados

Batista Júnior disse que os termos de consentimento das famílias dos pacientes estão em posse da empresa. Ele afirmou que profissionais já desligados da empresa adulteraram planilha interna da Prevent Senior para dar a ideia de fraude.

“Eles invadiram o sistema, acessaram a planilha e, mesmo não tendo mais reponsabilidade sobre esse processo, adulteraram a planilha e encaminharam a planilha para a advogada”, disse o diretor afirmando que houve adulteração também em mensagens da empresa.

Ele negou também a existência de pressão sobre os médicos, que tinham autonomia para prescrever os remédios. O executivo disse ainda que a Prevent Senior tomou medidas para evitar o contágio, como testagem do profissionais, afastamento de quem estava doente, e um gasto de mais de 80 milhões equipamentos de proteção individual. Segundo ele, a regularidade da atuação da Prevent Senior foi constatada pelo Ministério Público do Trabalho.

Batista Júnior reconheceu que não existe medicação milagrosa:

“Eu tenho uma visão muito clara, depois de tantos meses, que a intervenção do paciente, o teste sendo realizado com mais eficácia, o isolamento e a utilização de tudo que hoje é sabido pode sim amenizar a evolução da doença. E claro a autonomia do paciente tem que ser preservada para que ele possa de certa maneira indicar para cada um dos seus pacientes a melhor medida. A minha observação de tratamento ou não precoce é que não existe nenhuma medicação milagrosa”.

O relator Renan Calheiros (MDB-AL) perguntou se o médico Anthony Wong, defensor da cloroquina, morreu de Covid-19, mas o diretor da Prevent disse que não poderia passar informações sobre um paciente. Foi exibido então um áudio em que o executivo estaria pressionando um médico a voltar atrás numa informação repassada à imprensa.

“Você tem muito a perder. É sua família que vai ser exposta. Isso não é ameaça, é conselho de quem ficou com você por sete, oito anos” disse Pedro Benedito na gravação. O outro médico fala então a morte de Anthony Wong. “Não foi de covid?”, perguntou. “Não”, respondeu Batista Júnior. “E aquilo no prontuário dele?” — questionou o outro médico. “Ele entrou por causa de um sangramento gástrico” — afirmou no áudio o diretor da Prevent.

Pacientes exigiram cloroquina

À CPI, o executivo disse que o outro médico subtraiu dados de um paciente e o caso dele foi encaminhado para o Conselho Regional de Medicina (CRM) para investigação.

O executivo também disse que, no começo da pandemia, havia pacientes exigindo a prescrição de cloroquina, e que houve termo de livre consentimento em todos os casos. Ele negou que tenha ocorrido testagem da cloroquina. Segundo Pedro Benedito, houve apenas o respeito à autonomia médica para poder prescrever o medicamento. Contou que não só a cloroquina foi usada, mas também outros remédios, como anti-inflamatórios e, anticoagulantes.

No começo da pandemia, a cloroquina foi uma das apostas contra a doença. Estudos posteriores mostraram que o remédio não tinha eficácia para o tratamento a Covid-19.

A Prevent Sênior é acusada de ter pressionado médicos conveniados para que  prescrevessem medicamentos do chamado tratamento precoce para a Covid-19, cuja ineficácia já foi comprovada. A empresa é suspeita de ter ocultado mortes em estudos sobre a cloroquina, além de ter sido denunciada por pacientes da operadora, que teriam sido assediados para aceitar o tratamento precoce.

Inicialmente, sua oitiva estava marcada para semana passada, mas ele não compareceu à comissão alegando que havia sido intimado em cima da hora e não teve tempo hábil para se preparar. Na ocasião, o relator do colegiado, Renan Calheiros (MDB-AL), defendeu a condução coercitiva para que o depoente possa depor.

Batista Júnior também foi acusado por um médico conveniado da operadora, que relatou que o executivo ameaçou a ele e a sua família após ter denunciado as práticas ilegais na Prevent Sênior. À Polícia Civil de São Paulo, Walter Correa de Souza Melo relatou que o diretor teria dito que o médico estaria “expondo sua filha e sua família”, caso insistisse em levar o caso adiante, o que foi interpretado por ele como uma ameaça. Segundo Melo, o executivo também proferiu frases como: “Você tá achando que é espertão?” e “Walter, olha o que você fez com a sua família!”.