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28 de novembro de 2021
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Cassandra Castro – Da Cenarium

BRASÍLIA – O estímulo ao uso do chamado “Kit Covid” por pacientes acometidos por Covid-19 contribuiu, de forma direta e indireta, para o grande número de mortes no Brasil durante a pandemia. É o que apontam especialistas em epidemias, infecções e vírus ouvidos pela REVISTA CENARIUM. Para eles, muitos morreram porque tiveram seus quadros de saúde agravados por uma intoxicação, pela administração equivocada dos medicamentos e pela demora em procurar uma unidade de saúde, ao acreditarem na falsa esperança de cura pelos remédios.

Na avaliação do epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz na Amazônia (Fiocruz/Amazônia) Jesem Orellana o uso de medicamentos sem eficácia comprovada no tratamento da Covid-19 teve influências diretas e indiretas sobre o segundo pico da pandemia em Manaus, no início deste ano, que resultou em um grande número de mortes. Para Orellana, de forma direta, as mortes podem ter ocorrido por uma intoxicação por hidroxicloroquina, cloroquina e ivermectina, dentre outras que podem causar efeitos colaterais graves, como prejudicar a visão, o fígado, os rins e, com isso, levar à morte. Mas o especialista destaca que são casos excepcionais, diretamente associados ao uso equivocado das medicações.

“Alguns estudos mostram que em algumas regiões do País com maior adesão [ao “Kit Covid”], há uma quantidade maior de internações e mortes por Covid-19”, Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz Amazônia.

Segundo Orellana, as causas indiretas são as que mais importam. Elas teriam acontecido, provavelmente, em função das pessoas terem tomado as drogas sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e acabarem abandonando o uso de máscara e as precauções para evitar a disseminação e infecção pelo novo coronavírus. “Inclusive, tem alguns estudos mostrando que em algumas regiões do País com maior adesão [ao “Kit Covid”], em termos de apoio político ao presidente Jair Bolsonaro, que sempre defendeu o uso desses medicamentos, há uma quantidade maior de internações e mortes por Covid-19”, destaca o especialista.

O epidemiologista afirma, no entanto, que não se deve atribuir culpa à população por este tipo de comportamento, atitude e decisão. Orellana acredita que é preciso refletir sobre de onde partem as noções que acabam contaminando o imaginário social com informações “inverídicas, criminosas”. “Nós continuamos culpando a população e não os verdadeiros responsáveis, como o presidente Jair Bolsonaro e toda essa horda de seguidores que ele tem, anticientíficos, de extrema direita, que acabam disseminando esse tipo de narrativas improcedentes”, finalizou.

Epidemiologista da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana (Acervo Pessoal)

Aplicação e equivocada

O médico infectologista Edimilson Migowski, doutor em Doenças Infecciosas, pesquisador e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atribui o que houve em Manaus a doses de medicamentos ministradas de forma equivocada. “Eu quero crer que tenha sido por desinformação ou por acidente, não algo proposital para queimar de vez a hidroxicloroquina. Isso tem que ser apurado. Na opinião dele, as mortes ocorridas em Manaus foram resultado de doses exageradas, tóxicas, o que acarretou maior letalidade entre os pacientes.

Migowski afirma que acredita na efetividade do uso de alguns medicamentos, mas dentro do conceito genuíno de tratamento imediato ou precoce. O médico dá exemplo da Nitazoxanida, também conhecida como Annita. Segundo ele, os mecanismos de ação deste remédio indicam evidências clínicas e científicas de sua eficácia no tratamento imediato da Covid-19.

O médico infectologista Julival Ribeiro afirma que o “Kit Covid” não salva vidas (Acervo Pessoal)

Agravamento

A médica infectologista Eliana Bicudo, mestra e doutora em Medicina Tropical pela Universidade de Brasília (UnB) avalia que incentivar o uso do “Kit Covid” no Brasil acabou agravando a pandemia no País. “Eu tenho casos de pacientes que foram a óbito porque estavam em casa atrasando o procedimento adequado, o uso de oxigênio, de corticoide em dose adequada, porque o ‘Dr.’ insistiu, e o paciente também, em se manter usando hidroxicloroquina, ivermectina, zinco, vitamina D e outros. O “Kit Covid” em pacientes que insistiram em se manter usando esse esquema, atrasou a procura em hospitais pelo tratamento adequado”, explicou a médica.
Para Eliana, houve ainda em Manaus a convergência de muitos fatores que acabaram permitindo, inclusive, a mutação do vírus para a variante P1 que dominou o Brasil.

“Não salva vidas”

O médico infectologista Julival Ribeiro, doutor em Medicina Tropical pela Universidade de Brasília e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirma que o “Kit Covid” não salva vidas. Ele ressalta que remédios como a cloroquina ou a ivermectina, que são utilizados no tratamento de determinadas doenças, não tiveram a eficácia comprovada nos estudos feitos pela comunidade científica. “Nós estamos no século 21 e a medicina tem que ser baseada em evidências científicas. Você tem que fazer todos os ensaios clínicos, testes e experimentos. Infelizmente, desde o início da pandemia, nós vemos que existe muito negacionismo em relação ao que ela representa, mais de 500 mil óbitos, milhares de casos que acometeram a população brasileira”, enfatiza.

O especialista vê com preocupação a influência de autoridades do País sobre pessoas leigas, numa recomendação totalmente sem base científica do uso do “Kit Covid”. Ele conta que sempre responde a uma pergunta: “Por que os Estados Unidos, Índia, Reino Unido, Alemanha, França, não foram atrás dessa falácia dizendo que o “Kit Covid” prevenia e salvava essas pessoas?” Ribeiro afirma que esses países tiveram o cuidado de observar pacientes, realizar estudos e só recomendar procedimentos e medicações que apresentaram evidências científicas de oferecerem melhorias reais aos pacientes. Um exemplo foram as pesquisas que indicavam o uso de máscaras de oxigênio, o procedimento de intubação, a comprovação do benefício de administrar corticoide em alguns pacientes, medidas pautadas em evidências científicas.

Julival Ribeiro comentou o drama vivido em Manaus com a escassez de oxigênio nos hospitais. “Teriam que fazer testes, ter leito para as pessoas, ter providenciado oxigênio”. O infectologista lamenta o negacionismo do ano passado e as consequências dele: “Enquanto estavam oferecendo o “Kit Covid”, não tínhamos testes suficientes e, sobretudo, o que atrasou demais para se tratar Covid-19, que era a vacina. Era para ter começado no fim de 2020. Faltou articulação do governo federal muito ampla com todos os Estados e municípios”.

“Tenho casos de pacientes que foram a óbito porque estavam em casa atrasando o procedimento adequado, porque o ‘Dr.’ insistiu, e o paciente também, em se manter usando hidroxicloroquina, ivermectina e outros”, Eliana Bicudo, médica infectologista.

Médica infectologista, Eliana Bicudo (Acervo Pessoal)