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22 de outubro de 2021
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Victória Sales – Da Cenarium

MANAUS – O número de assassinatos de ambientalistas teve um novo recorde em 2020. No total, foram 227 pessoas mortas no mundo em decorrência da proteção de diversos territórios, segundo informou o relatório “A última linha de defesa”, da Organização Não Governamental (ONG) Global Witness, divulgado nessa segunda-feira, 13. Em entrevista exclusiva à CENARIUM, os ambientalistas Carlos Durigan e Ricardo Ninuma afirmaram que a perseguição e assassinatos de pessoas que defendem direitos e o meio ambiente têm ligação com o crescimento de ações criminosas.

De acordo com Carlos Durigan, essas ações são ligadas à exploração de recursos naturais e à apropriação ilegal de terras. Isso tem se acirrado pela falta de políticas de proteção e defesa de direitos no Brasil, que acaba servindo de incentivo à expansão de diversos crimes que levam a este cenário.

Mulheres indígenas protestam em Brasília (Alass Derivas/ Derivas Jornalismo)

“Ameaças e crimes contra pessoas que lutam por seus direitos e também pela proteção de nosso patrimônio natural crescem proporcionalmente com as mudanças de rumo nas políticas voltadas à agenda socioambiental no País e em especial na Amazônia”, explicou Durigan.

Durigan ressalta ainda que esse cenário só muda com políticas claras e efetivas de combate a crimes ambientais e à promoção da defesa de direitos frente ao processo generalizado de apropriação ilegal de terras públicas, invasões e rapina de recursos naturais em terras indígenas, quilombolas, unidades de conservação e áreas de vida de povos tradicionais em geral.

Para o ambientalista Ricardo Ninuma, atualmente no Brasil, se vive um clima de criminalidade, composto basicamente por três tipos de pessoas: o criminoso, o incentivador e o divulgador. Os criminosos seriam os exploradores ilegais e traficantes de madeiras (madeireiros), os invasores ilegais de terras (latifundiários, agricultores e fazendeiros), além de pistoleiros.

Já os incentivadores são os políticos sem compromisso com os indígenas e florestas naturais, principalmente a amazônica, liderados pela atual gestão baseada em políticas antiambientais. E, finalmente, os divulgadores que nem sequer sabem a diferença entre preservação e sustentabilidade, mas continuamente divulgam mentiras sobre o meio ambiente.

“A falta de comprometimento ambiental provoca o atual quadro desastroso aos ambientalistas. Maior compreensão dos trabalhos ambientais, divulgação e implantação de agrovilas com aproveitamento da biodiversidade de forma sustentável. E finalmente o entendimento de que o lucro financeiro é maior quando preservamos o meio ambiente e exploramos de forma sustentável”, relatou Ricardo.

Vale lembrar que, no Brasil, as maiores vítimas de ataques criminosos contra ambientalistas são os próprios indígenas. Segundo a liderança indígena da etnia Baré, Orlando Melgueiro, isso é resultado de uma “política genocida liderada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido)”. “Mas o que muita gente não sabe é que as vítimas desse crime são principalmente os indígenas, pois ninguém fiscaliza, especialmente pelo governo federal”, destacou.

Estudo

De acordo com o relatório, o Brasil ocupa a quarta posição com 20 assassinatos em 2020, ficando atrás somente da Colômbia com 65 mortes, México com 30 mortes e Filipinas com 29 mortes. Segundo o relatório, “em alguns países, a situação dos defensores é difícil de medir – as restrições à liberdade de imprensa, ou onde o monitoramento independente de ataques não está ocorrendo, podem levar a subnotificações”, relata.

Ainda de acordo com o estudo, a América Latina foi a região mais letal do mundo, do total de mortes, 165 foram em países latino-americanos, com mais de 72%, e no Brasil, 75% dos crimes ocorreu na Amazônia, o que levou a vida de indígenas. Mas além dos assassinatos, o número de ameaças de morte e violência sexual também chamaram a atenção no estudo.

Em estudo no ano anterior, o Brasil ocupou o terceiro lugar no ranking de países mais perigosos para ambientalistas, com 24 mortes. “Foi um ano diferente. O nosso centro de documentação teve dificuldade de decidir como registrar os casos. Com a pandemia, houve menos deslocamentos durante alguns meses, o que pode ter influenciado os números”, comenta Jeane Bellini, coordenadora da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em entrevista à DW Brasil.