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22 de outubro de 2021
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Iury Lima – Da Cenarium

VILHENA (RO) – Publicado na rede social de entretenimento mais famosa do momento, o TikTok, um vídeo regado a preconceitos baseados em padrões de beleza estereotipados tem revoltado internautas, figuras públicas e até especialistas. “Eu não treino de segunda a segunda, me cuido, faço dieta, pra ficar pegando ‘mina’ com círculo de circunferência abdominal largo”, disse o influenciador digital Gabriel Prestes, que tem pouco mais de 126 mil seguidores na plataforma de vídeos, dando início ao discurso.

Comentários do mesmo nível saíram do amigo de Prestes, o ‘xará’ Gabriel Breier, este com quase 1 milhão de seguidores no TikTok. “Mano, primeiramente, se tu não se cuida, não te dou nem oi na rua, tá ligado? Não adianta você me pedir informação, que eu não vou te dar, entendeu? Eu gosto de menina cheirosa, bonitinha, adequada, que, aí sim, tu vai ter a honra de sair comigo”, disse o rapaz no mesmo vídeo, justificando o argumento do discurso com treino físico e tratamento dentário.

Leis mais: Mulheres empoderadas combatem o preconceito e a gordofobia

O influenciador digital Gabriel Prestes (Reprodução/Redes sociais)

Construção social e autocobrança

Para a psicóloga clínica, especialista em psicanálise e docência do Ensino Superior Daniela Reis, o conteúdo do vídeo revela que a opinião compartilhada entre os dois influenciadores é derivada de uma construção social a respeito dos “padrões” de beleza estabelecidos pela sociedade como “ideais”. 

“É uma construção social, instituída no decorrer do cotidiano da pessoa. Família influencia nisso, educação, região onde a pessoa nasceu, conviveu e cresceu. Tudo isso são coisas que constroem a personalidade. Em que ponto isso é prejudicial? Em todos! Principalmente para aqueles que promovem esses ataques”, explicou Daniela Reis, em entrevista à CENARIUM.

A especialista em psicanálise Daniela Reis avalia que os influenciadores precisam de ajuda de profissionais em saúde mental. (Reprodução/ Acervo pessoal)

A especialista também observa que, por conta desse pensamento, os argumentos de Prestes e Breier expõem ainda a autocobrança internalizada por eles para se sentirem aceitos pela maioria. “Olha só a fala desses meninos (…), olha o quanto esses meninos se cobram para se encaixar nesses padrões. Então, eles exigem deles próprios. É de si próprios que eles estão falando. E isso é prejudicial, principalmente, nesse caso, ao agressor”, ponderou a psicóloga, ao avaliar os dois lados da situação polêmica.

Internauta diz ter ficado enojada com vídeo de influenciadores. (Reprodução/redes sociais)

Relação com o neonazismo

Especialista em psicanálise, Daniela Reis enxerga semelhança com discursos extremistas como o do nazismo, quando Adolf Hitler defendia a “supremacia” da “raça ariana”.

“Inclusive, a antropóloga e pesquisadora Adriana Dias, da Unicamp, faz uma pesquisa sobre o crescimento neonazista no Brasil, que no Sul predomina bastante. Pela fala desses dois meninos, eles são da região Sul, mas parece que moram em Brasília agora, né (…) Adriana diz que o crescimento de pessoas neonazistas é concentrado na região Sul e está partindo, em segundo lugar, para o Centro-Oeste, exatamente onde esses meninos moram”, disse.

Daniela Reis defende que, contra movimentos de ódio, a imposição é uma arma necessária. “Nós ainda não somos um País de primeiro mundo, então a gente ainda está no processo de se impor e dizer: ‘espera aí! Não é assim que as coisas funcionam’. O racismo, homofobia, feminicídio, ainda são fatores muito preponderantes no Brasil e é preciso que nós trabalhemos, todos, tanto a saúde quanto a segurança pública, a comunicação e informação, no sentido de imposição”, detalhou.

“A forma como nós fomos construídos historicamente e filosoficamente não nos faz escravos do passado, mas o processo de reconstrução dá trabalho. Nós precisamos nos impor, tanto o homem quanto a mulher, o grupo LGBTQUIA+, os negros, brancos e habitantes de todas as regiões. É preciso aceitar a diversidade do outro. Não é o outro que diz como você deve ser”, complementou.

Acuados após repercussão

Procurado pela reportagem da CENARIUM por meio do e-mail pessoal e das redes sociais, Gabriel Prestes não se manifestou sobre a repercussão negativa do vídeo. No entanto, esteve ao vivo na manhã desta sexta-feira, 8, no TikTok, conversando com seguidores pelo chat no qual ele também ignorou os questionamentos.

Ao vivo, no TikTok, Gabriel Prestes notou a decepção dos seguidores. (Reprodução/TikTok)

Nos comentários lidos pelo influenciador, diversos recados com ataque ao rapaz foram disseminados, especialmente o mais novo adjetivo recebido por ele: “cancelado”. A palavra se repetia em quase toda a transmissão. Ele chegou a rebater alguns e verbalizou ter ciência de que perdeu parte do carinho do público. “Vocês estão chateados comigo, né?”, questionou.

Além de popular no TikTok, Breier vende um “Guia da Estética” na internet, ensinando valores pessoais. (Reprodução/Redes sociais)

Gabriel Breier, que também não respondeu aos contatos da CENARIUM, além de conhecido no TikTok, vende um passo a passo de treinamento físico na internet, justamente o assunto sobre o que mais posta, quando não está menosprezando as mulheres, uma vez que o material mais recente não é o único do mesmo teor. 

Há um ano, o rapaz esteve no centro de outra polêmica, acusado de ‘gordofobia’, pois, na mesma rede social, disse: “mina pesando mais de 50 quilos é homem, não pego”. Mesmo com tais atitudes, entre os ensinamentos do “Guia da Estética”, criado por ele, temas como “propósito de vida” e “desenvolvimento pessoal” são ensinados.

Para Reis, tanto Breier quanto Prestes precisam de ajuda profissional. “Esses meninos precisam de tratamento e auxílio de saúde mental para tentar ressignificar isso, essa crença do padrão de beleza. Fazendo o bem para eles, a gente consegue mudar o mundo também. A forma como a gente vê o mundo é a forma como a gente se vê”, finalizou a especialista.