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29 de janeiro de 2022
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Com informações do O Globo

BRASÍLIA – Documentos recebidos pela CPI da Pandemia revelam que o Governo do Amazonas após contato com Eduardo Pazuello, alertou oficialmente o Exército sobre o risco de desabastecimento de oxigênio para pacientes com Covid-19 em Manaus em 7 de janeiro.

O material, analisado por consultores da comissão, contradiz a versão do ex-ministro da Saúde – que, em depoimento no Senado, disse ter sido informado sobre a real situação do colapso nos hospitais apenas em 10 de janeiro.

Um dos documentos examinados pela CPI é o depoimento prestado à Polícia Federal (PF) pelo secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus José Barroso Campêlo. Ao falar sobre o colapso em Manaus, ele disse ter sido avisado em duas reuniões no dia 7 de janeiro pela empresa White Martins, maior fornecedora local de cilindros de oxigênio, de “problemas de natureza logística” para atender os hospitais.

Campêlo relatou à PF que, diante dessa informação que, segundo ele, não esclarecia a real situação, “fez contato telefônico com o ministro da Saúde (Eduardo Pazuello), tendo relatado o conteúdo da reunião com os representantes da White Martins e solicitado o apoio logístico para a realização do transporte de oxigênio de Belém para Manaus”.

Em outro depoimento, prestado à Procuradoria da República do Amazonas e em posse da CPI, o secretário de Saúde do Amazonas detalhou o contato telefônico com Pazuello. “Logo que eles (representantes da White Martins) saíram, eu liguei para o Pazuello. Era por volta de oito horas. Prontamente, ele me atendeu. Eu expliquei a situação, dessa demanda…Então, ele falou: ‘Pede para o Wilson (Lima, governador do Amazonas) ligar para o general e fazer o pedido’”, disse Campêlo.

Poucas horas depois, às 23h45, Campêlo enviou um e-mail contendo um ofício formal endereçado ao Comando Militar da Amazônia. No documento, o secretário de Saúde do Amazonas diz: “Dada a iminência do esgotamento do referido insumo (oxigênio) e como forma de manter o serviço em lume, resguardando a vida dos pacientes internados na Rede Estadual de Saúde, a empresa informou que possui o oxigênio no Estado de Belém/PA”.

O documento ainda destaca que “a carga precisa chegar até as próximas 24 horas” e pede um contêiner com capacidade para 31.500 kg. Segundo pessoas que acompanharam as tratativas, o então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, foi avisado do ofício da Secretaria de Saúde do Amazonas e armou uma operação para levar tanques de oxigênio da White Martins de Belém para Manaus. O insumo foi transportado por meio de aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) no dia seguinte, 8 de janeiro, chegando em Manaus às 20h55.

O Exército afirmou, em nota, que “o Comando Militar da Amazônia recebeu, no dia 7 de janeiro, o Ofício nº 145/2021, assinado pelo secretário de Estado de Saúde do Amazonas, Marcellus José Barroso Campêlo, solicitando ao Comando Conjunto Amazônia o transporte aéreo urgente de oxigênio líquido medicinal de Belém (PA) para Manaus (AM)”.

“Em menos de 24 horas, o Comando Conjunto mobilizou-se para atender a essa necessidade de transporte, conforme matéria publicada na página daquele Comando à época.”

O fato de o ofício falar explicitamente no risco de desabastecimento em Manaus se tornou relevante para membros da CPI da Pandemia, que apuram indícios de omissão de Pazuello no Ministério da Saúde. Em depoimento na comissão, Pazuello foi indagado sobre o tema pelos senadores Omar Aziz (PSD-AM) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

“No dia 7 à noite, ele (Campêlo) não me falou nada de colapso de oxigênio. Foi a solicitação de transporte, a logística de Belém para Manaus, que foi feita no dia 8 e 10. Em momento algum… Ele faz isso na sua declaração… Olha só, isso está feito em depoimento”, declarou o ex-ministro da Saúde.

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) argumentou que o ex-ministro tinha conhecimento da gravidade da crise.

“Vossa Excelência não pode deixar de dizer que conhece isso. O senhor estava lá. O senhor assistiu com os seus olhos aos nossos brasileiros amazonenses morrerem por falta de oxigênio”, disse.

Para parte dos membros da CPI, que estão cruzando o depoimento de Pazuello com documentos recebidos pela comissão, fica cada vez mais evidente que o ministro mentiu ao dizer que não sabia da dimensão da crise antes do dia 10 de janeiro. Naqueles dias, 51 pessoas morreram por falta de oxigênio, segundo investigação do Ministério Público Federal.

Após analisar a farta documentação recebida pela CPI, senadores querem reconvocar Pazuello para prestar um novo depoimento, ainda sem data marcada. O ex-ministro da Saúde, que nega ter se omitido, deve ser confrontado novamente com documentos que revelam a cronologia da crise em Manaus.

O depoimento de Campêlo, programado para 15 de junho, deve servir também para coletar informações sobre o colapso em Manaus e apontar as contradições de Pazuello. Procurado, o secretário de Saúde do Amazonas não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Um representante da empresa White Martins será ouvido em 18 de junho, detalhando a participação da empresa nas negociações para resolver a crise de oxigênio.