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26 de janeiro de 2022
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Da Revista Cenarium*

MANAUS – A paixão pela Amazônia e o talento artístico nato são chave de vida nova para Oriney Bezerra Lira, de 34 anos. Nos dez meses em que esteve preso no Centro de Detenção Provisória Masculino 2 (CDPM2), em Manaus, no Amazonas, o pintor teve seu dom reconhecido ao pintar mais de 50 quadros e paredes do presídio com temas amazônicos e agora expõe parte de suas obras no anexo da sede da Defensoria Pública do Estado (DPE-AM), na Avenida André Araújo, 679, Zona Centro-Sul de Manaus.

As visitas serão agendadas por meio de um link disponível no site da DPE-AM (Divulgação/ DPE-AM)

O lançamento da exposição ocorrido nessa quarta-feira, 30, foi destinado apenas a membros da Defensoria e convidados, como medida de segurança para reduzir os riscos de contágio pelo novo Coronavírus. A exposição abre ao público nesta quinta-feira, 1º, e vai até 9 de outubro, das 8h às 14h. As visitas serão agendadas por meio de um link disponível em banner na página principal no site da Defensoria.

“Sou do interior e meu pai sempre cuidou de sítios. Ele me levava para pescar. Sempre via garças, vitória-régia e os animais e plantas. Sou apaixonado pela Amazônia, pelas árvores, pelas flores. Hoje quero mostrar mais ainda o grito da nossa Amazônia, das plantas e dos animais, porque é uma cultura que está morrendo. A gente está vendo tudo isso sumir. E, talvez, com essas telas, as pessoas consigam enxergar que estão ficando sem tudo isso”, explica Oriney.

Também por medida de segurança, o número de visitantes será limitado a dez pessoas por hora. A exposição deve seguir, posteriormente, para outros órgãos públicos, em cronograma ainda a ser definido. As obras expostas não estão à venda. Mas Oriney está aberto a pedidos de encomenda.

Todos os quadros de Oriney têm como tema a Amazônia, seus animais e plantas, além dos caboclos ribeirinhos, uma paixão que o pintor tem desde menino, quando, ainda morando em Maraã (a 632 quilômetros de Manaus). No município, ele pescava com o pai no rio Japurá.

A paixão pelo tema é tanta, que o pintor adotou o nome artístico de Oriney da Amazônia, com o qual assina todas as obras (Divulgação/ DPE-AM)

Vida

Fazem duas semanas que Oriney deixou o CDPM2, onde estava preso por ameaças que fez à mulher em momentos de desentendimento. No presídio, o pintor, que ganhava a vida com pintura de paredes, sentiu ainda mais necessidade de se expressar pela pintura e começou a fazer sua arte com o que encontrava: material de artesanato dos cursos disponíveis no presídio, pedaços de compensado e até lençóis que não seriam mais usados.

Alguns amigos foram peça-chave no envolvimento de Oriney à arte (Divulgação/ DPE-AM)

Oriney estudou somente até a 6ª série do Ensino Fundamental e nunca fez um curso de artes. Vivia de bicos pintando paredes e propagandas em muros, mas sempre sonhando em ser artista de profissão. Tudo o que aprendeu sobre pintura de quadros e esculturas, diz, foi com amigos artistas.

“Me apaixonei pela arte dele e ele foi me dando uns toques. E assim fui me aprimorando. Nunca tive como comprar material. Tudo o que achava na rua e que desse para pintar em cima, eu levava para casa. E todo artista que eu encontrava virava meu amigo”, conta.

A pedido da Defensoria, Oriney foi posto em liberdade por meio de um Habeas Corpus concedido pela Justiça. Estava preso há dez meses sem julgamento. Além desse aspecto, pesou o fato de que a pena máxima para ameaça é de seis meses. Assim como muitos no sistema prisional do Brasil, Oriney já havia cumprido a pena sem nem ter sido condenado. Agora está em liberdade, mas segue monitorado por tornozeleira eletrônica.

Apoio

O coordenador do Núcleo de Atendimento Prisional (NAP) da DPE-AM, defensor público Theo Eduardo Costa, diz que ficou impressionado ao descobrir o talento e as obras de Oriney dentro do presídio, tanto que foi seu primeiro cliente ao comprar um dos quadros pintados na prisão. “É muito importante dar visibilidade às vozes e rostos que estão encerrados nas celas das prisões, pois a Defensoria Pública, como órgão de execução penal, deve fomentar políticas públicas de inclusão social como mecanismo de ressocialização e diminuição da reincidência”, afirma o defensor.

Defensor Theo Costa até comprou uma das obras de arte do ex-interno do CDPM 2 (Divulgação/ DPE-AM)

Para Oriney, a exposição é a esperança de entrada em um futuro melhor, onde ele poderá se manter e sustentar sua família com os frutos do trabalho que verdadeiramente ama, a arte.

(*) Com informações da assessoria