26 de fevereiro de 2021

Ana Pastana, Jennifer Silva e Mencius Melo – Da Revista Cenarium

MANAUS – Confetes, serpentinas e aquele toque de ‘corneta’ em forma de vinheta anunciando a virada de mais uma marchinha de Carnaval. Esses seriam os ingredientes do domingo gordo da folia momesca de 2021, mas, como todos sabem, um certo vírus parou o mundo e deu aos brasileiros o primeiro ‘Carnaval sem Carnaval’ depois de 103 anos. A última vez que isso não aconteceu foi em 1918, durante outra pandemia: a gripe espanhola.

A REVISTA CENARIUM entrevistou alguns leitores que nos enviaram fotos do Carnaval 2020 e o de hoje, 14 de fevereiro de 2021. A Covid-19 derrubou vários eventos tradicionais desde o início de 2020, há quem sofra com a suspensão de eventos desde o ano passado, mas é a primeira vez que os amantes do Carnaval sentiram como é ‘não ter Carnaval’, já que os foliões aproveitaram o evento no ano passado.

Para bons amantes do Carnaval a data não pode passar em branco. A jornalista Camila Duarte é um exemplo. Com integrantes da família e sem convidados, eles celebraram o Carnaval em casa e com segurança. “Foi uma forma de manter viva a chama do Carnaval e continuar festejando a data. Tradicionalmente, estaríamos no sambódromo desfilando pela nossa escola Reino Unido da Liberdade. Como este ano não pudemos fazer isso, decidimos fazer a nossa festa para suprir de alguma forma a saudade”, declarou.

No registro acima, a família da jornalista Camila Duarte em casa no Carnaval 2021 e, abaixo, no ano passado no sambódromo de Manaus(Reprodução/Pessoal)
 

Camila sempre esteve envolvida com o Carnaval e defende que a data não é só uma festa tradicional do País. “As pessoas falam muito sobre o ano começar depois do Carnaval, e eu não imaginava que isso era tão real, parece que eu estou em um universo paralelo. O sentimento não é dos melhores, é como se faltasse uma parte de mim que não vai acontecer tão cedo. O Carnaval não é só uma festa, as pessoas fazem história no meio das escolas de samba, vivem por isso, constroem uma família e aprendem a amar essa arte, e não viver isso em 2021 é como se a nossa história tivesse sido apagada”, ressaltou a jornalista.

A professora universitária Ila Clicia também embarcou no bloco do “Fica em Casa” e aproveitou o momento para curtir a data com segurança e sem aglomerações, como pede o momento. Ila adora se fantasiar e até viu o lado bom de aproveitar a festa em casa. Segundo ela, “O lado bom de fazer um bloquinho em casa é que quando eu precisar tenho um banheiro só para mim e quando eu cansar já tenho onde cair tranquilamente”, brincou a professora.

Em 2020 a professora Ila Clicia “botou o bloco na rua” (à esq.). Em 2021, em trajes indianos (à dir.), resolveu fazer um Carnaval mais espiritualizado em casa (Reprodução/Arquivo pessoal)

O vazio da folia Brasil afora…

Na ‘cidade maravilhosa’, conhecida como o coração do Carnaval brasileiro, reina o silêncio das quadras e a falta das bandas e blocos nas ruas e avenidas. A mais festiva das cidades brasileiras entrou na quadra carnavalesca de forma inacreditável! Nenhum agogô, nada de tamborins, surdos ou apitos dos mestres da bateria. Apenas o silêncio ensurdecedor da pandemia que calou a folia no Rio de Janeiro e no Brasil inteiro.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira da Beija-Flor, em uma apresentação silenciosa na Marquês de Sapucaí na sexta-feira de Carnaval (Reprodução/ZO Guimarães-AFP)

No Recife e em Olinda, a folia deu lugar a ruas e ladeiras vazias, caladas e nostálgicas. O frevo não puxa o povo e os casarios antigos de duas das mais históricas cidades foliãs do Brasil, não se abrem para ver a multidão passar. Nem bandas, nem blocos, nem ‘Galo do Madruga’ muito menos os bonecos gigantes ou o resistente ‘Bacalhau do Batata’. Folia em Pernambuco só em 2022.

Músico caminha em meio ao silêncio de Olinda, no que seria o “domingo gordo” de Carnaval (Reprodução/Leo Caldas-AFP)

Em Salvador, na Bahia, o Olodum e tantos outros grupos de Carnaval afro não desfilarão. Os famosos trios elétricos não estão nos circuitos do Carnaval baiano. A constelação de estrelas da música alegre e festiva que faz o Brasil inteiro dançar e pular na alegria de um dos mais populares carnavais de rua do mundo foi cancelada. Conscientes, os baianos foram uns dos primeiros a reconhecer a impossibilidade da festa em meio a uma das maiores tragédias humanitárias do Brasil e do planeta.

Grupo Olodum fez ato em solidariedade aos mais de 200 mil brasileiros mortos pela Covid-19 (Reprodução/Internet)

Em tempo

O leitor pode estranhar a quantidade de profissionais para realizar a matéria, mas a ideia foi formar um ‘bloco animado da informação’, já que por estarmos em isolamento não é possível cair na folia. Assim como você, vamos esperar 2022 para, se Deus quiser, fazermos o melhor Carnaval de nossas vidas. Com muita saúde! Fique em casa, use álcool em gel e máscaras.