4 de março de 2021

Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – Após um terremoto que atingiu a Guiana e assustou moradores de várias partes da região Norte nesse domingo, 31, a REVISTA CENARIUM entrevistou especialistas para avaliar as possibilidades da ocorrência de desastres naturais ligados aos tremores de terra na Amazônia.

Segundo a geóloga Vivian Marjorie, países próximos de placas tectônicas estão mais propícios a sentirem o sismo. “Os abalos sísmicos ou tremores de terra geralmente ocorrem quando as rochas estão sob grande pressão, vindos do interior do planeta. Essa pressão exerce uma força nas rochas (placas tectônicas) e procura alguma maneira de se exaurir”, disse.

O tremor de terra foi sentido por moradores de diversos bairros de Manaus. Há relatos de que alguns prédios chegaram a ser evacuados em diversas zonas após o tremor. Devido à preocupação relacionada com a estrutura dos prédios, o geólogo Elias Santos Junior, que tem 20 anos de atuação na área, afirmou que “esses reflexos são sentidos principalmente nos andares mais altos de prédios. Porém, o risco de comprometimento da estrutura é baixíssimo”.

Imagens do terremoto de magnitude 5,7 com epicentro na Guiana. (Reprodução/Internet)

Ainda segundo Elias Junior, abalos sísmicos são registrados todos os dias no Brasil e os de maior magnitude são mais raros. “Abalos sísmicos no Brasil ocorrem todos os dias, porém são de magnitude baixa. A grande maioria deles é registrada apenas por sismógrafos e pode ser natural ou artificial. Por estarmos situados no centro de uma placa tectônica estável – Sul-americana – sismos de maior magnitude são raríssimos”, afirmou.

Amazônia em risco

Um estudo publicado na revista Earthquake Spectra feito pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com a Universidade de Córdoba, na Argentina, e Johns Hopkins University, em Baltimore, aponta que a cidade de Manaus pode sofrer com terremotos no futuro por conta da região estar em uma área onde existem falhas neotectônicas e comportar atividades de exploração de gás, que induzem eventos sísmicos. O estudo foi divulgado pelo jornal O Globo, no último fim de semana.

Mapa das áreas de exploração de Agência Nacional de Petróleo (ANP) no Amazonas (Reprodução/ANP)

Segundo um dos pesquisadores da Unicamp, Luiz Vieira, os terremotos na área podem ocorrer pela penetração da água utilizada na extração no gás entre as falhas neotectônicas, gerando os abalos. “A exploração de gás ocorre pela injeção de água em alta pressão nas rochas onde esses gases estão depositados. Depois desse processo, a água altamente contaminada é colocada em poços extremamente profundos e é daí que elas conseguem penetrar nas falhas”, explica Vieira.

Comparação entre as áreas estimadas de percepção dos abalos de 1690 e de 1955, esse último considerado o maior terremoto registrado no Brasil (31 de janeiro de 1955, no Mato Grosso, com magnitude 6.2) (Fonte UnB/Reprodução)

Terremoto em Manaus

Moradores de Boa Vista, Manaus e da cidade de Georgetown, capital da Guiana, sentiram um terremoto de magnitude 5,7 com epicentro na Guiana. O tremor ocorreu por volta das 15h (horário de Manaus). Também houve relatos de abalo na Venezuela e no Suriname.

De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), que monitora atividades sísmicas por todo o mundo, o epicentro – o ponto da superfície terrestre onde o tremor de terra é sentido primeiro -, foi registrado cerca de 40 quilômetros da fronteira da Guiana com Roraima, a uma profundidade de 9,7 km. Essa distância é considerada relativamente rasa e, portanto, com maior potencial de ser percebido pelos moradores da região afetada.