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22 de outubro de 2021
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Com informações da Folhapress

SÃO PAULO – A dois dias das eleições que vão definir o próximo governo da Alemanha, jovens ambientalistas protestaram em várias cidades do País para pedir ações mais contundentes de combate à crise climática. Em Berlim, Greta Thunberg, ativista sueca que no ano passado foi recebida pela primeira-ministra Angela Merkel, disse em discurso nesta sexta, 24, que nenhum dos partidos políticos está suficientemente comprometido com o problema.

Além de Berlim, houve protestos em Bonn, Colônia, Hamburgo e Friburgo, como parte de um movimento programado em 80 países. O assunto está definitivamente na cabeça dos eleitores. Para 81% dos alemães pesquisados pela ARD-DeutschlandTrend, em julho, há a necessidade muito grande de agir na proteção do clima.

A ativista sueca Greta Thunberg fala a jovens alemães durante protesto por mais medidas de combate à mudança climática, em Berlim (Christian Mang/Reuters)

No Politbarômetro, levantamento do Forschungsgruppe Wahlen que toda semana pergunta quais são os problemas importantes da Alemanha, o clima foi citado, na semana passada, por 47%, na dianteira das preocupações.

Pode parecer contraditório que apesar disso os Verdes sejam apenas o terceiro partido nos levantamentos de intenção de voto, com 16% na média, enquanto os sociais-democratas (SPD) aparecem com 25%, em empate técnico e em disputa cada vez mais acirrada com os democratas-cristãos (União), com 22%.

Mas isso acontece porque todos os principais partidos, com exceção da ultradireitista AfD, têm propostas para combater a crise climática -as diferenças são com que velocidade e por que meios.

“Trata-se da disputa sobre quão fortemente a política climática deve intervir nos estilos de vida e na economia”, diz Ursula Münch, diretora da Academia de Educação Política em Tutzing.

Os Verdes são pela transição mais rápida: querem que motores a combustão sejam eliminados até 2030. A candidata à primeira-ministra do partido, Annalena Baerbock, defendeu na campanha que até lá os carros a gasolina e a diesel deixem de ser vendidos.

A meta dos Verdes é vista como radical demais pelo candidato da União, Armin Laschet, que vê risco de alto desemprego na indústria automotiva, grande fonte de receitas para o País. Segundo o conservador, que é contra prazos limites para os veículos, são incentivos de mercado e deduções de imposto que farão a indústria acelerar a transição verde.

Olaf Scholz, candidato social-democrata, por sua vez, diz que é preciso investir em infraestrutura e rede elétrica de alto desempenho para levar energia limpa às indústrias. Em debates na TV neste mês, ele disse que sua meta é neutralizar as emissões do setor industrial em 25 anos.

Para os ativistas da chamada “geração Greta”, é preciso agir mais rapidamente, o que significa alterar de forma mais intensa o cotidiano de pessoas e empresas.

Uma das queixas dos manifestantes é que a Alemanha não tem cumprido suas metas de redução de emissões de gás carbônico, necessárias para cumprir o Acordo de Paris.

Ao assinar o acordo, a Alemanha e outros 194 países se comprometeram a implantar programas para conter o aquecimento global a no máximo 1,5 grau Celsius acima da temperatura média global do período pré-industrial.

Foi justamente pelo peso da indústria automobilística na economia alemã e na política dos conservadores que o governo de Merkel é avaliado de forma ambígua por ambientalistas. A própria primeira-ministra foi uma das líderes mais identificadas com o combate às emissões nos anos 1990 e 2000, mas sua abordagem mudou depois da recessão provocada pela crise global de 2008.

Os conservadores trabalharam para assumir metas menos ambiciosas na lei do clima aprovada em 2019, o que acabou sendo contestado na Justiça justamente pela geração Greta. Os planos de Merkel deixavam a maior parte do fardo para as próximas gerações, argumentaram o movimento Fridays for Future (sextas-feiras para o futuro, liderado por Greta) e entidades como Greenpeace e Amigos da Terra da Alemanha.

A Suprema Corte do país deu razão aos reclamantes e ordenou ao governo que adotasse metas mais duras e deixasse mais claro como elas serão obtidas, numa vitória para os ativistas. Na ocasião, políticos do SPD -que fazem parte da coalizão governista e ocupam o Ministério do Meio Ambiente- afirmaram que foi a União que barrou em 2019 a adoção de metas mais ambiciosas.

Scholz, que é vice-primeiro-ministro de Merkel, voltou à carga em debate nesta semana, afirmando que o partido de Laschet “tinha dúvidas” sobre a necessidade de aumentar a produção de energia verde. “A CDU/CSU está do lado errado dessa questão tão importante para o futuro industrial da Alemanha”, disse ele.

Para a ativista alemã Luisa Neubauer, que dirige no país o Fridays for Future German, todos estão do lado errado e é preciso elevar a pressão nas ruas antes da votação, neste domingo, 26. “Os partidos políticos não levaram a catástrofe climática a sério o suficiente, e os jovens não aceitam mais desculpas sobre o mundo que vão herdar.”

No discurso em Berlim, Greta Thumberg acusou a Alemanha de não fazer nem ao menos o necessário para cumprir as metas acordadas no passado. Embora as emissões tenham caído em 2020, por causa da pandemia de coronavírus, a retomada deve provocar neste ano uma alta de 6%, o maior aumento em 30 anos, de acordo com o centro de estudos Agora Energiewende.

Propaganda eleitoral também preocupa ambientalistas

A questão ambiental movimenta também um aspecto bem mais corriqueiro das eleições alemãs: os cartazes de propaganda dos candidatos. Sua exposição é permitida e até protegida por lei, e há regras detalhadas sobre onde eles podem ser colocados, onde são proibidos – em escolas e prédios públicos, por exemplo.

Nas cidades visitadas pela Folha de S.Paulo, o volume de propaganda é modesto e se concentra nas ruas principais. Em Gelsenkirchen, na região oeste do país, o mais comum era que houvesse no máximo um cartaz por poste.

Em Hassloch, mais a sudoeste, há postes nos quais se empilham até quatro pôsteres diferentes, e também é possível notar que alguns foram arrancados. Em cidades maiores, como Berlim, regiões de maior passagem de pedestre podem ter acúmulo dessa propaganda, como mostram fotos em sites jornalísticos.

Estados e municípios também determinam quando eles podem começar a ser colocados -por volta de seis semanas antes da votação-, e em quanto tempo precisam ser retirados. Em geral, partidos devem mobilizar suas equipes para limpar todos os postes em no máximo duas semanas depois da eleição, para evitar multas. Em Berlim, o prazo é de uma semana.

É nesse ponto que começa o problema: qual o destino dessas centenas de milhares de cartazes? Ativistas ambientais reclamam que parte deles não pode ser reciclada e acaba nos incineradores de lixo, provocando desperdício e poluição.

Entidades começaram campanhas para que partidos mandem fazer seus pôsteres não de carvão, mas de polipropileno -um plástico de alta qualidade, ideal para reciclagem. O papelão costuma ser tratado com produtos químicos para sobreviver à chuva, e isso torna esses cartazes inadequados para a reciclagem.

Merkel foi de ‘chanceler do clima’ a ‘rainha das montadoras’ “A questão do aquecimento global é, na minha opinião, uma das questões ambientais mais importantes com a qual temos que lidar”, disse, em 1995, Angela Merkel, apontada como ministra do Meio Ambiente pelo premiê Helmut Kohl.

Nesse mesmo ano, foi ela que organizou em Berlim a primeira COP (conferência da ONU sobre a crise do clima), que chega agora à 26ª edição. De lá para cá, sua atuação na área oscilou e divide opiniões dos cientistas e ativistas da área. A economia alemã é a sexta maior emissora de carbono do mundo, e quase um terço da eletricidade vem de termelétricas movidas a carvão ou linhito, combustíveis altamente poluentes.

As emissões alemãs de carbono per capita são maiores que as do Reino Unidos e as da França, segundo a Edgar (base de dados de emissões para pesquisa global atmosférica, na sigla em inglês): 9,4 toneladas por pessoa na Alemanha, contra 5,6 e 5,1 nos outros dois principais países europeus.

Um sinal de que pouca coisa avançou talvez seja o discurso da própria Merkel em julho deste ano, falando a estudantes americanos da Universidade Johns Hopkins. Passados 26 anos depois da declaração como ministra, ela continua descrevendo a crise climática “o desafio de nossos tempos”.

Acompanhe alguns momentos da atuação ambiental da atual primeira-ministra alemã

1994 – Torna-se a ministra do Meio Ambiente 1995 – Organiza em Berlim a primeira COP
1997 – É uma das principais negociadoras do protocolo de Kyoto
1998 – A coalização de governo formada pelos sociais-democratas e pelos Verdes decide implantar uma reforma energética no país e passa uma lei de energias renováveis para incentivar parques eólicos e solares
2005 – Merkel assume como primeira-ministra. Neste ano, 10% da produção bruta de energia alemã vinha de fontes renováveis
2007 – Após relatório da ONU sobre as consequências dramáticas do aumento das temperaturas globais, lidera decisão da UE em direção a metas obrigatórias de redução de emissões
2009 – A recessão provocada pela crise financeira faz Merkel recuar do combate às emissões, para defender a indústria automobilística alemã
2011 – Após o desastre de Fukushima, determina o fechamento de usinas nucleares na Alemanha
2013 – É chamada de ‘rainha das montadoras’ sob suspeita de intervir pessoalmente para evitar limites mais rígidos emissões de CO2 para carros na UE
2015 – Estoura o escândalo da Volkswagen, que usou técnicas fraudulentas de 2009 a 2015 para reduzir as emissões de dióxido de carbono e óxido de nitrogênio de alguns dos seus motores a diesel e gasolina; o caso arranhou a imagem da indústria alemã
2020 – Produção de energia bruta alemã chega a 45% com fontes renováveis; capacidade instalada de geração de eletricidade de energia eólica, solar, biomassa e hidrelétrica passou de 30 gigawatts em 2005 para 130
2020 – Relatórios indicam que expansão das energias renováveis estagnou, devido a obstáculos regulatórios e ao sistema de leilão introduzido pelo governo Merkel
2021 – Em maio, a Suprema Corte alemã determina que o governo Merkel estabeleça políticas climáticas mais rígidas, para evitar repassar o custo para gerações futuras 2021. Como resultado, o corte de emissões até 2030 passou de 55% para 65%. O plano também prevê que a Alemanha alcance emissão líquida zero em 2045, e não mais em 2050. Usinas elétricas a carvão seriam fechadas até 2038. Também é criticada por manter vivo o projeto de gasoduto russo-alemão Nord Seam 2, que implica a utilização de gás de origem fóssil durante várias décadas