Emergência climática pressiona empresas a buscar vitrine na Mata Atlântica

Com informações da Folhapress

SÃO PAULO – Na esteira do esforço de relações públicas de empresários que querem se afastar da pecha de negligentes climáticos, um projeto pioneiro de investimento privado na conservação e restauro de florestas nativas da mata atlântica está ganhando sobrevida no Sul do Brasil, no Paraná.

Seu lançamento ocorreu há duas décadas, bem antes de a agenda ambiental entrar na lista de prioridades no mundo dos negócios com a incorporação de termos como ESG (sigla em inglês para designar boas práticas ambientais, sociais e de governança). Em 1999, três multinacionais decidiram aportar US$ 18 milhões (R$ 102 milhões, sem considerar a correção da inflação) em um projeto de manutenção de mata nativa no litoral norte daquele Estado.

Motivadas pelo tratado internacional de redução de gases que causam o efeito estufa, assinado dois anos antes em Kyoto, no Japão, American Electric Power, Chevron e General Motors decidiram compensar, no Brasil, suas emissões de CO2 (dióxido de carbono). Na época, já miravam o incipiente mercado de crédito de carbono.

Sem a participação dos Estados Unidos e com problemas regulatórios no comércio de crédito de carbono entre países, o Protocolo de Kyoto virou letra morta. Só recentemente, graças a acordos firmados na COP26, a conferência do clima, realizada em 2021, na Escócia, a proposta colocada em marcha, no Japão, tem chances de avançar.

Lá atrás, porém, frustradas, as companhias desistiram de incorporar as reservas naturais paranaenses aos seus programas de compensação. No entanto, as multinacionais mantiveram o investimento no parque, gerido pela SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem). O fundo permite, até hoje, a manutenção de 19 mil hectares de Mata Atlântica, distribuídos em três reservas naturais, nos municípios de Guaraqueçaba e Antonina.

Constituídas por meio da compra de fazendas outrora destinadas à criação de búfalos, as reservas Papagaio-de-cara-roxa, Guaricica e das Águas podem estocar, ao longo de 40 anos (tempo inicial estimado para o projeto), cerca de 4 milhões de toneladas de CO2 retiradas da atmosfera por meio da fotossíntese de suas árvores e solo.

O volume equivale aproximadamente à metade do gás carbônico gerado, anualmente, por Curitiba, capital do Estado. O valor remanescente do fundo é suficiente para os próximos cinco anos, aproximadamente, de gestão dos três parques. A expectativa de captação de novos recursos para manutenção e expansão das reservas, porém, ganha impulso com o amadurecimento, nos últimos anos, do mercado de VERs (sigla em inglês para Reduções Voluntárias de Emissões), segundo Clóvis Borges, diretor-executivo da SPVS.

Esse comércio voluntário, criado de forma paralela e em meio aos tropeços do mercado regulado entre países signatários do Tratado de Kyoto, permite que empresas neutralizem suas emissões e negociem entre si sumidouros de carbono excedentes.

“O que eu tenho recebido de contato com empresas é quase uma corrida”, diz Borges. “Há uma perturbação, no mercado, em relação às cobranças (por neutralização de carbono nas cadeias de suprimentos de grandes empresas). O posicionamento ambiental estratégico tem a ver com ganhar ou perder uma concorrência”, afirma.

A incorporadora Altma é um exemplo de empresa que vê oportunidades nesse novo posicionamento. Investiu R$ 300 mil na conservação, por cinco anos, de uma porção de 50 mil metros quadrados da Reserva Natural das Águas, em Antonina.

Para tomar a decisão, a Altma considerou a boa recepção dos moradores do primeiro edifício de apartamentos residenciais de Curitiba com emissões de CO2 totalmente neutralizadas do País. Suficiente para compensar 2.600 toneladas de dióxido de carbono produzidas pela obra, incluindo a extração de matérias-primas e transporte dos materiais, o aporte acelerou as vendas do empreendimento.

Quatro meses após o lançamento, 65% das 32 unidades foram vendidas. “Esperávamos estar com 20% de vendas”, afirma Gabriel Falavina, diretor de desenvolvimento imobiliário da Altma. “Nos surpreendemos com o mercado de clientes que valorizam isso. A gente já consegue identificar um nicho que, no processo de compra do imóvel, não olha só localização, metragem e preço, mas também se o projeto corresponde aos seus valores”, diz Falavina

No caso das reservas da SPVS, novos contratos de compensação são viáveis porque as multinacionais que viabilizaram o projeto abriram mão de reivindicar os créditos gerados pela floresta. Outros cerca de 20 mil hectares de propriedades rurais, no entorno, têm potencial de aquisição para a conversão em áreas de preservação e reflorestamento.

A sobrevivência do ecossistema local, porém, precisa de mais espaço e investimento. Depende da multiplicação de projetos semelhantes na área conhecida como Grande Reserva Mata Atlântica. Com mais de 2 milhões de hectares em uma faixa litorânea de floresta entre os Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, a Grande Reserva é o último remanescente contínuo do bioma.

Esse é o tamanho do potencial para a geração de negócios que envolvem a neutralização e a emissão de créditos de carbono e promoção de diversificados negócios e serviços ambientais nesse trecho de mata atlântica, afirma Borges.

Movimentos semelhantes em outras partes do País são observados por ativistas como uma oportunidade para que o bioma seja vitrine para a atuação do setor corporativo no combate ao aquecimento global. Nessa direção, a pressão gerada pela emergência climática sobre empresas de diversos portes e segmentos começa a se refletir em números.

Entre 2019 e 2021, o programa voluntário de reflorestamento da SOS Mata Atlântica avançou 79% em áreas de plantio de mudas, que passaram de 119 para 213 hectares por ano. Ainda sem fazer frente ao ímpeto desmatador, o projeto também serve de termômetro para medir a temperatura dos investimentos privados para conservação do bioma, cujos fragmentos se estendem por 17 Estados que concentram 70% do PIB (Produto Interno Bruto) do País.

Com os holofotes do mundo corporativo direcionados à questão do clima, a floresta, que está no quintal das maiores metrópoles brasileiras, possui potencial para projetos ambientais valiosos para o empresariado porque está ao alcance dos olhos de clientes, fornecedores e funcionários, segundo Luís Fernando Guedes Pinto, diretor de conhecimento da SOS Mata Atlântica.

“É natural que as empresas queiram neutralizar suas emissões mais perto dos seus negócios, dos seus clientes. Isso realmente está acontecendo em uma velocidade maior”, afirma Guedes. O engajamento empresarial impulsionado pela pauta climática mostra força até mesmo fora dos segmentos mais visados pela opinião pública, como o agronegócio e grandes conglomerados industriais.

Após uma campanha de doação de mudas destinadas ao reflorestamento, para funcionários, no primeiro semestre, posteriormente estendida a clientes, a empresa do ramo de coberturas de lona e aço Tópico Galpões verificou sinais de fortalecimento na relação com o seu público.

Entre alguns clientes, o brinde verde virou vantagem competitiva. Duas grandes empresas dos setores de mineração e industrial, que têm metas de neutralização, quiseram conhecer o projeto para uma pesquisa de mercado sobre práticas sustentáveis nas suas respectivas cadeias produtivas.

“Para essas empresas, foi uma surpresa ver uma iniciativa que colabora com seus programas de neutralização vir de baixo para cima, partindo de uma empresa de médio porte como a nossa”, diz Arthur Lavieri, presidente da Tópico.

Os primeiros cinco meses do projeto resultaram no plantio de 2.360 brotos de espécies nativas da Mata Atlântica, que reflorestaram mais de 14 mil metros quadrados de área – dois campos de futebol – no entorno de reservatórios do Sistema Cantareira, na Grande São Paulo.

Para 2022, a empresa planeja a neutralização das suas emissões através do plantio de mais 4.000 mudas certificadas, produção de energia solar por meio de películas fotovoltaicas instaladas nas lonas que revestem galpões que ela fabrica e aluga e pela contratação de transportadores que deem preferência à utilização de biocombustíveis.

Apesar de animadores, os projetos voluntários de conservação são parte de uma caminhada em que, para cada passo à frente, dão-se dois para trás. O Atlas da SOS Mata Atlântica, que compila dados da fundação e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, apontou a perda de 13 mil hectares de florestas nativas do bioma, entre 2019 e 2020. São 130 quilômetros quadrados de desflorestamento que, para comparação, equivalem a mais da metade (60%) da área de Recife (PE).

No período reportado no relatório, o desmatamento dobrou em 10 dos 17 Estados abrangidos pelo bioma.
“A Mata Atlântica tem potencial para grandes projetos de reflorestamento. Somente para cumprir o Código Florestal, seria necessário restaurar 5 milhões de hectares. Isso é maior do que o Estado do Rio de Janeiro”, diz Guedes, da SOS Mata Atlântica.

“Isso é apenas para recuperar florestas nas beiras de rios, que fixam carbono, mas não geram uma economia de produtos florestais. Podemos ter mais 10 milhões de hectares para gerar negócios. O potencial é enorme, mas os projetos ainda são pequenos”.

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