‘Exemplo de indigenismo’, dizem funcionários da Funai em vigília por Bruno Araújo e Dom Phillips

Marcela Leiros — Da Revista Cenarium

BRASÍLIA — Servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) realizaram nessa quarta-feira, 15, mais um dia de vigília pelo indigenista e servidor licenciado do órgão Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, em frente à sede do órgão, em Brasília (DF). Mas, desta vez, estavam de luto pelo desfecho do caso do desaparecimento: a Polícia Federal (PF) afirmou, também nessa quarta-feira, que “remanescentes humanos” foram encontrados enterrados em uma área de difícil acesso, em Atalaia do Norte, região onde desapareceram o indigenista e o jornalista.

O material foi encaminhado até a perícia da PF e as investigações ainda estão em andamento. Durante a vigília, amigos e colegas de trabalho do indigenista destacaram o que o profissional Bruno Araújo foi. “É o maior exemplo de indigenista que eu encontrei e tive o prazer de trabalhar com ele. É com profunda tristeza e revolta que a gente está aqui. O Bruno é um exemplo de indigenismo, um exemplo mundial de indigenismo”, disse o também indigenista e servidor da Funai Guilherme Martins.

Antes das notícias sobre a morte do indigenista e do jornalista, cartazes cobravam a localização dos dois. (Marcela Leiros/ Revista Cenarium)

À REVISTA CENARIUM, Martins, emocionado, lembrou das operações com indígenas isolados de recente contato, coordenadas por Bruno Araújo, que foram bem-sucedidas. O indigenista foi coordenador regional da Funai de Atalaia do Norte e coordenador-geral de Índios Isolados e de recém-contatados da fundação, período em que esteve à frente de uma das maiores expedições de contato com índios isolados dos últimos 20 anos.

“O Bruno, sem dúvida, é a maior autoridade na área de indígenas isolados de recente contato em atividade. A gente tem outros grandes nomes que estão aposentados e o Bruno representava a nossa geração como vanguarda da política de indígenas isolados, é o maior exemplo para todos nós. Foi coordenador-geral de indígenas isolados de recente contato aqui na sede, onde ele realizou o contato de indígena isolados, sendo uma operação delicadíssima, o contato mais bem-sucedido da história desde a redemocratização”, lembrou ele.

Greve de servidores

Os servidores da Funai também articulam uma greve para reivindicar a saída imediata do presidente da fundação, Marcelo Xavier, além da reestruturação da política indigenista, em especial voltada para segurança e proteção territorial. Nesta semana, a Justiça Federal do Amazonas determinou que a Funai retirasse, imediatamente, de todos os veículos oficiais de mídias da entidade, uma nota de esclarecimento publicada contra a atuação da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) nas operações de buscas do jornalista e do indigenista.

“Estamos nos organizando, as associações dos servidores da Funai, junto aos sindicatos locais. A Funai é uma organização de nível nacional, a gente tem 36 coordenações regionais em todo o território. E estamos em estado de greve, mobilizados, e regionalmente as entidades estão se articulando junto ao sindicato local para deflagrar a greve”, afirmou ainda Guilherme Martins.

Leia também: Jornalista e indigenista que mapeavam crimes na Amazônia foram esquartejados e incendiados, confirmam investigações

Vigília em frente à sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Brasília. (Marcela Leiros/ Revista Cenarium)

Suspeito confessa

De acordo com o superintendente da Polícia Federal, Eduardo Fontes, só foi possível encontrar a localização exata onde os “remanescentes humanos” estavam por conta da confissão de Oseney da Costa de Oliveira, preso na terça-feira, 14. “Nós não teríamos a possibilidade de chegar nesse local, se não tivesse a confissão. Para avançar mata adentro foram mais de 25 minutos de caminhada”, disse o delegado.

Ainda segundo a Polícia Federal, um dos suspeitos levou as equipes de buscas até o local. Para ter acesso, as equipes precisaram se deslocar de Atalaia do Norte até o ponto onde, anteriormente, foram encontrados os pertences de Bruno e Dom. O trajeto durou cerca de 1h40 de barco. Chegando neste ponto, as equipes ainda precisaram caminhar 25 minutos mata adentro, até a área onde os corpos estariam enterrados.

O delegado federal afirmou que apesar do encontro dos “remanescentes humanos”, ainda não há confirmação de que sejam de Bruno e Dom. “Nós temos a dizer que agora nossa investigação chega a uma outra etapa. Ontem à noite, o primeiro preso nesse caso, conhecido como ‘Pelado’, voluntariamente, resolveu confessar a prática criminosa (…) fomos até o local onde ele havia enterrado os corpos e onde havia escondido as embarcações”, contou o superintendente.

Segundo fontes sigilosas ouvidas pela REVISTA CENARIUM, o ativista e o jornalista foram esquartejados e incendiados. Os relatos dão conta de que Dom Phillips e Bruno Pereira estavam navegando pelo Rio Itaquaí, próximo ao município de Atalaia do Norte, quando flagraram os suspeitos pescando pirarucu em uma região onde a pesca é ilegal. O jornalista e o indigenista, que estavam fotografando na localidade, foram rendidos e mortos em uma vala.

Caso

O indigenista Bruno Araújo Pereira, 41, da Fundação Nacional do Índio (Funai), e o jornalista inglês Dom Phillips, 57, colaborador do jornal The Guardian, desapareceram no Vale do Javari, na Amazônia, ao realizarem um percurso entre a comunidade ribeirinha São Rafael à cidade de Atalaia do Norte, no interior do Amazonas, no dia 4 de junho.

Segundo a União do Povos Indígenas Vale do Javari (Univaja), Bruno e Dom viajavam em uma embarcação nova, com motor de 40 HP e 70 litros de gasolina, rumo a uma localidade próxima à Base de Vigilância da Funai, no Rio Ituí, Lago Jaburu, para que o jornalista britânico realizasse entrevistas com indígenas para um livro com temática ambiental.

Após a missão, a dupla retornou, ainda pela manhã, para a cidade de Atalaia do Norte. Conforme a Univaja, no caminho, fizeram uma parada na Comunidade São Rafael, para que Bruno Pereira se reunisse com um integrante da comunidade, conhecido como “Churrasco”, para tratar de questões sobre vigilância da região por meio de trabalho conjunto entre moradores e indígenas.

Ao deixarem a comunidade sem falar com “Churrasco”, que não foi à reunião marcada, testemunhas relataram que o pescador Amarildo Oliveira, de 41 anos, popularmente conhecido como “Pelado”, se deslocou logo atrás da dupla, em alta velocidade, em uma lancha, pouco antes do desaparecimento. Amarildo foi o primeiro detido nas investigações, seguido por Oseney.

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