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10 de maio de 2021

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Com informações do O Globo

RIO DE JANEIRO – Empresários pressionam o governo brasileiro a adotar medidas mais ambiciosas na Cúpula de Líderes sobre o Clima, convocada pelo presidente americano, Joe Biden, e que começa no dia 22. Porém, diante da falta de diálogo com o governo, a iniciativa privada começa a adotar medidas e acordos paralelos para “contenção de danos”, que poderiam minimizar efeitos negativos da atuação ambiental das autoridades federais. Um isolamento do país na questão climática tende a ter impactos ainda mais severos para as empresas brasileiras.

“O setor empresarial está fazendo sua parte, não apenas se posicionando, mas apresentando propostas práticas, com metas e passo claros. Enviamos uma carta aos ministérios da Economia, Meio Ambiente, Agricultura e Relações Exteriores mostrando que, se o Brasil adotar um compromisso de emissão neutra até 2050, terá ganhos econômicos e reputacionais”, afirmou Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

O documento, assinado por empresas como Bayer, Braskem, Bradesco, BRF, Ipiranga, Itaú, JBS, Lojas Renner, Marfrig, Natura, Shell, Siemens, Suzano e Votorantim, entre outras, afirma que, com o compromisso da neutralidade, “até US$ 17 bilhões possam ser gerados no país a partir de negócios com base na natureza até 2030” e que “o PIB também pode ter um crescimento vertiginoso com a implantação de práticas de baixo carbono, atingindo um ganho total acumulado de R$ 2,8 trilhões até 2030 em relação à trajetória atual”, afirma.

A ideia da entidade é criar uma meta adicional a da redução de 37% na emissão de gases causadores do efeito climático até 2025 e de 41% até 2030, celebrada pelo país em 2015, no Acordo de Paris, e confirmada em dezembro de 2020 pelo governo federal. Entretanto, foi apenas uma correspondência às autoridades, sem reuniões, conversas ou interações que pudessem, de fato, balizar a atuação do governo na cúpula.

A pressão vem em meio a notícias negativas na área ambiental, como a troca do superintendente da Polícia Federal no Amazonas – que tinha uma postura mais independente, por um nome mais alinhado ao governo – e a divulgação, ontem, de que o desmatamento na Amazônia registrou o pior mês de março dos últimos dez anos. Segundo levantamento do Imazon, a área devastada triplicou em relação ao registrado no mesmo mês de 2020: foram 810 km² desmatados da Amazônia Legal, área equivalente à cidade de Goiânia.

Desconfiança

O posicionamento prévio do governo – que tem dito que o Brasil responde por apenas 3% das emissões do mundo e que é preciso receber recursos externos antes de reduzir a devastação ambiental – gera desconfiança de que o país sairá pior da cúpula de Biden.

Esta postura tem feito líderes empresariais buscarem alternativas. Grossi, por exemplo, afirma que, na gestão de Jair Bolsonaro, se intensificou a interlocução direta de governos estrangeiros com governadores da Amazônia. A iniciativa privada vai na mesma linha e já traça cenários para “conter danos” caso o Brasil amplie seu isolamento na cúpula:

“Independentemente do resultado da cúpula do clima para o Brasil, é possível avançar em outras agendas. Um exemplo é o alinhamento dos critérios de concessão do crédito rural a políticas e princípios de sustentabilidade. O crédito tem potencial para induzir mudanças em escala no campo”, afirmou Marcello Brito, representante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e presidente do conselho diretor da Associação Brasileira do Agronegócio.

Ele cita como outro exemplo a produção de madeira tropical sustentável por meio da silvicultura de espécies nativas, afirmando que a coalizão acabou de lançar um programa de pesquisa e desenvolvimento no Espírito Santo para transformar o estado em um polo de referência. Porém, ele admite que a iniciativa privada não pode fazer tudo:

“O combate à ilegalidade, que é o principal fator que irá reverter a imagem do Brasil no mundo, depende em sua maioria do Poder Executivo federal, especialmente do Ministério do Meio Ambiente”, disse Brito, lembrando que a coalizão lançou, na semana passada, um manifesto pedindo uma “postura ambiciosa” do governo, que foi assinado por mais de 280 entidades empresariais e companhias.

Diálogo com sociedade civil

A sociedade civil está mais estruturada. Nos EUA, 300 presidentes de grandes companhias, que juntas faturam por ano mais de US$ 3 trilhões – ou quase dois anos do PIB brasileiro – pediram ao governo americano metas mais ambiciosas de redução na emissão de gases. Porém, se nos EUA os empresários foram ouvidos pelo governo, o mesmo não vem ocorrendo em Brasília:

“Para o diálogo ocorrer, é preciso que as duas partes queiram”, afirmou Roberto Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú. “Para não ficar apenas nas “notas de repúdio”, há uma clara política de contenção de danos, que tende a ser intensificada se o Brasil sair-se mal na cúpula. Se o governo brasileiro não assume o desmatamento ilegal zero, empresas criam a rastreabilidade da soja e do gado”, exemplifica.

Sérgio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas, afirma que a iniciativa independe do resultado da cúpula e até mesmo do posicionamento das empresas em relação ao governo:

“A fase das manifestações e cartas acabou. Não vai mais haver o biombo fácil de se esconder atrás do governo. A cúpula vai trazer desafios como nunca foram vistos na área ambiental para empresas brasileiras de todos os setores”.

Davi Bomtempo, gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, diz que o grande objetivo é o governo conseguir acabar com o desmatamento ilegal. Ele lembra que o setor empresarial brasileiro responde por só 6% das emissões do país. Mesmo assim, a entidade lançará, até a cúpula, um mapa com o que os setores que respondem por 90% das emissões industriais brasileiras estão fazendo ambientalmente.

Por sua vez, o vice-presidente Hamilton Mourão disse ontem que o Brasil “não tem que ser mendigo”, ao comentar o pedido de ajuda financeira do governo aos EUA para combater o desmatamento na Amazônia e cumprir as metas ambientais. Segundo Mourão, o Brasil tem responsabilidades, mas ele reafirmou a linha defendida por membros do governo de que o país representa só 3% das emissões no mundo e que, “desses 3%, 40% é o desmatamento, ou seja, 1,2% do que se emite no mundo é responsabilidade do desmatamento nosso aqui”. Segundo ele, “tem que fazer nossa parte, dentro do Acordo de Paris”.