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24 de julho de 2021
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Náferson Cruz – Da Revista Cenarium

NOVA OLINDA DO NORTE (AM) – Maria de Lourenço Souza, de 60 anos, chorava debruçada sobre um caixão e aos gritos de dor, lamentava as perdas do neto, filha e do genro que tiveram os corpos encontrados boiando às margens do rio Abacaxis, em Nova Olinda do Norte (a 135 quilômetros de Manaus). O local, recentemente tem sido palco de constantes conflitos armados.

O enterro triplo de Matheus Souza, Vanderlani Souza e Anderson Gonçalves, ocorreu no final da tarde da quarta-feira, 12, no Cemitério Municipal São Manoel, em Nova Olinda do Norte. Durante a cerimônia, amigos e familiares das vítimas clamaram por Justiça.

Inconformada com as repentinas perdas, Maria de Lourenço, disse que os entes eram pessoas pacíficas e que sempre se dedicaram aos estudos e aos afazeres na comunidade Monte Horebe, localizada nas proximidades do rio Abacaxi, onde as vítimas moravam com as respectivas famílias. “Por que fizeram isso com eles? Não mereciam tamanha brutalidade, eles estavam com bastante hematomas pelo corpo. Meu neto estava com um dos braços quebrados”, lamentou.

Abordagem

Antônio Gonçalves de 67 anos, é pai de Anderson, uma das vítimas. Ele afirma ter testemunhado o episódio e contou com detalhes à REVISTA CENARIUM, o momento que segundo ele, as vítimas foram abordadas pela polícia.

“Meu filho chegou por volta das 11h de sábado, 8, e logo depois almoçou e me avisou que ia viajar. Então disse a ele: ‘não vá meu filho, o rio está perigoso, a polícia está fazendo operação’. Então ele respondeu que ia, porque não ‘devia nada a ninguém’ e saiu na voadeira. Sendo que na hora, duas lanchas da polícia chegaram à comunidade Monte Horebe, uma delas partiu na mesma direção que foi o meu filho. A polícia chegou a entrar na minha casa, perguntaram se eu tinha armamento e disse que não. Também me perguntaram se tínhamos ligação com um homem conhecido por ‘Bacurau’, disse que não”, explicou Antônio, antes de ser interceptado por um de seus familiares, que pediu privacidade por conta do difícil momento pelo que a família estava passando.

Assista ao vídeo

Familiares e amigos ajudam coveiros a enterrar ribeirinhos em Nova Olinda do Norte (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Outro familiar das vítimas, que pediu para não ser identificado, contou que para entrar na comunidade é necessário pedir auxílio da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF). Isso por que a Polícia Militar não estaria autorizando o acesso pelo rio.

“Mesmo sendo morador ninguém entra e nem sai da localidade. Fizemos solicitações, mas fomos barrados. Então tivemos que recorrer ao MPF, pelo fato se tratar de ribeirinhos e pessoas indígenas. É uma situação complicada. É muito triste você saber que seus familiares foram mortos e para resgatar seus os corpos é preciso pedir do Estado para fazer isso”, disse.

Pedro Marinho Silva, 67 anos, pai de Edmilson, conhecido como ‘Macaco’, disse que o filho também estava junto às vítimas encontradas no rio Abacaxi. Mas até a quarta-feira, 12, ele continuava desaparecido. De acordo com Marinho, a informação repassada por testemunhas, reportava que as três vítimas foram encontradas com pedras amarradas em seus pés. “Até agora ninguém sabe o paradeiro do meu filho, ele estava junto às vítimas e trabalhava na extração de copaíba e andiroba”, disse.

Segurança de indígenas e ribeirinhos

No último dia 10 de agosto, a Justiça Federal determinou em decisão liminar que a União, por intermédio da PF, adotasse medidas cabíveis para proteção dos indígenas e populações tradicionais na região, em razão dos potenciais abusos e ilegalidades relatados pelos comunitários.

A decisão foi proferida após ação ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF), também determinou que o Estado do Amazonas não impeça a circulação dos povos indígenas e ribeirinhos na região, que fazem parte dos Projetos de Assentamento Agroextrativistas (PAEs) Abacaxis 1 e 2, nos municípios amazonenses de Borba e Nova Olinda do Norte. Em caso de descumprimento, foi estabelecida pena de multa diária de R$ 100 mil ao Estado.