6 de março de 2021

Mencius Melo – Da Revista Cenarium

MANAUS – As mortes causadas na pandemia e o sofrimento de familiares de pacientes internados com Covid-19 parecem não sensibilizar parte dos influenciadores digitais. Em entrevista à REVISTA CENARIUM, especialistas analisam as razões que motivam homens e mulheres a propagar o “vírus” de desinformação, do vazio existencial e da falta de empatia.

Para o doutor em comunicação pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Allan Rodrigues, as redes sociais romperam a “via única” existente entre os produtores de conteúdo, mídias e os consumidores. “Para muitos, a existência passa a compreender também a presença nas redes sociais. O real e o virtual são parte da experiência de existir neste mundo”, observou.

Segundo Rodrigues, a vaidade move grande parte das pessoas a compartilhar conteúdo, além do desejo de escapar do anonimato. “Saciar o desejo quase incontrolável por atenção e relevância. A vaidade é o grande motor dessa produção, onde a informação perde a principal função de comunicar algo útil e passa apenas a servir ao ego”, constatou.

Allan Rodrigues observa que existe uma grande diferença entre informação e notícia. Isso sim, um problema a ser superado nas redes sociais (Reprodução/Divulgação)

Para distinguir a ideia entre gerar conteúdo e notícia, o cientista aponta as diferenças. “A notícia produzida por um profissional do jornalismo tem a característica de dar sentido às informações. Aqueles que divulgam informações nas redes sociais não possuem a expertise e o compromisso com a objetividade e com a apuração. Além de não serem fiéis ao interesse público”, concluiu o professor.

Conteúdo e valor

Para Larissa Veloso, jornalista, professora e consultora na Bravery Digital Marketing, gerar conteúdo deve ser algo propositivo. “Dependendo da pessoa e da audiência, esse conteúdo pode ter caráter informativo, educativo, comercial e humorístico ou de entretenimento”, destacou.

Especialista em marketing digital, Larissa Veloso é hábil em orientar aqueles e aquelas que querem tirar proveito positivo das redes sociais (Reprodução/Divulgação)

“Hoje é muito comum a pessoa, na busca desenfreada por curtidas e comentários, acabar ultrapassando os limites e tentar desempenhar um papel de jornalista, sem ter qualquer preparo para isso. Isso é muito perigoso tanto para o produtor de conteúdo quanto para a população que o acompanha”, asseverou Veloso.

A especialista explica também o papel desempenhado pelos influencers. “Todos temos aquele amigo ou amiga que nos influencia a algo. Os melhores são aqueles que fazem isso de forma natural, a partir de suas ações. Isso porque nós, humanos, somos mais convencidos pelo comportamento do que pelo discurso”, sintetizou Larissa.

Relatos digitais

A ex-rainha do peladão e atual cunhã-poranga do boi Garantido, Isabelle Nogueira, comenta sobre o que é trabalhar nas redes. “Cria-se uma vida de glamour, temos que ser perfeitos, mas isso não é verdade. As pessoas não sabem mas somos muito cobrados e existem muitos ‘juízes’ virtuais. Qualquer vacilo você é ‘cancelado”, explicou.

Mesmo com carimbos no “passaporte real”, Isabelle não confunde os papéis. “Eu levo muito em consideração a realidade, em não julgar, em não ser desnecessária. Se a minha informação não vai contribuir, eu nem me atrevo a falar. Apesar de que dá engajamento, mas não é o engajamento que eu quero”, desabafou.

Questionada se pelo fato de ter tantos seguidores, ela se sentiria autorizada a reportar notícias, Isabelle declarou. “Para isso tem os jornalistas e a imprensa profissional, cada um tem que fazer sua tarefa. Claro que se algo me fere como cidadã, eu uso minha voz. Antes disso, avalio para não fazer no calor da emoção”, confessou.

Por fim, Isabelle dá uma dica. “Nós influenciadores não temos dia e nem hora para trabalhar. Mas o segredo é não se deixar dominar. As redes ocupam muito tempo e consomem muita energia. A pergunta é: estou sendo útil e necessário ou estou apenas sendo egocêntrico e atrapalhando?”, questionou Isabelle.

Exageros

Recentemente, cenas de inusitadas chocaram internautas por conta do desprendimento emocional e o desapego moral de uma ‘digital influencer’ conhecida como Sanndy Brasil. Eleita como rainha de um reality show, a modelo tentou aplicar um “expediente diplomático” para entrar no hospital onde pacientes morriam com asfixia, por falta de oxigênio.

Sandy começou a narrar a chegada ao hospital para conferir se o que está sendo reportado nos jornais do Brasil e do mundo era real. A música animada no interior do carro não deixa dúvida: a influencer estava em clima de festa. O vídeo foi um dos mais acessados.