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22 de novembro de 2021
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Com informações da Folhapress

SÃO CARLOS (SP) – Filamentos de origem biológica preservados em rochas canadenses, com quase 900 milhões de anos de idade, podem ser os vestígios mais antigos da evolução dos animais nos mares da Terra, segundo um estudo na revista científica Nature. A rede de estruturas corresponderia aos “esqueletos” de poríferos (popularmente conhecidos como esponjas), os invertebrados mais primitivos que conhecemos hoje.

Antes do trabalho, as evidências mais antigas da evolução dos animais vinham de rochas com pouco mais de 600 milhões de anos. Portanto, se a nova pesquisa estiver correta, ela fortalece a hipótese de um longo processo evolutivo “nas sombras”, difícil de detectar, antes que os primeiros animais adquirissem formas mais complexas e diversificadas.

“As áreas preservadas na rocha calcária como uma rede vermiforme microscópica são idênticas a materiais descritos por outros pesquisadores em rochas bem mais recentes, que incluem o corpo das esponjas propriamente ditas”, explicou à Folha a autora do estudo, Elizabeth Turner, da Universidade Laurentian, no Canadá. “É um padrão muito típico das esponjas, que não costuma ser formado por bactérias, algas ou fungos.”

Turner estuda rochas que vêm do noroeste canadense, na chamada formação Stone Knife. Há 890 milhões de anos, no começo da fase da história geológica da Terra conhecida como Neoproterozoico, a região contava com grandes recifes formados por micro-organismos em águas de profundidade média e rasa -provavelmente bactérias que faziam fotossíntese, tal como as plantas de hoje.

Os recifes chegavam a ter vários quilômetros de diâmetro e 500 m de espessura. Segundo a reconstrução proposta pela pesquisadora, as esponjas, que atingiam apenas 1 cm de comprimento, costumavam crescer nas bordas das estruturas bacterianas, em locais menos iluminados ou com águas mais agitadas (dois fatores que não favoreciam muito o crescimento das camadas de micróbios).

Tudo indica que as esponjas do começo do Neoproterozoico eram formadas apenas por matéria orgânica, sem “esqueletos” calcários ou de sílica, como a de algumas de suas parentes modernas. Em vez disso, sua estrutura era formada por uma proteína resistente chamada espongina.

Quando as esponjas morreram e começaram a se fossilizar, as redes de espongina ficaram preservadas na forma de tubos minúsculos, preenchidos com cristais do mineral calcita.

Se a interpretação de Turner sobre o material estiver correta, como explicar o longo período da vida animal “nas sombras”, antes que outros invertebrados e os ancestrais dos vertebrados surgissem, entre 600 milhões e 500 milhões de anos atrás?

“É possível que as esponjas, talvez por serem mais tolerantes em relação a concentrações baixas de oxigênio do que animais mais complexos, tenham aparecido há 890 milhões de anos, enquanto outros grupos de animais só surgiram depois do grande evento de oxigenação da atmosfera e dos mares em épocas posteriores do Neoproterozoico. As possíveis esponjas que descrevi podem ter ficado sossegadas nesse ‘Nirvana’ dos recifes sem sofrer pressões evolutivas”, pondera ela.

Turner explica ainda que os esforços para tentar “ligar os pontos” entre as duas fases da evolução dos animais são inerentemente complicados porque é preciso, entre outras coisas, achar as rochas da idade certa, as quais são relativamente raras, e gastar muito tempo analisando os vestígios no microscópio até encontrar fósseis que ajudem a responder essas dúvidas. “Infelizmente, é preciso uma tolerância com a ‘ciência lenta’ que é muito rara hoje em dia”, lamenta ela.