1 de março de 2021

Com informações da Folha de S. Paulo

SÃO PAULO – É com um misto de esperança e angústia que se assiste ao documentário “Atravessa a Vida”, de João Jardim, que estreia na quinta-feira, 14.

O filme se propõe a retratar alunos de uma escola pública do interior de Sergipe que vão fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), mas é muito mais que isso.

Ele mostra uma fase da vida em que os jovens estão prestes a deixar a proteção da escola em direção a um futuro incerto.

É um estágio de transição, e de certa maneira todos aqueles estudantes prestes a se formar são ainda potência, para tomar emprestado o conceito de Aristóteles ensinado logo em uma das primeiras cenas pelo professor de filosofia da escola estadual Milton Dortas. Nesse sentido, são jovens da cidade de Simão Dias (a 100 quilômetros de Aracaju), mas poderiam estar em qualquer lugar.

No filme de João Jardim, assim como no seu excepcional “Pro Dia Nascer Feliz”, são eles que falam, com poucas intervenções.

A diferença em “Atravessa a Vida” é que as entrevistas são minoria. A maior parte das cenas retrata debates nas aulas e conversas espontâneas entre os estudantes, ou entre esses e os professores ou a diretora.

Sai daí um retrato especialmente bonito da amizade e da educação em seu sentido mais amplo, para além do conteúdo curricular. Em uma das cenas mais tocantes, a diretora consola uma aluna com problemas em casa. Ao fazer isso, emociona-se e acaba sendo consolada por ela.

O filme é muito competente em mostrar o valor do professor que acolhe, questiona e leva o jovem a pensar por si próprio, como ocorre em conversas em sala sobre suicídio, aborto e pena de morte.

Contribui para a riqueza dos debates o fato de a escola Milton Dortas contar com professores e alunos evidentemente muito comprometidos, ainda que, como o filme bem mostre, tenha problemas comuns a diversos outros colégios do país, como faltas, atrasos, falhas de estrutura, entre outros.

A escola foi escolhida para a filmagem após reportagem da Folha mostrar que, no Enem 2016, foi a que obteve melhor resultado no país entre as unidades de grande porte que concentram alunos pobres.

O documentário informa que, dos 371 estudantes da turma no ano das filmagens, 110 ingressaram no ensino superior público ou privado (30%). Teria sido interessante se tivesse explicitado o quão excepcional é essa façanha.

No Brasil, 29,1% dos jovens de 15 a 17 anos não estão no ensino médio. Apenas 21,5% dos que têm entre 18 e 24 anos cursam o nível superior. Entre os 25% mais pobres, como os de Simão Dias, essa parcela cai para 10,7%.

Quase triplicar esse índice é um feito que não se alcança sem jovens engajados e educadores que realmente se importam com o trabalho.

Nesse sentido, revela-se muito feliz a escolha do Milton Dortas como objeto da investigação sobre essa fase da vida. Que não seja um colégio modelo nem um estereótipo da escola pública detonada o local de encontro de todos aqueles jovens entusiasmados, ávidos pelo futuro, ainda que tenham feridas, tudo isso transmite esperança.