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23 de abril de 2021

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Com informações do UOL

Na última terça-feira, a infectologista Lourdes Borzacov chegou às 20h para o plantão na emergência Covid-19 no hospital em que atua, em Porto Velho. Como todos no Estado, não tinha (e nem tem hoje) vagas para internação. A rede de saúde pública e privada colapsou sem leitos em enfermaria ou Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

“Ultimamente é preciso esperar um óbito ou uma alta para poder ter vaga. Todo mundo está enfrentando isso”, lamentou Lourdes Borzacov, infectologista em Porto Velho.

Ao UOL, ela conta como são as 12 horas de um plantão, com a chegada desenfreada de pacientes e falta de condições de dar a assistência a todos.

“É muito difícil de conduzir; há um desespero do paciente, da população, muito grande. A gente entende a angústia de quem está lá, esperando uma vaga, e a gente também se desespera por não ter como dar a qualidade necessária do atendimento”, salienta.

Rondônia tem uma carência histórica de médicos, que se agravou durante a pandemia. Desde o recrudescimento da doença, em janeiro, ela conta que dobrou a carga de plantões. Em cada um deles, diz, o número de pacientes com suspeita de Covid-19 só cresce.

A infectologista Lourdes Borzacov (Arquivo Pessoal/Reprodução)

“Não tem nem como contar, não se para. No final de um plantão de 12 horas, temos atendido 80, 100 pacientes. É muita gente”, lembra. “Estamos agora em uma situação de guerra, mas caminhando para ser pior que uma guerra”, continua.

Borzacov explica que os pacientes precisam ficar na emergência aguardando uma vaga liberar antes de serem internados. “Tem todo o tipo de situação. Mas alguns têm de ficar intubados aguardando, e a gente tem de dar atenção ao paciente, esperar não agravar durante a noite. A gente passa essa apreensão”, relata.

“A gente sabe que precisa continuar, mas, nesse ritmo, acredito que tudo tenha um reflexo físico e mental. Uma hora você acaba adoecendo”, admite.

Por conta da situação, ela “sofre um dia antes” de cada plantão. “Já vou me preparando. Mentalizo já que será pesado. Mas aí vêm os problemas: a privação de sono, angústia do dia anterior. A gente que tem filho pequeno se preocupa ainda mais com o amanhã”, declara.

Tratamentos precoces (e sem eficácia)

Em meio ao cenário de guerra, ela relata pessoas que adotam tratamentos precoces em casa e acabam correndo riscos. Na terça-feira, recebeu no plantão um casal de idosos levado às pressas para a emergência com Covid-19. “Ele precisou ser intubado de imediato, e ela também estava já avançada, iria precisar de intubação.”

Adiaram a ida a uma emergência para tentar um tratamento alternativo —no caso, a ozonioterapia, técnica sem qualquer eficácia para tratar Covid-19.

“Esses tratamentos alternativos não funcionam, e isso é muito grave. A pessoa acha que vai melhorar com isso, retarda a busca por um médico, por um hospital, e tem paciente que vai a óbito. Eu entendo que há um desespero muito grande. A pessoa pega covid e sabe que está tudo lotado, aí se pergunta: o que eu faço? E aí vem essa ideia, que é um problema, porque não vai resolver a gravidade da doença”, diz.

“A covid causa um hipoxemia silenciosa, que é a saturação baixa [de oxigênio no sangue] e o paciente não sente nada. O perigo está aí: a pessoa tem de ser avaliada logo”, completa.

E quando o médico está internado?

“A gente ainda tem de enfrentar os maus-tratos”, relata ela. No sábado, conta que um grupo de jovens precisava de um ortopedista. Saíram xingando porque não tinha o especialista. “Ele está intubado, com covid. É difícil lidar com isso”, conta.

“As pessoas ficam achando que a situação vai melhorar nesses dias, mas não vai, isso não vai melhorar agora. O vírus faz suas mutações para sobreviver, para se manter vivo, e aprendeu a ser mais transmissível”, afirma.

“Não vai ter celebração de Semana Santa, não vai ter quadrilha de São João. Não tem com ter!”, reconhece.

Borzacov diz que os pacientes sentem medo e angústia. “A face deles, sabendo que precisa ser colocado na máscara de oxigênio, ou intubado, é só de medo.” Mas o médico também tem sentimento. “A gente sente uma dor no coração ao falar, sabe que pode acontecer o pior ali. Alguns entendem, outros desesperam. Acho que não existem palavras para definir, é uma tristeza profunda”, finaliza.