27 de fevereiro de 2021

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Em entrevista à REVISTA CENARIUM nesta segunda-feira, 8, João Paulo Lima Barreto ou João Paulo Tukano, como é conhecido pela etnia, contou detalhes sobre a defesa do doutorado em Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A apresentação ocorreu na quinta-feira, 4, de forma online por conta da pandemia da Covid-19.

“Sempre foi meu sonho, essa vontade de lutar, batalhar e promover discussões. Nossa luta é mostrar que temos um modelo diferente de conhecimento, sobre a mesma realidade, que não é pior e nem melhor, mas é outro modelo, outra epistemologia. Para isso, estamos trazendo os conceitos indígenas para o debate nas instituições”, disse.

Segundo João, os indígenas foram colocados como aprendizes do “homem branco”, envoltos a um imaginário de desconhecimento. “O que poucas pessoas sabem é que muitas coisas foram desenvolvidas com base no nosso conhecimento. A chave de leitura dos nossos hábitos sempre esteve ligada à religião, como espírito, sagrado, fé, reza, benzimentos e magia”, salientou.

Defesa

A bancada do doutorado do indígena foi composta pelos professores da Ufam Gilton Mendes dos Santos, Carlos Machado Dias Júnior e Deise Lucy Oliveira Montardo, além do professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Geraldo Luciano Andrello, e a professora da Universidad Nacional Mayor San Marcos (Lima/Peru), Luisa Elvira Belaund.

João Paulo Tukano junto à bancada de docentes durante defesa do doutorado (Reprodução)

“Espero quebrar paradigmas. O nosso conhecimento é diferente da ciência. A religião é um modelo de conhecimento ocidental [escrita]. E nós indígenas temos o nosso próprio modelo de conhecimento [oralidade], o qual chamam de não ciência. No entanto, temos outra lógica, de que existem vários modelos de conhecimento para falar sobre a mesma realidade”, reforçou João.

Natural da comunidade São Domingos, no Alto Rio Negro (a cerca de mil quilômetros de Manaus), João Paulo é da etnia Yepamahsã (Tukano) e tem formação em Filosofia e mestrado em Antropologia. Segundo ele, o trabalho de doutorado é fruto de nove anos de pesquisas na pós-graduação e defende um conceito adotado pelos indígenas diferente ao modelo de concepção de conhecimento científico.

Corpo e mente

Segundo João Paulo, o corpo é o ponto de partida, reflexão do pensamento e a filosofia “rio-negrina” que, de acordo ele, vê o corpo humano de forma dinâmica, em transformação. O indígena liga ainda os fenômenos naturais aos ataques dos seres “waimahsã”, dos animais e alimentos ao desequilíbrio do corpo.

“Trago a forma com que os indígenas do Alto Rio Negro entendem o corpo e o porquê é importante entendermos o corpo para construirmos uma vida de qualidade e de equilíbrio. Na medida que eu consigo entender o que eu sou, posso construir uma relação com o meu entorno”, diz João Paulo.