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25 de novembro de 2021
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Com Informações do Portal Geledés

SÃO PAULO – Ignoradas, deturpadas e menosprezadas. É assim que as histórias dos povos negros costumam ser apagadas em registros biográficos, obras de arte e até mesmo livros de história do Brasil, um País que ironicamente tem o maior número de pessoas negras fora do continente africano.

Lançado na última semana de março pela editora Companhia da Letras, o livro “Enciclopédia Negra” reúne mais de 550 biografias de nomes que marcaram o Brasil, incluindo os de revolucionários, intelectuais, artistas, atletas, líderes religiosos e outras personalidades negras esquecidas pela historiografia em grande parte branca colonial ainda praticada no país.

Na capa do livro, escrito por Flávio Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Schwarcz, está estampado o retrato de uma das diversas personagens da enciclopédia, Afra Joaquina Vieira Muniz, que viveu em Salvador, na Bahia, no século 19, e representa bem a complexidade do regime escravagista da época.

Muniz, que teve sua liberdade comprada pelo marido e ex-senhor, Sabino Francisco, de origem africana como ela, herdou uma série de bens valiosos quando viúva, incluindo a propriedade sobre as escravas recém-libertas Severina e Maria do Carmo, que embora tenham recorrido à Justiça para sair das amarras de Muniz, foram obrigadas a servir a ela até a sua morte.

Nomes e narrativas

Com olhar e postura imponentes, um belo turbante e joias de ouro valiosas, a africana retratada por Mônica Ventura é só uma das centenas de obras visuais inspiradas no livro. Pinturas, desenhos, fotografias, colagens, tecidos, pedras e até restos de uma boneca serviram como base para os trabalhos visuais.

Lauriano, artista plástico que ficou responsável pelo catálogo de imagens, afirma que a principal meta da enciclopédia é “preencher lacunas da história brasileira, mostrar a multiplicidade de personalidades negras e levar dignidade a figuras desvalorizadas”.

Rainha Martha, uma das líderes do Quilombo de Iguaçu do século 19 (Reprodução/Mariana Rodrigues)

“Fizemos de tudo para sair do eixo ‘São Paulo e Rio de Janeiro’”, diz Flávio Gomes. “No livro, tem gente do Brasil inteiro.” Até mesmo nomes mais conhecidos, como o de Zumbi dos Palmares, aparecem sob novas narrativas.

A imagem de Zumbi — muito atribuída a um quadro de Antônio Parreiras, artista branco que viveu entre os séculos 19 e 20— foi completamente reinterpretada por Arjan Martins. O artista retratou o líder quilombola com cores negras e não detalhou as feições de seu rosto porque, segundo ele, a ideia da existência de Zumbi enquanto liderança política é muito mais potente do que qualquer retrato.

Retratando

Já no quadro de Andressa Monique, o primeiro palhaço negro brasileiro, Benjamin de Oliveira, é minuciosamente detalhado. Nele, há uma expressão simpática, boca e olhos grandes, nariz largo, e roupas elegantes. Oliveira foi também ator, compositor, cantor, instrumentista e diretor de espetáculos. De acordo com a enciclopédia, pode ter sido também o primeiro a levar os lundus para o teatro.

Muitos artistas, assim como Monique, desconheciam — até então — as pessoas que foram convidadas a retratar. É o caso de Mariana Rodrigues, que nunca tinha ouvido falar da rainha Marta, uma das líderes dos quilombos de Iguaçu, no Recôncavo da Guanabara, no final do século 19.

Ela conta que sonhou com Marta logo depois de ler sua história e que a rainha se apresentou como “quem chega pedindo licença”. No retrato, Marta aparece usando um turbante vermelho e segurando uma galinha de Angola —em referência “ao elo existente entre os mundos terreno e espiritual” na cultura iorubá, segundo a artista.

Divisão

Dividido em ordem alfabética, o livro traz biografias que datam desde o século 16 até o 21. Há histórias como as de Aída dos Santos, a primeira brasileira a disputar uma final olímpica, Trajano, o líder da extinta República do Cunani, e de Pretextato dos Passos e Silva, professor e um dos pioneiros da alfabetização negra no país.

Além do livro, os autores de “Enciclopédia Negra” criaram um projeto em parceria com o Instituto Ibirapitanga e planejam uma série de ações que revisitam o passado brasileiro apagado ao longo dos séculos.

Pôsteres com imagens e textos adaptados do livro serão também encaminhados a escolas públicas de norte a sul do País, conta Schwarcz. As outras ações do projeto, que têm parcerias com coletivos negros, serão divulgadas em breve, promete a historiadora.