8 de março de 2021

Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – Se o trabalho a ser feito é “maceta” ou “gitinho” isso pouco importa para Dona Marina. Já que, no final, todas as coisas foram produzidas sem medição exata do tamanho e quantidade, por serem apenas uma questão que necessitava ser facilmente resolvida.

O tempo passa e Dona Marina vai continuar sem entender o que quer dizer o tal “sexo frágil”. Ela vai seguir realizando tantas tarefas árduas do seu cotidiano e, quando se der conta, vai ter vivido em um mundo onde quem quer faz e não faz questão de saber da “guerra dos sexos” ou do “sexo forte”.

Questionada se faz parte do “sexo frágil”, Marina responde com um franzido de testa. “Não sei nem o que é isso”, diz a senhora. Dos “vera”, de sexo frágil, Marina não tem nada. Mesmo com seus 1,50m de altura, a cabocla amazônida é uma grande mulher.

Na sabedoria de extrair da floresta o suficiente para viver, Marina dá uma aula de como conviver em harmonia com o mundo que a cerca (Reprodução/Z Leão)

Desafios

Não sabemos se é por necessidade ou por audácia, ou se é simplesmente ela não sabendo que é impossível, vai lá e faz! Para trazer o pão de cada dia para casa, muitas vezes o marido André caía no “trecho” e ficava seis meses fora de casa nas fábricas de seringa, juta e sova.

E as tarefas de cuidar dos filhos e as lidas para o sustento da casa ficavam sob responsabilidade de Marina, que nunca soube separar o mundo em tarefas de homem ou de mulheres. Até por que, sozinha, respira fundo e diz “Rumbora la!”.

“Se carece de ser feito, vai ser feito!”, é a frase que Marina, no auge dos 84 anos, usa para traduzir o que considera ser desafio. Para ela, subir em árvore, quebrar ouriço de castanha e carregar um pandeiro com 50 quilos de mandioca são comuns.

Da firmeza do remo à delicadeza da costura, uma alma feminina é sempre uma alma feminina, esteja a mulher onde estiver (Reprodução/Z Leão)

Além das tarefas de subir em açaizeiro com 10 metros de altura, atirar de espingarda, pescar peixe com arco e flecha, jogar tarrafa e muitos outros hábitos do anoriense amazônico, foram a parte do sexo forte que Marina, como tantas outras caboclas do imenso Amazonas, nunca encarou como sendo impossível de ser realizado.

Ainda que pela necessidade ou talvez por não ter a opção do “não querer fazer”, ou pura e simplesmente pela fortaleza de ser quem é, mesmo sem possuir a noção do quão forte ela seja. Viva as Marinas! Vivas as mulheres únicas do universo diverso da Amazônia brasileira.