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19 de abril de 2021

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Com informações da Folha de S. Paulo

SÃO PAULO – A ciência econômica é um campo majoritariamente masculino. Da academia às instituições financeiras, mulheres ainda são minoria. No entanto, esse cenário vem mudando, com mulheres ocupando postos de destaque na área, de cargos de prestígio em universidades à diretoria da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A Folha convidou seis economistas para falarem sobre suas experiências na carreira, que problemas enfrentaram e ainda enfrentam, e como avaliam as mudanças ocorridas na área.

Ana Carla Abrão, presidente-executiva da Consultoria Oliver Wyman no Brasil

Entrei na reunião animada. Tinha me juntado à Oliver Wyman e meu primeiro projeto envolvia uma conversa com dois executivos de um fundo de investimentos estrangeiro interessados numa empresa financeira no Brasil.

Mestrado, doutorado e duas décadas de atuação profissional dedicados ao tema me credenciavam como poucos para esse projeto. Entrei na sala lado a lado com meu sócio, vestindo uma saia longa e florida e um colar comprido que fazia barulho quando eu me movimentava. Mas como há muito meu guarda roupa de trabalho não mais se compunha de vestidos retos, invariavelmente pretos ou cinzas e sobriamente enfeitados por um lenço de seda no pescoço, nem me preocupei.

Um dos participantes tinha um sobrenome que denunciava uma ascendência importante e parecia um lorde inglês. Ele estendeu a mão para o meu sócio e eu cumprimentei o outro participante. Na sequência, quando me virei para alternar o cumprimento, o lorde já havia se sentado e começava a reunião com uma pergunta dirigida ao meu sócio. Percebi minha mão perdida no ar.

Sentei-me então à frente dele para me inserir na conversa. Apesar dos meus esforços e das tentativas constrangidas do meu sócio de sinalizar que a chefe, e especialista, ali era eu e não ele, nem sequer um olhar rasteiro eu ganhei.

Ana Carla Abrão, presidente-executiva da Consultoria Oliver Wyman no Brasil (Karime Xavier/Folhapress)

Comentários ignorados, passei a fazer perguntas. Quem ganhou todas respostas não fui eu, mas sim meu sócio. Ao final da reunião, o dono da empresa alvo do investimento entrou na sala e me cumprimentou, desfiando um rosário de elogios e detalhes do meu currículo.

Recebi um olhar e, já de pé me despedindo, ganhei uma mão estendida e um cumprimento envergonhada, e deveras tardio. Saí triste, sentindo no peito a dor pelo tratamento machista. Não era a primeira vez. Também não seria a última.

Respirei fundo acreditando na importância –para mim e para outras tantas mulheres– de seguir adiante e de contar essa história. Não é uma história bonita, mas torná-la pública, assim como a várias outras iguais, é um dos caminhos para construirmos uma sociedade melhor, mais equilibrada e muito mais justa.

Natalie Victal, economista na Garde Asset

Carência de exemplos e representatividade. Esse é um dos principais problemas que uma jovem aspirante a economista enfrenta. Na graduação somos cerca de um terço dos estudantes, e esse número reduz-se a medida que avançamos no grau de escolaridade.

Essa carência gera uma dinâmica que se retroalimenta. Meninas e adolescentes têm dificuldade de sonhar com posições que não se veem representadas. Para aquelas que superam essa barreira, é comum depararem-se com o degrau adicional que é estudar em um ambiente não amigável. Por fim, até a escolha da especialidade é também influenciada pela supracitada dinâmica.

Ao longo da minha carreira tive a sorte de ter convivido com mulheres incríveis que me ajudaram em vários momentos. Professoras, colegas de graduação e mestrado foram fundamentais para a minha formação como economista. Colegas de trabalho foram e são igualmente importantes para meu desenvolvimento como profissional.

Natalie Victal, economista na Garde Asset (Adriano Vizoni/Folhapress)

Nesse sentido, alegra-me testemunhar uma série de iniciativas para “mostrar que Economia também é lugar de mulher”. O Podcast das EconomistAs é um exemplo. Pesquisadoras conversam com colegas de profissão sobre os diferentes campos de pesquisa que compõem a Economia, e sobre os desafios que cada uma delas enfrentou ao longo da carreira. Redes criadas por grupos em redes sociais também se acumulam, e dão origem a ações diversas como jantares e prêmios em homenagem a mulheres vistas por suas pares como exemplos.

Muito pode ser feito, mas também é necessário reconhecer que vemos avanços. A Natalie adolescente não conhecia uma Janet Yellen ou uma Ester Duflo para se espelhar. No Brasil profissionais notáveis ganham espaço no debate econômico. Em particular, de forma inédita vemos duas diretoras no Banco Central do Brasil.

Aumento da diversidade na economia e em outras profissões deveria ser nosso mantra diário. Diversidade de pensamento evidencia problemas que provavelmente não seriam discutidos, enriquece o debate, e contribui parra a proposição de soluções criativas e inovadoras.