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28 de outubro de 2021
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Folhapress

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, Antônio Carlos Lopes, mais do que a demissão do ministro Nelson Teich, nesta sexta-feira, 15, o problema será a escolha de seu sucessor no ministério.

“Ele (Teich) já entrou caído”, diz. Lopes esperava a queda de Teich, mais cedo ou mais tarde, por ele ter um perfil muito tímido, apesar de ser um nome com conhecimento técnico da área.

O ministro é o segundo a deixar a pasta da Saúde no governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em meio à pandemia do coronavírus no Brasil. O primeiro foi Luiz Henrique Mandetta em 16 de abril último.

Pressão nos bastidores

“Tem uma articulação política por trás de tudo”, diz o coordenador Científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, Sérgio Cimerman. Na sua leitura, houve um trabalho nos bastidores para tirar Teich do posto e tentar colocar alguém a favor da redução do isolamento social e o uso da cloroquina, ambas medidas defendidas por Bolsonaro.

Suzana Lobo, presidente da Associação Brasileira de Medicina Intensiva, teme que a nova troca de comando na saúde em meio à pandemia do coronavírus tenha impacto negativo no combate à doença, que até esta quinta-feira, 14, já havia atingido, segundo registros oficiais, mais de 200 mil brasileiros e matou quase 14 mil.

“A gente não podia imaginar um cenário pior que esse. Um cenário difícil baseado em ciência já estava previsto do ponto de vista epidemiológico, mas o efeito da intervenção política não só nessa crise, mas, nos tratamentos que os médicos vão usar, é temeroso”, declarou.

Cimerman entende que a troca também causa um impacto de gestão, já que é necessária pelo menos uma semana para que qualquer novo nome se habitue ao cargo. “E hoje, no Brasil, até do ponto de vista econômico uma semana pode ser muito danoso, não podemos perder uma semana”,afirmou.

Instabilidade é inimiga

Concorda Alberto Beltrame, presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde). Em nota, ele disse que “a instabilidade e a falta de ações coordenadas e claras, neste momento, são inimigas da saúde e da vida”. Eder Gatti, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, disse que já era hora do governo federal tomar medidas onerosas aos cofres públicos, como ajuda financeira a famílias pobres, mas que a direção em que se caminha é a contrária.

“Há um descolamento completo do governo federal, na figura do presidente, com a realidade. Ele insiste em minimizar o problema, com medidas que não ajudam e até atrapalham, e isso bate de frente com qualquer um que for minimamente técnico na área da saúde. Por isso, a saída do ministro não espanta”, afirma.

Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, defende que o Brasil não pode perder mais tempo no combate ao coronavírus e que sejam os políticos quem tomem as decisões, eles “não podem dar receita de remédio”.

Autoritarismo X Ciência

“Não adianta gritar contra a ciência, porque ela se impõe, o autoritarismo não muda a ciência, esse é o exemplo histórico. Quantas mortes teremos que ter antes que se imponha a lucidez?” questiona.

Lobo ressaltou que, atualmente, a única medida efetiva e certeira contra o coronavírus tem sido o isolamento social, algo que o presidente Jair Bolsonaro também questiona.

“O impacto (da troca) vai ser que as políticas não são implementadas, perdem continuidade, nada pior do que isso agora, principalmente quando a discussão maior se baseia na tentativa de implementar forçadamente tratamentos sem base científica”, completa, se referindo à cloroquina.

O uso do remédio foi o principal motivo para a saúde de Teich, que era contra sua aplicação na fase inicial do tratamento. Bolsonaro é a favor.
Antonio Lopes vê uma série de outros fatores, alguns segundo ele desconhecidos, como determinantes para a demissão.

Dentre eles está o episódio envolvendo o decreto federal que liberou salões de beleza e academias para funcionar durante a quarentena, do qual o ex-ministro tomou conhecimento ao ser questionado por um jornalista, durante a entrevista coletiva.

Para Lopes, isso deixou o ministro queimado e desprestigiado. Defensor da cloroquina, ele diz que o próximo nome a assumir a pasta precisa ser uma liderança profissional, acadêmica e para a sociedade.

“Tem que ter um perfil que tenha trabalhado na linha de frente, no SUS, atendendo população”, completa.