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6 de maio de 2021

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Com informações do Portal IG

MANAUS – Registros antigos mostram que os povos indígenas originários das Américas viviam sem discriminação de gênero ou orientação sexual. Ainda hoje é possível  identificar marcas desse passado de mais de 500 anos entre os indígenas, mesmo que o Brasil carregue o título de lugar onde mais ocorrem crimes LGBTfóbicos no mundo.

A sigla LGBTQIA+, que vem sofrendo alterações não oficiais [mas não menos legítimas] nas últimas décadas, é apontada por alguns ativistas com mais de 14 elementos, que estariam representados pelo “mais”, que aparece ao final. Dentre os símbolos, o número 2 se destaca no conjunto de letras para representar a categoria “dois espíritos” [two spirits]. O termo é utilizado atualmente por indígenas nativos norte-americanos para descrever os ameríndios que desempenham um dos muitos papéis de gênero mistos que é possível encontrar nas tribos nativas do país.

O termo foi instituído e aplicado pelos próprios ameríndios LGBTQIA+ e pode não se encaixar na realidade das diversas tribos nativas do Brasil. Mesmo assim, a diversidade de gêneros também é uma realidade entre os povos que vivem aqui.

O coordenador do Núcleo de Estudos sobre Etnicidade da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Renato Athias, explica que a noção de espírito que há no Brasil não cabe para os povos indígenas porque está baseada em fundamentos cristãos.

Registros antigos mostram que os povos indígenas originários das Américas viviam sem discriminação de gênero ou orientação sexual. (Reprodução/instagram)

“Entre os índios com os quais eu trabalho, não é possível falar de espíritos, por exemplo. Para eles, existem três situações ou substâncias que o corpo humano se coloca, a sexualidade é uma delas, mas não é a mais forte, depois a ideia de um bem-estar e também uma ideia de desequilíbrio. Tudo o que entra e sai pela boca e pelos orifícios tem um significado. Algo que, muitas vezes, não é compreendido na sociedade ocidental”, afirma.

“Por que não três ou quatro espíritos? Cada povo indígena tem seu entendimento e relação com o que poderíamos chamar de espíritos, mesmo essa ideia de espírito sendo algo fora da realidade indígena, sobretudo do ponto de vista das mitologias”, completa Athias.

Ainda assim, o pesquisador ressalta a existência de mitos indígenas que ajudam a perceber que existem, entre eles, mais de dois gêneros, mais que “homem” e “mulher.

“A ideia de [apenas] dois sexos é completamente ocidental. Masculino e feminino fazem parte de uma série de criações que foram colocadas dentro das sociedades. Em certos mitos indígenas, há várias situações em que essa diferença entre masculino e feminino deixa de existir ou se torna uma forma diferente de olhar essas relações sexuais definidas entre um e outro. Podemos dizer que não são só existem dois, mas três, quatro sexos, se analisarmos bem”, afirma o antropólogo.

Relatos

Perceber essas outras formas de ser e existir podem ser dificultadas por algumas questões. A primeira delas é a influência de outras culturas, a partir da colonização europeia. Para Athias, nos últimos 521 anos de contato com outros grupos sociais, muita mudança aconteceu nos modelos de organização social e na forma de pensar das sociedades indígenas.

“Os povos indígenas originários evidentemente têm uma continuidade histórica nos povos indígenas atuais aqui no Brasil, mas não são os mesmos. As identidades de gênero sempre foram respeitadas entre os grupos indígenas e sempre serão. Contudo, à medida que determinado povo esteja mais fortemente cristianizado [como consequência da colonização], hoje pode haver um outro tipo de relação”, opina o professor.

“A ideia de desrespeito e de tornar as relações sexuais um pecado vêm muito da ação cristã missionária em relação a todos os povos. A doutrina cristã em relação ao corpo foi terrível, condenando inclusive muita gente à fogueira, muitas vezes porque as pessoas modificavam seus corpos, produziam fórmulas com o próprio corpo”, acrescenta.

Outro motivo que dificultaria a percepção da existência de outros gêneros seria a tradução e a própria pesquisa sobre esses grupos, que muitas vezes podem ser enviesadas pelo olhar judaico-cristão de que estuda.

“Nas sociedades indígenas, é possível encontrar alguns elementos de sexualidade e gênero que não fazem parte do conjunto [de conhecimentos] ocidental e, com isso, eles não são vistos. O conhecimento indígena é traduzido para nós. afirma Renato Athias.

A sexualidade também é encarada pelos povos indígenas de forma mais simplificada e, de forma geral, não há estruturas fortes do machismo, baseado em papéis ou funções destinados socialmente aos gêneros.

“Para as sociedades indígenas, a orientação sexual não é algo tão complicado como é para a sociedade ocidental. A arqueologia tem colaborado muito com a antropologia, no sentido de podermos perceber as diversas formas [existentes]. Por isso, hoje, é possível estudar melhor essas questões”, comenta o professor. Veja a matéria completa no Portal IG.

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