Participe do nosso grupo no Whatsapp Participe do nosso grupo no Telegram
20 de outubro de 2021
Ainda não é assinante
Cenarium? Assine já!
ASSINE
image/svg+xml

Com informações da FolhaPress

BRASÍLIA – Com assunto “COVID-19-Pfizer Update”, um e-mail do presidente mundial da Pfizer foi enviado à chefia de gabinete da Presidência da República no dia 17 de março de 2020 informando ao presidente Jair Bolsonaro medidas em andamento para ajudar no combate à pandemia.

O e-mail, ao qual o jornal Folha de S.Paulo teve acesso, foi entregue à CPI da Pandemia do Senado em caráter sigiloso. A mensagem foi enviada aos endereços [email protected], [email protected] e [email protected] Pedro César era o chefe de gabinete de Bolsonaro na época. Hoje, ele é subchefe para assuntos jurídicos da Presidência.

A comunicação ocorreu seis dias depois de a OMS (Organização Mundial de Saúde) decretar estado de pandemia no mundo. No e-mail, Albert Bourla, CEO da Pfizer, se dirige diretamente a Bolsonaro e informa que a empresa, naquele momento, já buscava soluções contra o vírus para ajudar o mundo durante “tempos sem precedentes”. Diz ainda que anexou documento com os principais pontos de compromissos adotados naquele momento.

O texto foi encaminhado com cópia para, além do gabinete presidencial, a chefia de gabinete do Ministério da Saúde, o gabinete da secretaria-executiva da pasta e o embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Nestor Forster.

“A Pfizer continua a manter suprimentos de medicamentos críticos hospitalares e está em busca de soluções médicas contra a Covid-19. Ela também anunciou um plano de cinco compromissos para avançar nesse processo”, diz o e-mail.

A existência ou não de respostas do governo a Pfizer se tornou um dos temas centrais da CPI. A Folha de S.Paulo revelou que uma série de e-mails entregue pela Pfizer à CPI da Pandemia em caráter sigiloso mostra a insistência da farmacêutica para negociar vacinas com o governo e a ausência de respostas conclusivas do Ministério da Saúde à proposta apresentada pela empresa no meio do ano passado.

No intervalo de um mês, de 14 de agosto a 12 de setembro de 2020, quando o presidente mundial do laboratório mandou carta ao Brasil com uma oferta de doses de vacina, foram ao menos dez e-mails enviados pela farmacêutica discutindo e cobrando resposta formal do governo.

Em depoimento à CPI da Pandemia na semana passada, o gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, relatou esse pacote de cinco medidas, citado no e-mail de março de 2020, a serem tomadas durante a pandemia que havia sido desenhado pelo CEO da companhia e enviado ao governo.

O primeiro ponto era tornar as ferramentas e conhecimentos da empresa abertas a cientistas. O segundo envolvia mobilizar os cientistas da empresa para buscarem soluções de combate à pandemia.

“O terceiro ponto desse plano consistia em colocar à disposição toda a nossa expertise, como companhia, no desenvolvimento de uma solução terapêutica, especialmente para as companhias biotecnológicas menores”, contou Murillo. O quarto ponto previa colocar à disposição a “expertise e capacidade de fabricação de medicamentos” mesmo que a solução fosse encontrada por outra empresa.

O quinto era o que eles chamaram de “colaboração sem precedentes” tanto no nível privado como público-privado. “Talvez o melhor exemplo do resultado dessa colaboração foi a parceria da Pfizer com a empresa biotecnológica BioNTech”, disse Murillo à CPI. “Hoje estamos aqui e temos esta possibilidade de falar de vacinas em grande medida como resultado dessa colaboração sem precedentes”

“Como consequência desse esforço sem precedentes, nós fomos capazes de oferecer para o mundo a primeira vacina eficaz e segura contra a Covid-19”, afirmou Murillo. Não é possível saber se houve resposta da presidência. O Palácio do Planalto foi procurado, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.
Segundo documentos da Pfizer que estão na CPI da Pandemia, o próximo contato que a farmacêutica fez com o governo foi no dia 20 de maio, dois meses, portanto, do primeiro e-mail enviado a Bolsonaro.

Naquela data, em maio, a empresa pede audiência ao ministro da Saúde e ao vice-presidente da República com o então presidente da Pfizer no Brasil para tratar de avanços da farmacêutica no combate à Covid-19.

Daquela troca de e-mails é agendada uma reunião virtual entre representantes da Pfizer e técnicos do governo brasileiro para o início de junho. No final daquele mês, a farmacêutica procura novamente o Ministério da Saúde, desta vez para falar sobre o desenvolvimento da vacina.

Pouco tempo depois, o laboratório assina Termo de Confidencialidade com o governo brasileiro, em 14 de julho, e, no dia 21 daquele mês, a Pfizer envia ofício ao ministério confirmando a participação do Brasil no estudo clínico de estágio final da vacina, que havia sido aprovado pela Anvisa.

Ainda no dia 21, a Pfizer reitera solicitação de audiência para apresentar uma proposta da Pfizer de fornecimento de vacinas. Um e-mail do laboratório indica que uma audiência ocorreu no dia 29 daquele mês.
Outros e-mails são trocados até que nova reunião acontece no início de agosto.

Depois desta audiência, no dia 14 daquele mês, como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo, a Pfizer formaliza por e-mail enviado a autoridades e técnicos do Ministério da Saúde duas propostas de fornecimento de vacinas: uma com 30 milhões de doses e outra, com 70 milhões, cujos termos eram válidos por 15 dias, encerrados em 29 de agosto.

As informações da CPI mostram que os e-mails enviados pela Pfizer ao Ministério da Saúde, evidenciam a insistência da farmacêutica para negociar vacinas com o governo federal, ao mesmo tempo que deixam clara a ausência de respostas conclusivas às propostas apresentadas pela empresa.

Houve dois contatos telefônicos no período entre técnicos do Ministério da Saúde e representantes da Pfizer, mas os documentos da farmacêutica indicam que não houve nenhuma resposta conclusiva do governo sobre a oferta que havia sido feita.

Passada a data limite para assinatura do contrato, em 29 de agosto, houve novo e-mail da Pfizer a técnicos do ministério respondendo a pedido de informação com dados sobre a vacina até que, em 12 de setembro, foi encaminhada ao presidente Jair Bolsonaro com cópia para outras autoridades a carta do presidente mundial da Pfizer, Albert Bourla, na qual ele afirma que não houve resposta do governo brasileiro à proposta apresentada pela farmacêutica.

“Minha equipe no Brasil se reuniu com representantes de seus Ministérios da Saúde e da Economia, bem como com a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Apresentamos uma proposta ao Ministério da Saúde do Brasil para fornecer nossa potencial vacina que poderia proteger milhões de brasileiros, mas até o momento não recebemos uma resposta”, diz a carta.

As tratativas só são intensificadas novamente no final de outubro, passando por negociações em novembro até o Brasil finalmente apresentar uma contraproposta à oferta da Pfizer em dezembro.

Durante a troca de e-mails, representantes do laboratório deixam claro que o fato de não terem ainda o registro da vacina na Anvisa não seria um problema ao Brasil já que o contrato só seria assinado após a autorização para uso do imunizante. Ou seja, não haveria prejuízo financeiro ao Brasil.

A oferta da Pfizer previa início de imunização em dezembro do ano passado, com 1,5 milhão de doses e mais 3 milhões no primeiro trimestre deste ano. O Ministério da Saúde brasileiro só firmou acordo com o laboratório em março de 2021, quando adquiriu 100 milhões de doses – das quais 14 milhões devem ser entregues até junho, e o restante até setembro deste ano.

Em depoimento à CPI nesta semana, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello foi questionado sobre o assunto e classificou a insistência do laboratório como “agressiva”. “Eu acredito que a estratégia de venda da Pfizer, a forma agressiva da publicidade, aquilo ali é uma estratégia de empresa. Então, ela veio muito forte para vender no Brasil, no boom da América Latina, o que é normal”, disse.

Senadores que integram o grupo majoritário da CPI da Pandemia, formado por independentes e oposição, consideram que os e-mails enviados pela Pfizer comprovam a omissão do governo nas tratativas para comprar vacinas contra a Covid-19.

O lado governista da comissão, por sua vez, considera que essas comunicações fazem parte de um esforço para se criar uma narrativa falsa contra o governo do presidente Jair Bolsonaro.