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19 de novembro de 2021
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Com informações da Folhapress

SÃO PAULO (SP) – O que é racismo ambiental? Amanda Costa, 24, só precisa olhar em volta para ter essa resposta. “Ele me atravessa todos os dias. O caminhão de lixo que não faz a coleta, os lixões a céu aberto e as praças sujas. Bairros periféricos e favelados são sempre invisibilizados e excluídos.”

A realidade da jovem, que é negra e mora em Brasilândia (zona norte de São Paulo), ilustra um fenômeno que também pode ser resumido assim: trata-se de discriminar minorias direcionando-as a terrenos ambientalmente vulneráveis, como a favela sob risco de deslizamentos em temporais ou a comunidade ribeirinha banhada por um rio poluído com dejetos tóxicos.

O conceito é caro à Coalizão de Evangélicos pelo Clima, grupo que alia preceitos bíblicos à agenda sustentável. Outra forma de descrever essa modalidade de racismo, na voz do pastor Josias Vieira: “É quando eu envio para lugares inóspitos, sem infraestrutura, aquelas pessoas que são indesejáveis no centro urbano e majoritariamente são negras, pobres, indígenas”.

O líder da Igreja Batista de Coqueiral tem um exemplo local. “No meio do caminho tinha um rio chamado Tejipió”, ele diz sobre o curso d’água que serpenteia a região metropolitana de Recife. “Ele nasce limpo e, quando entra em [zona de] complexo industrial, começa a ser morto.”

O Tejipió transborda com frequência. “Pessoas que não têm onde construir [sua moradia] fazem uma laje sobre o rio e sobem uma casa”, diz. “Quando começa a temporada de chuva, elas perdem tudo. A prefeitura costuma dizer que foi chuva atípica, mas são décadas acontecendo isso.”

Com a juventude da igreja, o pastor ajudou a coletar 14 mil assinaturas num abaixo-assinado pedindo providências. “Jovem evangélico adora uma gincana, pode ter picolé no fim que ele vai com sangue”, brinca.

Saldo

Pressionadas, as autoridades fizeram um trabalho de dragagem do Tejipió “que fez com que por dois anos consecutivos não tivesse cheia”, segundo o afroindígena ecoteólogo, como ele também se apresenta. Já em sua gênese, a concepção de favela remete ao racismo ambiental, lembra Vieira. Ele lembra do morro da Providência, que já se chamou morro da Favela, fonte do nome que passou a designar esse tipo de conjunto de habitações populares.

“O termo nasce a partir do momento em que soldados negros não têm onde morar e são empurrados para os morros”, afirma. Esta que foi a primeira favela brasileira acabou sendo o destino, em 1897, de ex-combatentes que lutaram na guerra de Canudos. O governo descumpriu uma promessa de construir alojamentos no Rio de Janeiro para eles.

Cnidoscolus quercifolius é o nome de uma planta que, na cultura popular, chama-se favela. É um arbusto com folhas que provocam urticária, achado no sertão baiano descrito por Euclides da Cunha em “Os Sertões”.

“As comunidades periféricas têm origem na Lei Áurea, que enganosamente se comemora como a abolição da escravatura, mas que deixou à míngua povos negros”, diz o pastor. “Empurrados para fora das fazendas, foi-lhes negado o direito à saúde, à moradia, à educação. Muitos queriam voltar pra senzala pra continuar comendo o lixo que comiam porque não tinham nem lixo pra comer.”

Essa mesma parcela da população até hoje, em boa parte, concentra-se em regiões periféricas mais expostas aos efeitos deletérios de um meio ambiente castigado. Vieira cita a Cidade de Deus, região empobrecida no Rio que ficou internacionalmente conhecida pelo filme homônimo de Fernando Meirelles.

Quem anda por esse pedaço da zona oeste carioca não demora a entender na prática o que é racismo ambiental. Na Rua Edgard Werneck, uma das principais vias de acesso à comunidade, o lixo se acumula no chão e nas caçambas, enquanto um vira-lata caramelo procura alimento em meio aos rejeitos.

Mais adiante, na estrada Marechal Miguel Salazar, um sofá e um armário são alguns dos objetos que ocupam a calçada e dificultam a mobilidade de quem passa por ali.

Já em outra rua da Cidade de Deus, os bueiros não dão conta de escoar a água, que se acumula em poças no chão. Molhar o pé é quase inevitável. Esse cenário vai ao encontro do que diz Amanda Costa: em contextos urbanos, favelas e periferias são alvos frequentes do segregação racial pelo viés ambiental.

Foi o que a motivou a criar o Perifa Sustentável em 2019. A iniciativa busca influenciar tomadores de decisão e usar as redes sociais para difundir a sustentabilidade.

No Instagram, ela embala postagens sobre sua rotina ativista com uma identidade visual pop. Como na publicação sobre uma “campanha baphônica” para o Dia Internacional da Tartaruga Marinha, ou no vídeo em que a fiel da Igreja Bola de Neve conta que reserva um tempinho para “conversar com Jesus, meu guia de vida”, e a mãe a dedura por não lavar a louça após sua janta vegetariana.

Além de integrar o coletivo de evangélicos ambientalistas, Costa foi eleita pela revista Forbes como um dos 90 brasileiros com até 30 anos que se destacaram em 2020. É também jovem embaixadora da Organização das Nações Unidas (ONU) para o tema, que pautou a eleição americana no ano passado.

O democrata Joe Biden propôs um plano de US$ 2 trilhões para reduzir as emissões de carbono e, com uma economia verde, apagar o racismo ambiental.

A origem da expressão é atribuída a Benjamin Chavis, ativista americano que, ainda na adolescência, foi assistente do reverendo Martin Luther King.

Chavis contou a história assim ao Washington Post: em 1982, ele liderava um protesto contra a decisão do governo da Carolina do Norte de despejar 40 mil m³ de solo contaminado com resíduos químicos cancerígenos (cerca de 40 piscinas olímpicas) numa comunidade de fazendeiros negros.

Já visado por autoridades, ele foi preso na estrada, após ser parado por uma viatura. O policial alegou que Chavis dirigia muito devagar. Atrás das grades, disse ser vítima de racismo ambiental.

Quatro décadas depois, Biden, recém-empossado presidente dos EUA, comprometeu-se a investir em energia limpa para minorias sob ameaça ambiental. Também nomeou, para postos na área, um indígena e um negro.