Em Brasília, organização indígena do Vale do Javari aguarda diálogo com Executivo para falar sobre problemas da Amazônia

Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

BRASÍLIA – “Tem muito as questões ideológicas. Certamente, se fosse evangélico ou indígena ligado ao agronegócio, já teria tido essa propositura”. A declaração dada pelo assessor jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Eliesio Marubo, reflete, para a organização indígena, a postura do governo em reação às recentes mortes do servidor licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai) Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dominic Mark Phillips, o “Dom Phillips”.

O advogado está em Brasília, em encontro com órgãos dos poderes Legislativo e Judiciário, mas contou, nesta quinta-feira, 23, que não teve abertura do Executivo para discutir o cenário de violência e insegurança da região do Vale do Javari, no Amazonas. Também nesta data, servidores da Funai fizeram paralisação nacional pedindo mais segurança e a saída do presidente da fundação, Marcelo Xavier, do cargo.

“A gente não está fechado para o diálogo. Nós temos informações e estamos dispostos a conversar. Não tivemos, de forma alguma [interlocução], nem da Funai, nem de qualquer ministério, nem de ninguém ligado ao Poder Executivo, só do Judiciário e do Legislativo”, explicou.

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O assessor jurídico da Univaja, Eliesio Marubo (Marcela Leiros/CENARIUM)

Na Câmara dos Deputados e no Senado, duas comissões externas foram instaladas para acompanhar as investigações sobre o que ocorreu no Vale do Javari. No domingo, 19, o procurador-geral da República, Augusto Aras, foi ao município de Tabatinga, próximo a Atalaia do Norte, onde se reuniu com membros da Polícia Federal (PF), Ministério Público do Amazonas (MP-AM), Secretaria de Segurança Pública (SSP) e da Univaja.

Criminalização

Marubo criticou ainda a política anti-indígena da Funai. O órgão, segundo ele, tentou criminalizar as ações de Bruno Araújo e Dom Phillips na terra indígena, além de atacar a Equipe de Vigilância da Univaja, criada para mapear e reunir dados sobre as invasões ao território que concentra o maior número de indígenas isolados do mundo.

“A Funai, desde o primeiro momento, tenta criminalizar as ações da EVU [Equipe de Vigilância da Univaja]. Diante da ausência da própria Funai, nós passamos a fazer o monitoramento da terra indígena: levantando informações, qualificando dados técnicos, fotos, filmagens, identificação de pessoas, quando entrou [na terra indígena], quando saiu, quantas toneladas levaram. Nós temos repassado isso para as autoridades. A Funai, nesse primeiro momento, realmente esteve perseguindo os trabalhos da EVU, tentando criminalizar as lideranças”, disse ele.

Uma das reivindicações dos servidores grevistas da Funai é que o presidente, delegado Marcelo Xavier, retire declarações que fez contra o indigenista Bruno Pereira. Xavier disse em nota que o indigenista não tinha autorização para entrar em terras indígenas. Logo após, foi constado que ele havia pedido autorização à Coordenação Regional da Funai e seguiu todos os protocolos do órgão.

“A política pública, na verdade, não existe porque o órgão que deveria atuar fortalecendo e protegendo [os indígenas] é justamente o órgão que trabalha no sentido contrário. Ainda não entendi a lógica desse governo, não entendi a lógica da Funai, ainda”, acrescentou.

“Fico à disposição para falar sobre os problemas da Amazônia e do Vale do Javari”, acrescentou, por fim, Eliesio Marubo.

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