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25 de julho de 2021
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Marcela Leiros – Da Cenarium

MANAUS – A Floresta Amazônica funciona como um organismo com inter-relações e estas são afetadas pelo desmatamento. Com a perda da cobertura florestal, os ecossistemas se desequilibram e ficam, ainda mais, sujeitos a um ciclo de imprevisibilidade, como chuvas mais intensas ou períodos de seca mais longos.

Os principais pontos desestabilizados são o ciclo hidrológico e a formação dos “rios voadores” na região. A expressão foi criada para designar a enorme quantidade de água liberada pela Floresta Amazônica em forma de vapor d’água para a atmosfera, que é transportada por correntes de ar. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), uma única árvore de 10 metros de altura emite, em média, 300 litros de água por dia.

Funcionando como uma “bomba d’água”, a floresta capta água dos solos e emite para a atmosfera em forma de vapor. Parte desse volume de água se transforma em chuvas que caem na própria floresta e outra parte é transportada pela atmosfera.

Após formados, os “rios voadores” se direcionam para o oeste até a Cordilheira dos Andes. Lá, diante do “paredão” de mais de 4 mil metros, a umidade se transforma em chuva, que é a responsável pela formação de nascentes de grandes rios da Amazônia. Outra parte dessa umidade é transportada de “volta” para o Brasil e abastece regiões brasileiras como Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

É nesse ponto que o desmatamento da Floresta afeta a previsibilidade do ciclo hidrológico. “Com o desmatamento, esses ‘rios voadores’ estão perdendo sua periodicidade e diminuindo a quantidade de água”, explica o biólogo e líder do projeto de queimadas e desmatamento do Greenpeace Brasil na campanha de Amazônia, Rômulo Batista.

“Você tem todo esse ciclo hidrológico, que antes ocorria de uma maneira mais previsível e torna-se cada vez mais imprevisível. Isso é fruto das mudanças climáticas, que são diretamente alimentadas pelo desmatamento, seguido pelas queimadas, padrão que a gente vê na Amazônia”, pontuou ainda o biólogo.

De acordo com especialista, tanto o excesso quanto a falta de chuva impactam em diversos setores da economia (Reprodução/Catarine Hak)

Redução das chuvas

O impacto do desmatamento é desenhado mais claramente na função da floresta como participante do processo de manutenção do regime climático. Em um período de 20 anos, entre 1999 e 2019, a cada aumento de 10% no desmatamento, a quantidade de chuva anual diminui, aproximadamente, 49,2 milímetros por ano, segundo o artigo “Desmatamento reduz chuvas e receita agrícola na Amazônia brasileira”, na tradução em português, publicado em maio deste ano por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no periódico científico Nature Communications.

“Se nós imaginarmos que a floresta participa de um processo de manutenção de um regime climático relativamente estável na região e você retira essa floresta, você afeta imediatamente esse regime climático que se reflete em grande parte, segundo os estudos, na redução de chuvas não só na Amazônia, mas em outras partes do País”, lembrou o doutor em Ecologia e cientista sênior do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) Paulo Moutinho.

O cientista explica que as chuvas, tanto o excesso quanto a falta, impactam em diversos setores da economia, desde a geração de energia até o lucro gerado na agricultura e pecuária brasileira.

“A gente deve ter problema de geração de energia por não ter precipitação suficiente para abastecer os reservatórios. O segundo ponto é direto na agricultura. Hoje, ela depende 95% da chuva, porque não é irrigada. Então, se você tem a floresta participando desse equilíbrio, e com o desmatamento você perturba isso, você começa a trazer imprevisibilidade à produção com prejuízos econômicos previstos”, explicou Moutinho.