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17 de maio de 2021

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Matheus Pereira – Da Revista Cenarium

MANAUS – Um estudo realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ), na Suíça, e da Universidade de Southampton, na Inglaterra, apontou que há cerca de 450 represas com potencial para dizimar um terço dos peixes de rio do mundo. Ainda de acordo com o estudo, só na bacia amazônica, a construção de hidrelétricas tem afetado populações ribeirinhas e a vida das cerca de 2,3 mil espécies de peixes encontradas na região.

O mestre em Biologia de Água Doce e Pesca Interior, Guillermo Estupiñán, explica que não só os peixes, mas todo sistema natural dos rios são impactados pelas hidrelétricas desde suas construções. “O próprio rio sofre impactos na sua conectividade, no seu fluxo, no seu curso natural de inundação nas secas e nas enchentes. Tem ainda um impacto na floresta, impactos na sedimentação, que está relacionada à vida dos rios, à formação de praias, ao transporte de sedimento e material orgânico rio abaixo. São impactos mais físicos, mas que trazem impactos à vida”, declarou.

Mortes na construção e durante a operação

O especialista explica ainda que a maioria das hidrelétricas são construídas em áreas de corredeira, onde tem desnível e onde muitos peixes que ocorrem somente nestas áreas têm seus habitats bem definidos. Estupiñán aponta como funciona a construção dessas barragens. “Para se ter uma ideia, tem área que precisa ser toda dinamitada para construir uma barragem. Então se detona realmente todo ambiente do peixe”, afirmou.

Guillermo afirma que outro impacto que também é evidente da operação das hidrelétricas é a mortandade de peixes, provocada pela liberação de água das barragens, quando os peixes passam pelas turbinas. “Essa água muitas vezes é cheia de ácido sulfúrico, com pouco oxigênio e muitos peixes acabam morrendo nesses eventos. Tem ainda uma mortandade alta, mas ainda pouco conhecida, que é a de peixes mortos ou feridos ao passarem pelas áreas das turbinas, que também acaba acontecendo”, explicou o especialista em recursos pesqueiros.

Peixes sofrem os impactos desde a construção de hidrelétricas até sua operação (Reprodução)

Morte de espécies sedentárias e migratórias

Um dos peixes mais ameaçados hoje é o acari-zebra, na região da volta grande do Xingu, onde a hidrelétrica de Belo Monte foi construída. Estupiñán explica como as espécies sedentárias sofrem com a mudança do ciclo hidrológico. “Isso muda a química da água, oxigênio e abundância de matéria orgânica. Enfim, é um caos para vida de um peixe. Grandes mortandades são identificadas logo no início da operação das hidrelétricas. E algumas dessas espécies não conseguem sequer voltar a se reinstalar nessas áreas”.

O especialista conta que mais recentemente o impacto para as espécies migradoras tem sido alvo de estudos e explica como algumas dessas espécies estão começando a sumir de rios em que hidrelétricas são instaladas. “Alguns peixes que conseguem ultrapassar as barreiras físicas, por exemplo, a matrinxã, são peixes que conseguem subir barreiras, migrar, subir rios para poder manter seu ciclo de reprodução e alimentação, mas uma barragem bloqueia totalmente esse ciclo. Outro exemplo atual é a dourada que com a construção da hidrelétrica de Santo Antônio e Girau, no rio Madeira, não sobe mais o rio e já está se evidenciando que ela está sumindo rio acima das hidrelétricas”, destacou.