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16 de setembro de 2021
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Iury Lima – Da Cenarium

VILHENA (RO) – A Amazônia perdeu 464.759 hectares de vegetação para a exploração madeireira entre agosto de 2019 e julho de 2020, segundo levantamento inédito divulgado no fim de semana. A área perdida, de acordo com o relatório, é três vezes maior que a cidade de São Paulo, sendo que Mato Grosso concentrou mais da metade da área mapeada: 236 mil hectares.

Vale lembrar que cada hectare corresponde, aproximadamente, às medidas de um campo de futebol oficial. Convertida, a área incinerada equivale a 34,6 mil quilômetros quadrados. Um território maior que Alagoas, com seus 27,8 mil km².

Os dados são da Rede Simex, composta por quatro instituições: Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Instituto de Conservação e desenvolvimento Sustentável (Idesam), Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e o Instituto Centro de Vida (ICV).

No entanto, a falta de acesso aos dados de sete dos nove Estados da Amazônia Legal em relação às autorizações de planos de manejo impossibilitou que os pesquisadores pudessem diferenciar a exploração legalizada daquela praticada ilegalmente. De acordo com a pesquisa, apenas Mato Grosso e Pará apresentaram transparência para a análise.

 Registro de madeira extraída, em Rondônia, feito pelo Imaflora. (Vicente Sampaio/ Imaflora)

Mato Grosso, Amazonas e Rondônia lideram

O Mato Grosso foi responsável por mais da metade (50,8%) da área atingida pela extração de madeira mapeada pela Rede Simex: foram 236.691 hectares. 

A segunda posição é do Amazonas, com 71 mil hectares e, em terceiro lugar, Rondônia, com 69 mil hectares de área com exploração madeireira. 

Posição Estado Correspondência da área total atingida na Amazônia (em %)Área atingida em hectares (ha)
Mato Grosso 50,8%236.691
Amazonas 15,3%71.092
Rondônia 15,0%69.794
Pará 10,8%50.139
Acre5,9%27.455
Roraima2,0%9.458
Amapá 0,2%730
Fonte: Rede Simex

Além da falta de acesso aos dados de sete dos nove Estados integrantes do território amazônico, relativos aos planos de manejo, Maranhão e Tocantins ficaram de fora do ranking. 

Apenas Mato Grosso e o Pará apresentaram dados, o que dificultou diferenciar entre os outros Estados, as áreas atingidas pela extração legal e pela extração ilegal. 

Ainda, segundo o Imazon, estudos detalhados sobre cada unidade da Federação mapeadas serão divulgados futuramente. 

Impactos econômicos e sociais

Para o coordenador de inteligência territorial do ICV, Vinicius Silgueiro, a ausência de dados também afeta a economia. “A falta de transparência dificulta o mercado de ter total segurança de estar comprando uma madeira livre de ilegalidades”, explicou Silgueiro.  

“Isso porque, na situação atual, aquela madeira que é produzida de forma legal é ministrada com aquela que é extraída ilegalmente. É uma situação que gera prejuízo ao próprio setor florestal porque acaba nivelando o preço da madeira por baixo e também criando uma concorrência desleal com aqueles que trabalham na legalidade”, continuou. 

O coordenador de inteligência territorial do ICV, em entrevista à CENARIUM (ICV/ Reprodução)

Ele afirma que a extração que ocorre fora da lei, além de contribuir em prejuízos ambientais e climáticos, também há perdas sociais. “Direitos de populações indígenas são afetados e também populações rurais em situação de vulnerabilidade, que sofrem com muita pressão para a extração ilegal de madeira de suas áreas”, detalhou o coordenador. 

Categorias fundiárias

Já entre as categorias fundiárias, a maior parte da exploração aconteceu em imóveis rurais privados, somando 362.428 hectares de toda a área mapeada. 

A exploração madeireira também assolou assentamentos rurais e terras protegidas da União, como Unidades de Conservação (UCs) e Terras Indígenas (TIs):

  • Assentamentos rurais: 19.016 hectares (4%);
  • Unidades de Conservação: 28.112 hectares (6%);
  • Terras Indígenas: 24.866 hectares (5%);
  • Terras não destinadas: 12.291 hectares (3%)
  • Vazio fundiários: 17.945 hectares (4%)

Degradação x Desmatamento

Para o Imazon, que contribuiu com a pesquisa, além do fogo, a exploração madeireira também pode provocar a degradação da vegetação e do solo, causando o empobrecimento da floresta, que ocorre com a redução da biomassa florestal, da biodiversidade e dos estoques de madeira comerciais.

Diferentemente, o desmatamento é caracterizado pelo “corte raso”, ou seja, a remoção completa da vegetação para a conversão de floresta em pasto, lavoura ou garimpo, por exemplo.

Manejo florestal responsável

Vinicius Silgueiro avalia que a presença de dados consistentes podem ajudar a reverter a situação, aliando a transparência com a prática do manejo sustentável. “Para conter o avanço das exploração madeireira ilegal na Amazônia, primeiramente é necessário que todos os dados do sistema de monitoramento e controle florestal estejam integrados e centralizados no Sinaflor, de forma a garantir a rastreabilidade e implementação da cadeia de custódia”, alertou o coordenador. 

Ele explica que o passo seguinte seria implementar um sistema de monitoramento remoto com uso de imagens de altíssima resolução, com alto nível de detalhes, associando tal recurso com a observação da movimentação dos créditos e do transporte de madeira. “Isso poderá trazer um ganho que permitirá frear essa exploração madeireira ilegal em um tempo muito mais ágil”, detalhou. 

Por fim, na avaliação do especialista, seria necessário promover o engajamento do setor florestal e dos mercados consumidores para combater a extração ilegal, ao mesmo tempo em que se  fortalece o manejo florestal sustentável como única alternativa para produção de madeira na Amazônia. “O manejo florestal, quando realizado dentro das premissas técnicas e da legislação, ele pode muito bem aliar o desenvolvimento econômico regional com a conservação florestal. Isso significa valorização da floresta que evita o seu desmatamento”, concluiu Silgueiro.