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7 de maio de 2021

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Alessandra Leite – Da Revista Cenarium

MANAUS – A Aldeia da Memória Indígena de Manaus foi inaugurada na noite dessa segunda-feira, 19, com destaque para o resgate da sacralidade do lugar. O evento marcou a comemoração do Dia dos Povos Indígenas, no memorial localizado na praça Dom Pedro II, no Centro da capital amazonense, pretendendo destacar a presença e importância dos povos tradicionais para a formação cultural e social da cidade.

“Em contato com o colonizador, nós fomos obrigados a negar os nossos pajés, os nossos especialistas. Essa terra é a nossa terra, não é somente um cemitério indígena. É uma aldeia, e seus espíritos reinam e se comunicam com a gente”, disse o antropólogo com graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), João Paulo Barreto Tukano.

Com essas palavras e embargo na voz, o indígena da etnia Tukano questionou os séculos de estereótipos e preconceitos que precisam ser desconstruídos. “Em outros momentos, ninguém nos levou a sério, não ouviram os nossos apelos. Nossas diferenças precisam ser levadas a sério. A nossa importância para o povo manauara”, enfatizou o Tukano.

Em outro momento de discurso, o antropólogo chamou a atenção para a questão da ocupação dos espaços. “Não como coitados, mas como produtores de saberes”, disse o Tukano. Ao completar, dialogou sobre o uso do espaço. “Um espaço de fazeres, embora eu não saiba se neste momento eu estou no sonho ou na realidade”, defendeu o antropólogo.

Ritual sagrado fez parte da inauguração da Aldeia, cuja placa está escrita em três idiomas: Nheengatu, Português e Inglês (Alessandra Leite/Revista Cenarium)

Resgate

Para o presidente do Conselho Municipal de Cultura (Concultura), Tenório Telles, o momento de resgate da cultura indígena e do sagrado do espaço dos mortos mesclam o sonho com a realidade. Ele encerrou o discurso enaltecendo a poesia de Thiago de Mello e destacando o fato de Manaus ser uma cidade indígena na sua origem e ancestralidade.

“Estamos vivendo esse momento de construção coletiva, em que o sonho está dentro da realidade. A realidade dentro do sonho. É como o doutor João Paulo falou: não são coitados e sim protagonistas. E só a história dirá sobre a magnitude deste momento. Uma reparação histórica de 350 anos”, ressaltou Telles.

Presidente do Concultura, Tenório Telles destacou a importância do resgate da dignidade da memória dos indígenas enterrados no local (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Para o diretor-presidente da Fundação Municipal de Cultura e Turismo (Manauscult), Alonso Oliveira, a luta pelo resgate da história e da memória da cidade de Manaus só foi possível graças a um esforço conjunto. “Vamos trabalhar para tornar o sonho que estamos vivendo hoje a nossa realidade daqui para a frente, valorizando as nossas origens, as nossas referências primeiras, de onde os nossos primeiros manauaras foram enterrados. Tudo isso só se tornou possível pela luta e disposição dos indígenas”, enfatizou Oliveira.

Placa está escrita nos idiomas Nheengatu, Português e Inglês (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Discursos dos anciãos

Um dos depoimentos exibidos no telão durante a cerimônia inaugural foi o do kokama Carmelindo Moraes, o “Mindu”, 82 anos, que mora em Manaus desde 1984. Nascido em um seringal, no município de São Paulo de Olivença – a 975 quilômetros da capital – filho de indígenas aldeados, Mindu trocou a vida de seringueiro, pescador e coletor, pela de pedreiro na construção civil na capital, onde constituiu uma família com nove filhos e 14 netos.

Ele disse sentir orgulho em saber que no subsolo da praça Dom Pedro II, onde gravou sua fala para a inauguração do memorial, estão sepultadas várias gerações de indígenas, os seus ancestrais. “Esse memorial é muito importante para nossa gente e vai servir, não só para nós, mas para as novas gerações, que vão ter o respeito de toda gente”, avalia o ancião, citando, ainda, que até agora só as autoridades, os grandes comerciantes, são considerados os fundadores desta cidade, e que espera ver isso mudar no futuro.

Marcivana Saterê, dirigente da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime) durante a cerimônia (Cristóvão Nonato/Concultura)

A dirigente da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), Marcivana Saterê-Maué, salienta a importância da criação do memorial e a atuação dos indígenas, como protagonistas, o que considera uma grande conquista. “Nosso grande problema na cidade foi sempre a invisibilidade, a negação de que Manaus tem suas raízes indígenas, que sua criação é a partir da presença dos europeus”, diz a líder, justificando que as falas dos indígenas, em uma inauguração, é um marco histórico, dando base para uma nova narrativa do processo civilizatório a partir de agora.

Movimento Indígena Organizado

O professor e jornalista José Ribamar Bessa Freire foi um dos convidados a falar com o público, por meio de um vídeo projetado em um telão, onde enalteceu com sua fala a importância de um movimento indígena organizado para convencer as autoridades a restaurar a sacralidade do lugar.

Professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Bessa Freire orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da Uerj, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas.

“Hoje, 19 de abril de 2021, mais de 350 anos depois, o movimento indígena organizado consegue convencer as autoridades a restaurar essa sacralidade, num lugar onde pereceram os índios e onde a cidade de Manaus começou. Alguns aliados compreenderam a importância desta aldeia da memória indígena, cuja lembrança permanece agora gravada em bronze em Nheengatu, em Português e em Inglês.

Vídeo do professor e jornalista José Ribamar Bessa Freire foi exibido durante o evento de inauguração da Aldeia Indígena (Arquivo Pessoal)

Segundo o discurso do professor, “esse lugar sagrado” foi profanado pela primeira vez em um sábado, em junho de 1542, por Francisco Orellana e seus soldados espanhóis. “Eles desciam famintos pelo Rio Amazonas quando viram uma povoação com malocas imponentes, amplas e arejadas ao lado do cemitério. Invadiram a aldeia, incendiaram as malocas, mataram muitos moradores, saquearam roças, roubando-lhes os alimentos. Depois foram embora deixando os índios chorando seus mais recentes mortos”, relatou.

Bessa destacou que, durante mais de cem anos, os europeus retornaram muitas vezes, transitando pela área, em viagens exploratórias ou em expedições para escravizar índios, que resistiram. “Numa delas, os portugueses decidiram ficar”, disse.