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24 de novembro de 2021
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Alessandra Leite – Da Revista Cenarium

MANAUS – O garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami (TIY) fez surgir uma nova “Serra Pelada” – nome do maior garimpo a céu aberto do mundo, cuja atividade se deu há 40 anos, no sudeste do Estado do Pará, com a invasão de 40 mil garimpeiros. Essa constatação é fruto dos sobrevoos realizados entre os dias 7 e 9 de abril de 2021 pelo Sistema de Monitoramento do Garimpo Ilegal na TI Yanomami, cujos resultados culminaram no Relatório do Primeiro Trimestre deste ano.

De acordo com as informações levantadas por interpretações de imagens de satélites, assim como aconteceu na corrida pelo ouro na década de 1980, a crise econômica e o preço do metal incitam os garimpeiros à atividade, hoje, mais uma vez, responsável pela contaminação dos rios por mercúrio, violência contra comunidades indígenas e, mais recentemente, a disseminação da Covid-19 no território do povo originário.

Para o coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), professor doutor José Ribamar Bessa Freire, a política indigenista do governo do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (Sem Partido), é genocida, repetindo a tragédia do período colonial, quando ocorreu, na avaliação dos demógrafos da Escola de Berkeley, “a maior catástrofe demográfica da história da humanidade”.

“A Funai (Fundação Nacional do Índio), que tem em seus quadros muitos funcionários competentes, tornou-se um caso de polícia. Seu presidente, Marcelo Xavier, delegado da Polícia Federal, foi escolhido por Bolsonaro dentro do mesmo princípio formulado pelo ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. É simples assim, um manda e o outro obedece”, criticou Bessa Freire.

Segundo Bessa, que também é pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Memória, da UniRio, o diretor-presidente da Funai, ligado à bancada ruralista, “entende tanto da questão indígena quanto Pazuello de Saúde”.

“Ele obedece com prazer às ordens do chefe e defende a legalização do garimpo em território indígena, contrariando o que está estabelecido na Constituição de 1988. Embora a Constituição ainda não tenha sido mudada, essa postura da Funai, no governo Bolsonaro, estimula a invasão ilegal das terras indígenas pelo garimpo, trazendo as consequências nefastas que todos conhecemos”, diz Bessa, em tom de indignação.

Na avaliação do especialista, essa Funai, considerada por ele “anti-indigenista”, “está com os dias contados”. Bessa recorda, como paralelo, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) que, nos idos de 1967, “estava mergulhado em corrupção, má gestão dos recursos e política de extermínio”.

“O SPI foi extinto em plena ditadura militar devido ao clamor da opinião pública nacional e internacional, horrorizada com tantos crimes. Não tenho dúvidas de que os atuais responsáveis por essa matança serão julgados e punidos. O escândalo está tomando proporções similares ao que ocorreu com o SPI”, salientou.

“A Funai (Fundação Nacional do Índio), que tem em seus quadros muitos funcionários competentes, tornou-se um caso de polícia”, José Ribamar Bessa Freire, coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Uerj.

José Ribamar Bessa Freire, coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Uerj (Acervo Pessoal)

Destruição dos leitos dos rios

Na avaliação do geólogo, pesquisador e professor doutor na Universidade Federal de Roraima (UFRR) Vladimir de Souza, a presença constante de garimpos tem sido fonte de preocupação com a devastação do meio ambiente, sobretudo, dos leitos dos rios.

Uma das fontes ouvidas para a produção do relatório trimestral, Souza alerta para a destruição dos mananciais de água, a poluição por mercúrio e todas as outras consequências trazidas pelas atividades ilegais. “O mercúrio é um metal pesado e extremamente tóxico, que entra na cadeia alimentar dos peixes e vem para o nosso prato, é uma morte silenciosa”, afirma o professor, em um trecho do documento.