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27 de outubro de 2021
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Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Com frota de veículos ultrapassando 9,6 milhões na Amazônia Legal, entre carros, motos e ônibus, a emissão anual de CO² gira em torno de 8 a 12 milhões de toneladas, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) repassados à REVISTA CENARIUM. O número, embora represente apenas 2% do total emitido pelo desmatamento na região, ainda é um perigo para o aumento do efeito estufa.

O dado foi sustentado pelo pesquisador do Inpe, na região, Jean Ometto, considerando a quantidade de gás carbônico que os veículos lançam na Terra e o levantamento realizado com base na frota de veículos da Amazônia brasileira, disponibilizada pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran).

O gás carbônico, ou dióxido de carbono (CO²), é um gás presente na atmosfera e está associado ao efeito estufa, sendo um dos responsáveis pelo aumento do aquecimento global.

De acordo com Jean Ometto, outros fatores também devem ser considerados para obter a quantidade aproximada de CO² emitida pelo número da frota, como emissão de quilograma do gás por litro de gasolina, o uso de combustível renovável, a quantidade existente de veículos com tecnologia flex, que permite o abastecimento do transporte com gasolina ou álcool, a idade média da frota da região, quanto, em combustível, um veículo gasta, em média, anualmente, entre outros.

Jean Ometto é coordenador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do Inpe. (Divulgação)

“Devemos lembrar que, mais ou menos, metade dessa frota (4,75 milhões) usa só etanol (combustível renovável). Admitindo essa quantidade, os veículos emitiriam em torno de 8 a 12 milhões de toneladas de CO² por ano. Estamos falando de um valor que é menos de 2% do desmatamento na Amazônia brasileira, mas que não significa que podemos deixar de economizar, porque a redução da circulação de veículos envolve também outros benefícios. Precisamos estar atentos com a redução no meio urbano para ter qualidade de vida”, analisou o pesquisador à REVISTA CENARIUM.

Entre os benefícios obtidos com a menor circulação de veículos nas cidades, pontua o pesquisador, estão a redução de poluição do ar (material particulado, ou seja, partículas finas como poeiras), menor produção de dióxido de nitrogênio, enxofre, entre outros poluentes.

Foto de Avenida em Manaus tomada por fumaça de veículos. (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

De acordo com o pesquisador, quando um carro é movido somente a gasolina, a emissão de CO² por litro de gasolina é cerca de dois quilos, o que não é muito diferente quando se fala em diesel.

“No Brasil, o carro que roda somente com gasolina, emite em torno de 1,8 quilos de CO² por litro de combustível, considerando que a gasolina no Brasil contém de 25 a 27% de etanol. Essa emissão de CO², que é contabilizada para inventário nacional, refere-se as emissões derivada de combustíveis fósseis. Porque no etanol, a emissão de carbono é considerada ‘zero’, pois o etanol é feito a partir da cana-de-açúcar, sendo caracterizada como energia renovável”, esclarece Ometto.

Desmatamento

O desmatamento no Brasil é ainda o setor, do inventário de emissões, que mais emite gás carbônico em território nacional, com quase 2 bilhões de toneladas de emissões totais do Brasil, sendo 800 milhões de toneladas do poluente oriundas do desmatamento da Amazônia e Cerrado, de acordo com os dados de 2018 e divulgados em 2019 pelo INPE, com base no Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões do INPE (INPE-EM), com base no Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (PRODES), em 2019, o desmatamento da Amazônia emitiu, aproximadamente, 30% do total das emissões nacionais de CO2.

Queimadas criminosas são peça-chave no desmatamento, que produz mais de 2 bilhões de toneladas de CO² por ano, segundo o Inpe. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Ao considerar todas as formas de emissão do gás na atmosfera, os números fazem do Brasil o sétimo maior emissor global de CO², o que representa cerca de 2,5% do total no mundo. Somente a Amazônia Legal foi responsável por emitir 400 milhões de toneladas de gás em 2018, número ainda mais alto em 2019, com a emissão de 570 milhões de toneladas do gás.

Os dados de emissões de CO2 são calculados a partir de um sistema do Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), que é liberado anualmente, em novembro. “Acredito que as emissões devem seguir em reta crescente no país, sobretudo, considerando o aumento no desmatamento na Amazônia”, disse Jean Omeetto.

Ligação

O ambientalista e superintendente do Instituto Internacional de Responsabilidade Sócioambiental Chico Mendes, José Coutinho, observa que o sistema de transporte de pessoas e mercadorias sempre esteve associado à geração de alguma forma de poluição, seja atmosférica, sonora ou visual.

Para ele, o nível de organização e controle das atividades de transporte sejam públicos, privados ou individual pela população, são condicionantes importantes para explicar os diferentes índices de poluição veicular.

José Coutinho, ambientalista e superintendente do Instituto Internacional de Responsabilidade Sócioambiental Chico Mendes. (Divulgação)

“Em Manaus, observando a rotina diária nos centros urbanos, isso não incomoda a população. Na maioria das vezes, a poluição não é perceptível, mas, não quer dizer que os veículos não estejam poluindo. Com esse número crescente do transporte circulando na cidade, para um clima quente e úmido como é o nosso [na Amazônia], isso poderia ser evitado se os proprietários dos veículos cuidassem melhor e mantivessem as manutenções preventivas”, pontuou.

Segundo Coutinho, na capital amazonense, ainda é possível perceber veículos circulando emitindo fumaça preta pelo escapamento, lançando no meio ambiente, prejudicando, principalmente, a saúde da população.

“As poluições veiculares causam impactos ambientais em diversas áreas, tanto ambiental como da saúde pública, causado pelos motores e as fuligens expelidas pelos escapamentos que ficam encrostados nas plantas, calcadas e prédios, nas fachadas dos imóveis. O principal poluente nesta categoria é o dióxido de carbono (CO²)”, explicou Coutinho..

Estudo

Na capital amazonense, um estudo desenvolvido com pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) apontou que houve uma queda de 64% nos níveis de material particulado (poluição do ar) na área urbana, em Manaus, em consequência da diminuição das atividades industriais e da mobilidade urbana, durante o isolamento social decorrente da Covid-19.

De acordo com dados do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) repassados à reportagem, a pandemia puxou o ‘freio de mão’ da circulação de automóveis.

Circulação de carros diminuiu em Manaus durante a pandemia, diz IMMU. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Em Manaus, durante os meses em que a doença esteve mais acentuada, o órgão informou que observou uma redução de, pelo menos, 30% na circulação de veículos nos principais corredores de tráfego da cidade.

Já em 2018, conforme ressalta a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição de partículas finas do ar poluído matou cerca de sete milhões de pessoas e, em cada nove pessoas, dez respiram ar com altos níveis de poluentes.

“A poluição do ar representa uma ameaça para todos, embora as pessoas mais pobres e marginalizadas sejam as que mais sofrem”, disse o diretor geral da OMS, doutor Tedros Adhanom Ghebreyesus.

As partículas finas do ar poluído chegam a penetrar nos pulmões e no sistema cardiovascular, causando doenças como derrames, doenças cardíacas, câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica e infecções respiratórias.

Para o ambientalista José Coutinho, a pandemia trouxe uma reflexão quanto à mobilidade urbana, pois ainda é preciso reformular as políticas públicas ambientais e de gestão de transporte e trânsito que busquem resultados mais efetivos no controle das emissões, focando nos maiores agentes poluidores.

Segundo ele, é preciso buscar um sistema de mobilidade urbana ambientalmente equilibrado para as cidades brasileiras. “Algo que deveria ser um objetivo importante na pauta de Governo Federal, principalmente, neste momento em que os países discutem a redução da emissão dos poluentes globais e também as externalidades geradas pelos demais poluentes as políticas públicas adotadas para amenizar os problemas ambientais no trânsito urbano se restringiram ao controle das emissões dos veículos”, finalizou.

Veículos poluentes

Os dados do Denatran, atualizados em junho, mostram que Mato Grosso é o Estado que mais possui veículos na Amazônia Legal, com 2.256.068 milhões de veículos entre carros, motos e ônibus. Em segundo lugar, aparece Pará, com 2.154.037 milhões de veículos.

Completam a lista, respectivamente, os Estados de Maranhão (1.803.422 milhão), Rondônia (1.046.677 milhão), Amazonas (944.345 mil), Tocantins (735.456 mil), Acre (297.813 mil), Roraima (233.205 mil) e Amapá (208.839 mil).