Especialista aponta alternativa para minimizar impactos da quarentena em crianças autistas

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – O isolamento social em decorrência da pandemia do novo Coronavírus alterou a rotina e tem causado transtornos em famílias brasileiras. Segundo a psicóloga infantil Fabiana Lima, especialista em Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC) e em análise do Comportamento Aplicada ao autismo, a forma como a quarentena foi iniciada teve um impacto maior em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

A psicóloga explica que o TEA é um transtorno que afeta, principalmente, o comportamento, as habilidades sociais, a fala e a comunicação não-verbal da criança, que acaba sendo quem mais sofre com a mudança nas atividades diárias.

“Existem alguns níveis na literatura que classificam o comprometimento das crianças ou dos adultos que apresentam o TEA, são: severo, moderado e leve. Em cada indivíduo ele se apresenta de forma diferente”, explica.

Fabiana Lima, psicóloga (Arquivo Pessoal/Revista Cenarium)

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5. ª edição ou DSM-5, no nível leve (grau 1), a criança necessita de pouco suporte, ela pode ter dificuldade para se comunicar, mas não a limita para interações com outras pessoas. No nível moderado (grau 2), elas já necessitam de suporte e tem menor intensidade com relação ao grau 3, o nível severo. Neste último grau, as crianças necessitam de maior suporte, apoio.

As características das crianças que apresentam grau 3 em TEA vão de grave dificuldade nas habilidades de comunicação verbal e não verbal, ou seja, não conseguem se comunicar sem auxílio.

A mãe da Maria Clara, de 5 anos, que tem leve grau de autismo, explicou que a filha foi quem mais sentiu a mudança na rotina, mesmo exercendo atividades diárias, como brincadeiras e trabalhos escolares.

“Ela teve quebra da rotina e a quarentena para ela não foi muito boa. Ela estava fazendo tratamento tanto com psicólogo quanto com fonoaudiólogo e tendo a terapia ocupacional junto a prática de esportes e, a mudança na rotina afetou muito ela, que começou a ter movimentos muito repetitivos, a ficar irritada com qualquer coisa, dificuldade para dormir, apesar dela ter um autismo leve (grau 1), ficar em isolamento para ela é bem complicado”, explicou a mãe Jaqueline Maciel.

Maria Clara, 5 anos. (Arquivo Pessoal/Revista Cenarium)

Segundo ela, que mora no quarto andar de um apartamento na Zona Leste de Manaus, enfatiza que tem tido dificuldade de explicar a filha que não pode descer do prédio para brincar, devido ao risco de contaminação da pandemia do novo Coronavírus.

Uma das formas que a mãe encontrou para ocupar a mente da criança, foi fazer as mesmas atividades que Maria Clara faz durante suas aulas de Jiu-jitsu. Mas devido às medidas impostas pelo condomínio em relação ao barulho, Jaqueline afirma que é necessário reduzir a forma dos afazeres com a filha.

“Dentro do apartamento é bem complicado ela gastar energia, pois o barulho vai para baixo, para o lado, então não tem como ela gastar energia. o que eu faço é colocar fit-dance para ela dançar, pular e brincar, mas mesmo assim ela dorme muito tarde. Tento brincar de todas as formas e procurando para lidar da melhor forma possível”, finaliza.

Mudanças drásticas na rotina

Para Cristiani Ferreira Coelho, mãe da Izabella Luiza, diagnosticada aos 2 anos de idade com grau 3 de TEA, as mudanças com o isolamento social impactaram ainda mais, pois a filha estava tinha uma rotina com atividades adaptadas na escola.

“Hoje ela está com 13 anos, e as mudanças foram bem mais complicadas do que pensávamos, pois os autistas precisam de uma rotina consistente, precisam de acompanhamento médico, ser estimulados diariamente, fazer terapias, estudar, dentre outros estímulos. Hoje ela está com treze anos e estudando em uma escola especializada em ensino de autistas, já que ela não se adaptou a escola regular da rede pública, pois ninguém estava preparado para recebê-la como aluna por ter o nível 03 (grave) do TEA”, disse Cristiani à REVISTA CENARIUM.

Com a mudança repentina na rotina diária de Izabella, conta a mãe, os dias foram bem mais difíceis. Segundo Cristiani, a filha demorou para entender que não iria para a escola, onde ela tem fonoaudióloga, ginástica, natação, judô e a parte pedagógica e que, ainda, ela chegou a repetir o estímulo da rotina de ir estuder.

“Izabella estuda em uma escola especializada para crianças e adolescentes com TEA, a Sensu Speciale, onde lá ela teve grandes avanços e veio falar sua primeira palavra, “banheiro” , e onde desenvolveu todas as suas novas habilidades, por assim dizer, e que agora estava sendo interrompida de forma repentina o que para um autista isso é o caos. E como foi interrompido, o que fazer?”, questiona ela, que enfatizou o trabalho da escola que tem sido importante com o isolamento social.

Izabella, de 13 anos, ao lado da mãe Cristiani (Arquivo pessoal/Revista Cenarium)

“A equipe da escola, foi e está sendo extremamente importante pra ela, pois eles enviam atividades adaptadas, e outros recursos como, pranchas e pastas para ela fazer em casa mantendo, em parte, a rotina dela dentro da escola e de certa forma, minimizando ao máximo, a quebra da rotina diária dela que na maior parte do tempo é na escola”, pontou a mãe de Izabella.

Em meio às adaptações dos deveres do dia-a-dia, Cristiani acredita que os pais de crianças com TEA devem continuar estimulando as rotinas diárias tanto na escola como em casa, fazendo as atividades enviadas pelas unidades educarionais e, também, incluir as crianças nas tarefas rotineiras em casa, como guardar as garrafas na geladeira, colocar seu prato na pia e até mesmo fazer um lanche que ela gosta.

“Também fazemos muitas brincadeiras, aproveitando a irmã mais velha que, também, passou a ser algo diferente para ela já que as duas só se viam pela parte da noite quando as duas estavam em casa. É importante a interação de toda a família nesse momento, pois até mesmo nesse isolamento social que estamos vivendo é possível fazer algo em prol do avanço social do autista dentro da sua própria casa”, detalhou.

“Mas o mais importante é não exigir demais, e tornar o ambiente mais calmo possível, onde procuro fazer com que Izabella seja independente e tenha autonomia para pequenas rotinas diárias, e sinta o nosso amor e carinho que proporcionamos a ela”, finalizou Cristiani.

Redução de atividades

Para a psicóloga Fabiana Lima, a rotina precisa ir desacelerando ao final do dia para que os filhos acostumem com os horários. Segundo ela, as famílias têm se fadigado com o acúmulo de atividades durante a quarentena, principalmente, quando a criança estuda em casa de forma online.

“As famílias, em geral, tiveram quebra na rotina e acredito que a saúde mental de todo mundo, não somente das crianças, tem sido afetada. Com relação aos casos de autismo, são crianças muito direcionadas com a rotina, eles funcionam muito bem numa rotina, e essa mudança que foi tomada por todo mundo de uma maneira muito abrupta, acredito que tenha tido um maior impacto a elas e, principalmente, para os pais”, detalhou

Organização das tarefas

O controle emocional em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode ser trabalhado com previsibilidade, segundo orienta a psicóloga Fabiana Lima. Ou seja, quando a criança sabe ou tem noção o que ela vai fazer ao longo do dia, por isso, o estabelecimento de uma rotina é essencial.

‘Fazer o que é possível, não necessariamente criar uma rotina muito rígida, mas criar um aspecto de previsibilidade. Para eles é importante isso, por exemplo, dizer ‘olha, agora a gente vai arrumar a cama, fazer almoço com a mamãe’; informar a eles que você vai incluí-los nas atividades do dia-a-dia. A minha orientação é que os pais tentem incluir a criança da maneira que achem necessário”, detalha.

A professora Carlana Alfaia conta um pouco de sua experiência em ministrar aulas à crianças autistas. Segundo ela, os próprios alunos lembram das atividades já estabelecidas.

“Se eu esquecer de alguma atividade que eu já havia informado a eles que iríamos fazer, eles gravam e me lembram, e quando não fazemos, eles ficam tristes, pois estão preparados para fazer e são bons nisso”, diz.

Alfaia descreve, ainda, que é necessário dar mais atenção às crianças com TEA durante as aulas, e explicar os assuntos das aulas com mais paciência para que o aluno entenda.

“As vezes eles se irritam, se zangam, então temos que dar carinho, tentar acalmar a criança e ter muita paciência para que eles consigam fazer a tarefa e aprender. É amor à profissão, vamos devagar até que eles consigam entender o assunto”, finaliza.

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