Indígenas unem ancestralidade e ciência em ritual para agradecer chegada da vacina para crianças

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – A menos de dois dias em que se completa o primeiro ano do início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil, indígenas comemoraram nesse sábado 15, em um ritual que uniu ancestralidade e ciência, na aldeia Mata Verde, em Maricá, no Rio de Janeiro, a chegada do imunizante da Pfizer para o público infantil. A aplicação das doses para a faixa etária de 5 a 11 anos foi aprovada há menos de um mês pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas enfrentava resistência do Governo Bolsonaro.

Ao longo da celebração emocionante, enquanto os profissionais da saúde chegavam com as vacinas, crianças e adultos, com as mãos dadas, se juntaram em um círculo, onde cantaram, dançaram e tocaram instrumentos musicais. A cerimônia foi filmada e compartilhada nas redes sociais.

“Já era noite quando as vacinas chegaram. A vida tem pressa. E, em Maricá, a decisão é vacinar. Num ritual que uniu ancestralidade e ciência, a Aldeia Mata Verde celebrou com cânticos de seu idioma originário, tupi-guarani, a chegada das doses de vida para proteger suas crianças”, escreveu a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), em uma publicação no Twitter.

Os indígenas são considerados grupo de risco, por serem mais vulneráveis ao vírus da Covid-19, já que vivem em grupos e longe dos ‘grandes’ postos de saúde, conforme já alertavam autoridades sanitários de todo o mundo desde o início da pandemia. Em um momento onde a ciência sofre com o negacionismo, para a população, o vídeo da chegada da vacina contra o novo coronavírus para as crianças é a realização de um sonho difícil de ser alcançado.

“Que coisa mais linda! Sempre que vejo gente opondo ciência e crenças, me sinto triste e me pergunto porque não podem conviver. Esse vídeo foi a realização de um sonho que eu nem saberia imaginar”, escreveu Maria Sorella, usuária do Twitter.

Um outro internauta lembrou de fake news disseminadas por negacionistas bolsonaristas que são contra a vacina, e comemorou o fato dos indígenas não serem enganados e mesmo assim se imunizarem. “Que beleza de cena, que bom que os indígenas não foram enganados pelos negacionistas bolsonaristas, que Tupã os proteja”, publicou Richard Ghibu, no Twitter.

Bem coletivo

Para especialistas, a saúde do público infantil é um bem coletivo e individual e a vacinação de menor de 18 anos, por ocasião da indicação das autoridades sanitárias, está prevista no artigo 14 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “O bem-estar da criança e do adolescente não é um dever apenas dos pais, mas do Estado e da sociedade como um todo”, declarou o advogado e professor em Manaus Juan Pablo, mestre em Direito Ambiental e doutorando na Universidade de Coimbra.

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Além disso, de acordo com o mesmo estatuto, no artigo 98, as medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos deles forem ameaçados ou violados, por ação ou omissão da sociedade ou do Estado, por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável e em razão da própria conduta da criança e do adolescente.

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Por conta disso, pais ou responsáveis que se negarem a vacinar crianças podem perder a guarda dos filhos, pois eles estão sujeitos à aplicação de medidas previstas no artigo 129 do ECA, como a perda da guarda e do pátrio poder familiar.

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