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23 de janeiro de 2022
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Priscilla Peixoto – Da Cenarium

MANAUS – Aos 72 anos de idade, rodeada de pincéis, tintas e telas, assim é a rotina de Dona Joana Ferreira, que se redescobriu em meio à pintura. A amazonense, nascida em Lábrea, município a 701 mil quilômetros da capital Manaus, mãe de 12 filhos, precisou, durante a pandemia, buscar na pintura terapêutica uma alternativa para passar o tempo e não cair no tédio do isolamento social.

“Eu acho ótimo, me sinto bem e me deixa feliz. Nunca tinha pintado antes e não tinha oportunidade. Até para estudar antes era difícil, imagine se dedicar à arte ou usá-la como forma de ocupar a mente”, conta Joana em tons de risos.

O estímulo para o despertar criativo de Joana partiu da filha, Juci Melo. Preocupada com o bem-estar e saúde mental da mãe, a presenteou com livros de colorir, telas e materiais que incentivassem atividades artísticas. “Particularmente, estou muito orgulhosa dela começar a fazer isso e compartilho para inspirar outros idosos que ficam muito em casa, sem atividades. A pandemia agravou a ociosidade dessa turma”, ressalta Juci.

A pintura tem sido um refúgio para a idosa durante a pandemia (Reprodução/Pixabay)

Criança interior

A lambreense, que já trabalhou na agricultura e tem parte da vida dedicada aos filhos, estudou apenas até a quarta série e possui poucas referências artísticas. O fato não a impede de expressar, ainda que de forma tímida, toda a criatividade. “Ela tem traços muito elementares, sabe aquelas coisa de crianças que ficou e que é colocada para fora só agora? Eu acho muito bonito por isso. Seja uma tela que ela começou a se dedicar agora ou as pinturas com traços já marcados que são as terapêuticas”, explica Juci.

Logo que ganhou os primeiros livros e materiais de pintura, a filha relembra que a mãe apresentou uma certa resistência em aceitar o desafio que hoje é sua atividade diária favorita. “Eu pensava que não ia dar conta, era difícil e achava que não ia conseguir, mas com o livro terapêutico eu fui fazendo aos poucos e agora eu adoro pintar e tenho orgulho de cada pincelada que dou do meu jeitinho”, conta dona Joana.

Livros de pinturas que despertou o interesse de dona Joana em pintar telas (Reprodução/Arquivo Pessoal)

Pandemia x idoso

Em abril deste ano, uma pesquisa realizada pela Universidade de Chicago mostrou que o isolamento imposto por conta da pandemia poderia aumentar o risco de morte nas faixas etárias mais avançadas em até 14%. De acordo com o Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da Organização Mundial da Saúde (OMS), o nível de estresse deve aumentar em todo o mundo em função do isolamento domiciliar.

No caso dos idosos, a situação se torna ainda mais delicada por conta da maior vulnerabilidade ao vírus, o isolamento social aliado ao excesso de informações negativas. Especialmente para aqueles com a vida social mais ativa. Pesquisadores da Universidade de York divulgaram também em abril deste ano, um estudo abordando que a solidão e o isolamento social potencializam o risco de acidentes vasculares em até 32% e cardíacas em até 29%.

A pesquisa afirma que em relação aos idosos, o isolamento pode agravar quadros de depressão e diminuir a capacidade cognitiva. A jornalista atenta para a importância dos cuidados e estímulos para essa parcela da população. Ela acredita que os idosos necessitam de incentivos para buscar desenvolver atividades agradáveis e que não os limitem”.

Afetividade

Na leitura do psicólogo Adan Silva, a iniciativa da filha reforça o valor da afetividade reciprocidade familiar. Traz o reconhecimento da pessoa idosa como sujeito de direito e promove a reflexão de como é importante manter ativos os idosos.

“Existe uma questão cerebral chamada neuroplasticidade que basicamente é a capacidade do cérebro de se reinventar e a arte de um dos principais elementos que podemos utilizar nesse processo para manter o idoso ativo e estimulado e se perceber como sujeito capaz. Com essas ressignificações ganha a idosa, ganha a família e a sociedade quando reconhece nele um sujeito de direitos”, explica o especialista.

Juci Melo e a mãe Joana Ferreira (Reprodução/arquivo pessoal)

Para eternizar

Fã número 1 da nova pintora da familia, Juci vê em cada livro de pinturas, cada tela produzida, um pedacinho da mãe em forma de arte. A jornalista pretende em transformar as pinturas da mãe em quadros para embelezar a casa e eternizar dona Joana como a artista da família.

“Eu quero todas as pinturinhas dela em quadros para alegrar a minha casa. Não vou ter minha mãe para sempre e é a forma de eternizar a presença dela”, diz a filha em companhia da mãe que complementa. “Se permitam, se deem uma chance. Eu me redescobri e não pretendo parar ainda, é só começo, preciso praticar mais”, finaliza dona Joana.