7 de março de 2021

Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – O esquema de fura-filas na vacinação contra a Covid-19 organizado pela Prefeitura de Manaus voltou a ser destaque em rede nacional nesse domingo, 31. O programa Fantástico, da Rede Globo, exibiu detalhes da investigação do Ministério Público do Amazonas (MP-AM) que apura denúncias de pessoas vacinadas que não estavam entre as prioridades e afirma que a prefeitura contratou médicos em desconformidade com a lei.

De acordo com o MP-AM, a prefeitura achou uma maneira irregular de contratar dez médicos às vésperas do início da vacinação e não teve controle de quem deveria ser imunizado.

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A reportagem do Fantástico reforçou que as gêmeas Gabrielle e Isabelle Lins, médicas recém-formadas e outros oito jovens médicos estão sendo investigados pelo MP por suspeita de furar a fila da vacinação. As gêmeas foram denunciadas após comemorarem nas redes sociais que haviam recebido o imunizante. As irmãs prestaram depoimento na semana passada ao Ministério Público no esquema que também apura a contratação irregular delas e dos outros médicos.

David Almeida e as gêmeas Gabrielle e Isabelle Lins, médicas recém-formadas no momento da vacinação (Reprodução)

Segundo as gêmeas, no dia 11 de janeiro ambas participaram de uma reunião na Secretaria Municipal de Saúde (Semsa). O motivo: o município precisava de médicos para trabalhar na Unidade Básica de Saúde (UBS) Nilton Lins, voltada, exclusivamente, para atendimento à Covid-19. Segundo Gabrielle Lins, na reunião estava o assessor da Semsa, Djalma Pinheiro Pessoa Coelho, e ficou combinado que elas seriam contratadas pela empresa de Djalma. Ele receberia o valor da Prefeitura de Manaus e repassaria aos profissionais.

As irmãs afirmam que aceitaram o convite e, mesmo sem ter nenhum documento assinado, começaram a trabalhar na unidade de saúde junto com os outros médicos. Depois disso, o assessor da Semsa teria mandado uma mensagem de texto falando de uma mudança: a contratação não seria mais pela empresa dele. “Garanto que ficará melhor do que combinamos. Tanto na segurança em receber quanto no valor recebido”, afirmou o assessor em mensagem de texto apresentada no Fantástico.

Um dia depois da nomeação, nos dias 18 e 19 de janeiro, a vacina chegou à UBS onde as médicas trabalhavam. Isabelle Lins disse, em depoimento, que estava de folga e foi para a unidade só pra receber o imunizante. As irmãs, que não têm nenhuma comorbidade e não trabalham em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), afirmam que não havia uma lista de quem deveria ser vacinado. “Eu não sabia que existia um grupo de risco dentro do grupo de prioridade. Se soubesse, sem dúvida nenhuma, jamais teria desrespeitado ou passado por cima disso”, afirmou Gabrielle.

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O que diz o Ministério Público?

Documentos do MP mostram que os dez investigados foram nomeados como “Gerente de Projeto” e não com a função que realmente exercem. O cargo é comissionado, sem necessidade de concurso público e com salário de R$ 9 mil.

A investigação do Ministério Público indica que a Prefeitura de Manaus achou uma maneira irregular de contratar os profissionais de saúde. “Essa informação de estar contratando médico, mas registrados com cargos diferentes configura uma falsidade ideológica, você está incluindo em documentos uma informação que não é verdade”, destaca o Ministério Público.

A investigação cita ainda outra possível “fura-filas”: a secretária de Saúde de Manaus, Shádia Fraxe. A secretária tomou a vacina na UBS Santos Dumont, na Zona Centro-Oeste da cidade. Os promotores dizem que das 13 doses que a UBS recebeu para vacinar os profissionais de saúde que trabalham na unidade, pelo menos nove foram aplicadas em pessoas que não fazem parte do grupo de prioridade. O MP afirma também que a “secretária não estava na lista de prioridades e tirou a oportunidade de um médico”.

A investigação mostra também que “os dois primeiros dias de vacinação foram de relatos de denúncias constantes dessas situações de fura-filas. As autoridades locais acharam por bem fazer como acharam melhor, sem qualquer nível de controle para um insumo que veio já muito limitado”.

Pedido de prisão

O MPAM pediu, na semana passada, a prisão do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), e da secretária de Saúde do município, Shádia Fraxe, como medida cautelar da investigação sobre irregularidades na aplicação da vacina contra a Covid-19. A solicitação enviada ao Tribunal de Justiça do Amazonas também pedia o afastamento de Almeida e Shádia de seus cargos na prefeitura.

Na reportagem do Fantástico, o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), afirmou que acredita que está fazendo o certo e que a Justiça vai se pronunciar. “As pessoas podem olhar online toda a vacinação que está sendo feita na cidade de Manaus e estamos dando total transparência a isso”, afirmou o prefeito à TV Globo.