EDITORIAL — A ditadura do narcotráfico na Amazônia, por Paula Litaiff

Vulnerável corredor para o tráfico internacional de drogas com uma área na tríplice fronteira (Brasil, Peru e Colômbia), o Amazonas viu se formar – há décadas – a ditadura do narcotráfico com suas próprias leis, economia, sistema político: um “estado paralelo”, que sufoca e mata quem tenta expor essa realidade e se une à luta dos povos originários e tradicionais.

Investigações sigilosas da Polícia Federal (PF) dão conta de que essas organizações são as principais financiadoras de crimes contra a Floresta Amazônica e os povos que habitam nela, com braços no garimpo ilegal, pesca não autorizada, desmatamento e grilagem de terras. As mortes de Bruno da Cunha Araújo Pereira e Dominic Mark Phillips não foram produto de uma briga pessoal, mas de interesses que contrariavam o crime que financia as infrações ambientais.  

A base para essa linha de investigação iniciou muito antes das execuções do indigenista e do jornalista e vem sendo estudada há mais de dez anos. O sistema inicia em países vizinhos, segue a fronteira do Estado, adentra nas comunidades do interior, passa pela capital e segue pelo Brasil e o mundo. Apesar dos esforços das polícias regionais de cada estado (Militar e Civil), só a coalizão de todas as forças de segurança, incluindo as internacionais, pode conter esses grupos.

Antes de serem mortos, no Vale do Javari, município de Atalaia do Norte (AM), Bruno Pereira comprara briga com pessoas que atuam na pesca ilegal de pirarucu, entre eles, há quem responda pelo crime de tráfico de drogas. A pesca, nesse caso, poderia ser usada para o processo de lavagem de dinheiro e legalização de um recurso que vem das drogas, segundo dados obtidos na PF de Brasília (DF).

Não há um prazo legal e definido para a conclusão das investigações sobre a ligação do narcotráfico com os crimes ambientais e contra os povos da Amazônia, até porque não se sabe até onde as artérias desse grupo estão interligadas no corpo deste estado paralelo.

Enquanto não se obtém a resposta sobre a verdadeira origem do financiamento para os crimes ambientais na Região Amazônica e como contê-lo, todos os dias, receamos ver “emergir o monstro da lagoa”, expressão usada na obra de Chico Buarque e Gilberto Gil, “Cálice” ou “Cale-se”, durante a Ditadura Militar (1964-1985), para falar dos corpos de pessoas desaparecidas que emergiam em mares ou rios por lutarem contra o sistema.

O assunto foi tema de capa e especial jornalístico da nova edição da REVISTA CENARIUM do mês de junho de 2022. Acesse aqui para ler o conteúdo completo.

Capa de junho traz as imagens daqueles que deram a vida pela Amazônia (Projeto Gráfico HugoMoura)

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