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26 de janeiro de 2022
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Luís Henrique Oliveira – Da Revista Cenarium

MANAUS – A velocidade que o novo Coronavírus se espalha nas grandes capitais pode ser a mesma que adentra em terras indígenas pelo País. A morte de uma jovem yanomami de 15 anos em decorrência de complicações pela Covid-19, foi o estopim para essa preocupação.

“A maior preocupação está nas aldeias, onde a vida é comunitária, nas casas vivem famílias extensas, com muitas pessoas, há grande compartilhamento de objetos e alimentos”, diz Douglas Rodrigues, médico sanitarista e atuante no Projeto Xingu, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

“As condições de saneamento são precárias e as pessoas quase não têm acesso a materiais básicos como sabão para fazer a lavagem das mãos, das roupas e objetos, nem o álcool a 70% ou mesmo a água sanitária”, explica Rodrigues, que trabalha com saúde indígena desde 1981.

“Já vivemos isso antes. Muitas mortes causadas por vírus, como sarampo, varíola, malária, febre amarela, que já exterminaram muitos povos. Como já passamos por isso, o medo é que o coronavírus provoque novo genocídio”, afirma Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).

Rodrigues alerta ainda para a falta de infraestrutura de saúde e a distância das aldeias dos centros urbanos onde há hospitais com unidades de terapia intensiva. “Daí a grande importância de bloquear a transmissão”, explica.

A entrada de pessoas de fora nas terras indígenas deixa os nativos ainda mais vulneráveis. “O vírus não anda sozinho. E, sim, com as pessoas”, afirma o sanitarista. Além do rapaz morto, pessoas com quem ele teve contato também se contaminaram. “Os invasores são os maiores vetores da doença. Além de provocarem a destruição do meio ambiente, ainda trazem o risco de contaminação”, diz Guajajara.

Apoio difícil

Na última segunda-feira, 27, a representante da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Nara Baré, disse durante a 16ª edição do campamento Terra Livre (ATL), que os povos indígenas são inimigo número um do presidente Bolsonaro.

Nara Baré comentou sobre o apoio do Governo Federal às populações indígenas. Foto: Reprodução

“Não estamos em Brasília, mas estamos na nossa casa maior, os nossos territórios. Fomos declarados inimigos número um do presidente e mesmo num momento de pandemia, sentimos a invasão ao nosso território aumentar”, declarou Nara Baré.

Recomendações enviadas pelo MPF (Ministério Público Federal) ao Ministério da Cidadania, Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), Correios e agências bancárias, e às Forças Armadas foram comemoradas pelos indigenistas.

O MPF pede as autoridades que haja logística diferenciada para o pagamento do auxílio emergencial aos indígenas, além do Bolsa Família e outros benefícios. O órgão acredita que, desta forma, será possível prevenir a disseminação da covid-19 nas comunidades indígenas.

Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, anunciou, no dia 13 de abril, um plano de contingência que destinará R$ 4,7 bilhões a indígenas, quilombolas, ciganos e outros povos tradicionais do país.

O valor será dividido em R$ 3,2 bilhões para inscritos no Bolsa Família, R$ 1,5 bilhão em kits de higiene e reforço alimentar e R$ 23 milhões em ações de prevenção e atendimento à saúde.

Com a palavra, a Funai

À REVISTA CENARIUM, a Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que os povos indígenas, em especial aqueles em isolamento voluntário ou de recente contato, são mais vulneráveis a infecções virais, requerendo um maior cuidado dos agentes públicos na atuação para prevenir a contaminação dessa população.

E explicou que conta com 39 Coordenações Regionais, 225 Coordenações Técnicas Locais e 11 Coordenações de Frente de Proteção Etnoambiental, que prestam o atendimento direto às comunidades indígenas; essas unidades estão espalhadas em grande parte do território nacional. Inclusive, uma das estratégias que tem sido articuladas entre a Funai, a Sesai/Ministério da Saúde, o MMFDH e a CONAB, é a distribuição de cestas de alimentos a famílias indígenas que se encontram em isolamento social em suas aldeias, como forma de, ao mesmo tempo, garantir a sua segurança alimentar e diminuir as circulações entre as aldeias e as cidades.

Sobre as necessidades de equipamentos, trecho de documento enviado à reportagem cita os de proteção individual, que são importantes e necessários às equipes da Funai para evitar o disseminação do novo Coronavírus durante o atendimento aos povos indígenas, tendo em vista a situação de emergência em saúde pública decorrente da Covid-19.