2 de março de 2021

Mencius Melo – Da Revista Cenarium

MANAUS – A crise provocada pela pandemia no norte do Brasil ganhou proporções internacionais. Nove ex-ministros de Estado, todos da pasta do Meio Ambiente dos últimos presidentes do Brasil, assinaram carta conjunta direcionada ao presidente da França, Emmanuel Macron, à primeira-ministra da Alemanha, Angêla Merkel, e à primeira-ministra da Noruega Erna Solberg.  

No texto assinado por José Goldemberg, Rubens Ricupero, Gustavo Krause, Izabella Teixeira, Sarney Filho, Carlos Carvalho, Marina Silva, Carlos Minc e Edson Duarte, um apelo e um pedido de socorro. “A Amazônia brasileira está sendo devastada neste momento por dupla calamidade pública, ambiental e de saúde, que necessita da urgente solidariedade e colaboração de países amigos interessados de forma genuína e desinteressada na solução dos problemas amazônicos”, disse a carta.

Em outro trecho, mais denúncias sobre a situação na região. “No ano de 2020, a região sofreu aumento sem precedentes do desmatamento e das queimadas florestais, que atingiram cifras não registradas há uma década. Incêndios criminosos, em larga escala, durante o período de estiagem, agravaram enormemente os problemas respiratórios causados pela pandemia da Covid-19, contribuindo para a elevada taxa de óbitos na Amazônia”, criticaram os ex-ministros.

A crise em Manaus

“Infelizmente, as primeiras semanas do ano de 2021 vêm coincidindo com um colapso do sistema hospitalar que se iniciou por Manaus, capital do Estado do Amazonas, já se propaga rapidamente pelo interior deste Estado de mais de um milhão de km² e ameaça os demais Estados amazônicos. Uma característica particularmente cruel do colapso atual reside na ausência de oxigênio, o que vem provocando a morte atroz por asfixia de centenas de pessoas, às vezes aniquilando famílias inteiras”, lamentam no documento. 

A carta chama a atenção para o contingente populacional da região amazônica. “Com mais de 30 milhões de habitantes, a Amazônia brasileira sofre de problemas que a tornam especialmente vulnerável à pandemia em razão do isolamento, da pobreza, da estrutura precária de saúde e da dificuldade de acesso. Essa situação se vê agravada pelo padrão de dispersão da população que vive às margens dos grandes rios e dos povos indígenas que habitam áreas ainda mais distantes”, descreveu.

“Grande parte dessas populações que estão sendo dizimadas pela pandemia são justamente as detentoras de valiosos conhecimentos tradicionais associados aos recursos naturais. Esses grupos são também os principais guardiões da floresta, da qual necessitam para sua própria sobrevivência e cujo modo de vida e valores culturais os levam a conviver harmoniosamente com a biodiversidade”, contextualizou o documento.

Por fim o apelo

Ao final, os signatários pedem apoio e atenção para àqueles que estão sofrendo diretamente os efeitos da pandemia na Amazônia brasileira. “É por esse motivo que nos permitimos dirigir um veemente e emocionado apelo a Vossa Excelência, em favor de imediata ajuda a essas populações, sob a forma de doação de materiais, equipamentos e medicamentos vitais para assegurar a sobrevivência deles”, solicitaram os ex-ministros.

Na sequência, listaram os bens necessários para a população. “Cilindros de oxigênio, concentrador de oxigênio, usinas de produção de oxigênio medicinal, equipamentos para a instalação de unidades de terapia intensiva, macas, oxímetros, bilevel positive airway pressure (bipap), compressor que infla as vias aéreas superiores (vpap) e remédios usados no tratamento hospital da Covid-19”, elencaram.

“Solicitamos igualmente que V. Exa possa se fazer intermediária, junto a outros governos de países desenvolvidos, deste urgente pedido de socorro que lhes dirigem os necessitados habitantes das nossas florestas, tão severamente assolados pela pandemia. Um gesto efetivo de solidariedade nesta hora dramática jamais será esquecido pelos brasileiros de todas as regiões e se constituirá em mais uma demonstração do compromisso de sua nação com a proteção da floresta amazônica e com o bem-estar de seus habitantes”, finalizou o texto.